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Idelber Avelar

Frase de presidente ecoa mito do branqueamento na Argentina, que apaga indígenas e negros

'Brasileiros saíram da selva, argentinos chegamos de barcos', dita por Fernández, lembra que racismo é estrutural no país

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Idelber Avelar

Professor de estudos latino-americanos na Universidade Tulane, em Nova Orleans (EUA). Seus escritos sobre a Argentina estão publicados em ‘Alegorias da Derrota’ (UFMG, 2003) e ‘Figuras da Violência’ (UFMG, 2012). Seu livro mais recente é ‘Eles em Nós: Retórica e Antagonismo Político no Brasil do Século 21’ (Record, 2021)

[RESUMO]Afirmação do presidente Alberto Fernández de que os brasileiros saíram da selva e os argentinos chegaram de barcos da Europa remete a dois pontos cruciais na fundação da identidade argentina, unidos desde o clássico livro "Facundo" (1845): as citações apócrifas (no caso em questão, falsamente atribuída ao mexicano Octavio Paz) e a estratégia racista de apagar a presença de ameríndios e negros, reivindicando uma filiação exclusiva com o branco europeu.

A frase dita pelo presidente Alberto Fernández em 9 de junho (“Octavio Paz escreveu uma vez que os mexicanos saíram dos índios, os brasileiros saíram da selva, mas os argentinos chegamos dos barcos”) contém tantas camadas de racismo que vale a pena desempacotá-la à luz da história argentina, inclusive para deixar claro o quão pouco original é a visão que ela expressa.

A citação era falsa, como se sabe. Octavio Paz jamais disse tal coisa, embora não seja inverossímil que pudesse ter dito. O fato, contudo, é que Fernández atribuiu ao poeta mexicano uma estrofe do músico e letrista rosarino Litto Nebbia, em cuja canção “Llegamos de los Barcos” aparece um dito semelhante.

É verdade que há outra frase frequentemente atribuída a Paz, por exemplo pelo escritor argentino Marcos Aguinis, em seu livro “O Atroz Encanto de Ser Argentinos” (2001). Esta nada diz sobre selvas, brasileiros ou índios e faz outra generalização que omite as culturas e experiências afro-atlânticas: “Os mexicanos descendem dos astecas, os peruanos dos incas e os argentinos dos barcos”.

Um ano antes, o compatriota de Paz, Carlos Fuentes, em “Os Cinco Sóis do México” (2000), havia atribuído a mesma frase ao escritor argentino Martín Caparrós.

Como se vê, o presidente Fernández não estava senão reiterando uma venerável tradição nacional, o labirinto das citações falsas. Há quase um século o escritor maior argentino, Jorge Luis Borges, passava a criar jogos com citações apócrifas nos quais se vislumbrava uma forma particular de se estar no mundo, uma condição e quase fatalidade.

Na crítica literária argentina, abundam as reflexões sobre como Borges, ao tematizar o apócrifo, refletia, na verdade, sobre uma condição nacional. Esta é uma das chaves de leitura propostas pelo escritor Ricardo Piglia, desde a revista Literatura y Sociedad, dos anos 1960, até as últimas obras publicadas antes de sua morte, em 2017.

Interrogar-se pelo papel das citações apócrifas na fundação da Argentina não significa sair do tema do racismo. Muito pelo contrário, implica mergulhar de cabeça nele. Elas cumpriram papel central no livro que estabeleceu o plano de branqueamento que se impôs na Argentina na segunda metade do século 19.

“Facundo, ou Civilização e Barbárie” (1845), de Domingo Faustino Sarmiento, é uma das obras publicadas pelo exílio liberal antirrosista, espalhado por cidades como Montevidéu, Rio de Janeiro ou a Santiago em que Sarmiento imaginou sua fórmula encharcada de racismo, de que “o mal que aflige a república argentina é a extensão: […] o despovoado sem uma habitação humana”, para o qual a solução sarmientina logo passaria a ser conhecida: povoar, entendido como povoar com gente europeia, branca.

Sarmiento terminou sendo o nome canônico da geração que se opôs à Confederação Rosista (1829-1852), em parte porque “Facundo” sintetizou as tarefas que aquela elite argentina se colocava, e que viriam a se realizar em parte na futura Presidência do próprio Sarmiento (1868-1874).

“Facundo” é um manifesto liberal-modernizador, uma biografia do caudilho Juan Facundo Quiroga (a quem Sarmiento vê como manifestação do bárbaro autêntico, aquele que mata onças a unha), um libelo contra o chefe de Estado Juan Manuel de Rosas (a quem o livro retrata como a barbárie em seu momento degenerado, de pura capangagem traíra) e uma descrição histórica, geográfica e antropológica da Argentina, escrita antes que Sarmiento tivesse qualquer experiência de primeira mão no interior do país.

Na “advertência ao leitor”, Sarmiento inicia a obra que fundaria o Estado argentino moderno com uma citação falsa: “On ne tue point les idées” (não se matam ideias) é a frase que ele relata ter escrito com carvão em uma parede depois de ser espancado por uma turba rosista. Ao narrar o suposto episódio, Sarmiento elucubra que a força policial que o perseguiria não seria capaz de entender o dito, que ele atribui ao escritor e presidente venezuelano Fortoul.

O futuro diretor da Biblioteca Nacional argentina, Paul Groussac, depois apontaria que Sarmiento atribuíra a Fortoul uma frase que era, na verdade, do filósofo Volney. Groussac foi depois corrigido pelo pesquisador francês Paul Verdevoye, que encontrou a fonte não em Fortoul ou Volney, mas em outro filósofo, Diderot.

Pintura de Maria Remedios del Valle, militar afro-argentina apelidada de mãe da pátria, pela artista Ana Lucero Gaia - Divulgação

Sarmiento havia distorcido o enciclopedista, que escrevera: “On ne tue pas de coups de fusil aux idées” (não se matam as ideias a tiros de fuzil). Como apontou Ricardo Piglia, a operação da frase não se joga no que ela diz, mas no fato de estar em francês. Quem são aqueles a quem Sarmiento chama de bárbaros? São os incapazes de entender corretamente a frase que, em ironia involuntária, o autor cita em francês incorreto.

Depois da derrota imposta pelas tropas do general Urquiza a Rosas na batalha de Caseros (1852), iniciou-se a implementação do projeto da elite liberal do exílio antirrosista, cuja relação com os universos ameríndio e afro-atlântico combinariam a rasura, a invisibilização e o extermínio.

É caudalosa a documentação recolhida pela antropologia e pela historiografia argentinas sobre a vibrante vida afro-portenha no século 19 (veja-se, por exemplo, “Aspectos de la Cultura Africana en el Río de la Plata”, de Néstor Ortiz Oderigo, obra já clássica de 1974).

No censo municipal de 1778, negros e negras totalizavam 30% da população de Buenos Aires (7.256 de 24.363). O censo de 1810 registrou porcentagem semelhante: os afro-argentinos eram 9.615 entre 32.558 habitantes.

Pelo censo de 1838, já na época da Confederação Rosista, os afro-argentinos eram 13.967 e representavam um quarto da população do município. Meio século depois, pelo censo de 1887, Buenos Aires já não era uma aldeia, contava com 433.375 habitantes, mas destes apenas 8.005 (ou seja, menos de 2%) eram negros e negras.

O que aconteceu nesse meio século? Aqui há controvérsias sobre como contar a história e qual peso atribuir a fatores como a sobrerrepresentação dos negros entre os recrutados à força para a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai (1865-1870) e, na década seguinte, as campanhas de genocídio contra os povos ameríndios do sul, eufemicamente conhecidas como “guerras de fronteira”.

Há controvérsias, inclusive, sobre como ler os números dos censos, na medida em que se identificar como negro na Argentina de 1887, durante o cume do genocídio ameríndio no país, representava experiência bem distinta de fazê-lo na Argentina de 1838, durante a confederação populista de Rosas.

Sobre esse meio século, sabemos que os censos municipais deixaram de registrar a categoria de raça, bem no período em que os números oficiais da população afro-portenha diminuem drasticamente, mesmo em termos absolutos.

Ao contrário do Brasil, cujo discurso de identidade nacional se construiu a partir de noções como mestiçagem —que também cumprem um papel de invisibilizar experiências ameríndias e afro-brasileiras—, a Argentina é singular em seu discurso de formação nacional. Ele reivindica o branco europeu como único tronco, tacitamente dá os ameríndios por totalmente exterminados e pressupõe os negros como desaparecidos, diluídos, sumidos, não mencionados, atualmente inexistentes.

Como é comum em gosmas ideológicas homogeneizantes, o discurso dominante sobre a formação nacional argentina se apoia em um fundamento verdadeiro: na onda migratória europeia às Américas entre o final do século 19 e o começo do século 20, a Argentina realmente recebeu imigrantes em altos números. Seus mais de 6 milhões de recém-chegados europeus só são menos numerosos, em termos absolutos, que os aportados nos Estados Unidos.

A prática e o discurso do branqueamento, contudo, não se impuseram sem resistências. Em resposta à frase de Fernández, a Confederação Mapuche de Neuquén e a Coordenação do Parlamento Mapuche de Rio Negro publicaram potentes respostas, nas quais lembravam que até 2000 os censos não incluíam a possibilidade de autoidentificação como indígena, e que no censo de 2010 contaram-se 955 mil indígenas, o equivalente a 2,38% da população argentina.

No Página 12, um jornal que apoia o governo de Fernández, a criminóloga Valeria Vegh Weis reclamava a constituição de uma comissão da verdade indígena, que produzisse sobre o genocídio ameríndio na Argentina um documento comparável ao Nunca Más, o informe sobre a matança perpetrada pela recente ditadura (1976-1983).

Não deixa de ser instrutivo que o autor (ou repetidor) da frase racista seja um presidente eleito com uma plataforma de direitos humanos. Não custa lembrar, para duplicar a ironia, que se trata de uma frase dita para criar cumplicidade europeísta com o interlocutor, no caso o chefe de governo espanhol, Pedro Sánchez, um mestiço que dificilmente seria reconhecido como branco no universo dos sonhos de Sarmiento, que vislumbrava uma Argentina povoada por europeus do norte.

A terceira ironia talvez ainda não esteja totalmente visível mesmo para um presidente de considerável história de leitura como Fernández. Em pelo menos cinco golpes militares argentinos (1930, 1955, 1962, 1966 e 1976), o discurso racializado esteve presente. A partir de 1955, os golpes militares sempre tiveram lugar contra os sujeitos designados como “cabecitas negras”, epíteto racista com o qual a elite portenha se referiu às massas mestiças que chegavam do interior a Buenos Aires durante a industrialização peronista.

A referência às cabeças tampouco era aleatória. A elite olhava as multidões peronistas de cima, de suas sacadas, e seu discurso de pânico invariavelmente incluía a defesa da herança europeia argentina.

Que uma frase tão evidentemente racista tenha sido pronunciada por um presidente advindo de uma força política tantas vezes atacada com epítetos racistas como o peronismo não deixa de ser um lembrete do caráter estrutural e nacionalmente disseminado do problema.

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