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Fillipe Mauro

Nascido há 150 anos, Proust marcou cultura brasileira e fez sucesso até na TV

Novos títulos iluminam a presença do autor francês no país e reacendem o debate acerca da relação entre autor e narrador

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Fillipe Mauro

Doutorando em literatura francesa e comparada na USP e na Universidade de Paris III – Sorbonne Nouvelle. Estuda o romance de Marcel Proust e sua presença na moderna literatura brasileira

[resumo] Celebrações dos 150 anos de nascimento do escritor francês reforçaram a costumeira avalanche de lançamentos a respeito de sua obra. Novos títulos iluminam a presença de Proust na cultura brasileira moderna e reacendem o debate acerca da relação entre autor e narrador e da autonomia da ficção frente a biografia de seu criador.

Os escritos a respeito de Marcel Proust são como as vassouras do poema de Goethe. Novos achados e especulações sobre a elaboração de “Em Busca do Tempo Perdido” se multiplicam com frequência impressionante. Na França, inundam as estantes das livrarias, conquistam rapidamente os cadernos de cultura e costumam desfrutar de boa audiência.

O fenômeno foi reforçado recentemente por uma irresistível sequência de efemérides. Celebrou-se em 2013 o centenário de publicação de “No Caminho de Swann”, o primeiro dos sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”. Seis anos depois, foi a vez de festejar os cem anos de “À Sombra das Moças em Flor”, o segundo volume. Em 10 de julho, são comemorados os 150 anos de nascimento do autor, e já se preparam encontros e publicações para o ano que vem, em homenagem aos cem anos de sua morte.

Marcel Proust de ponta cabeça em uma escada bebendo com um canudo de uma garrafa
Pintura 'Marcel Proust Drinking Pernod', de Javier Mayoral - Javier Mayoral/Divulgação

As celebrações trouxeram uma grata surpresa aos brasileiros interessados por Proust. Em toda a longa “Em Busca do Tempo Perdido”, há apenas uma única menção ao Brasil. Está no “Caminho de Guermantes”, terceiro volume do romance.

A expressão do personagem de um historiador da Fronda, série de guerras civis ocorridas na França entre 1648 e 1653, remete o herói asmático ao olhar charlatão “de um médico brasileiro que pretendia curar as crises do tipo que eu tinha com absurdas inalações de essências de plantas”. Nossa epidemia de cloroquina não o surpreenderia.

A representação pouco lisonjeira de Proust não impediu, contudo, que o Brasil lesse seu romance em grandes doses e com raro fervor. “Proust sous les Tropiques”, do historiador suíço-brasileiro Étienne Sauthier, é o primeiro livro sobre essa ampla circulação da obra de Proust pela cultura brasileira. Foi publicado no início deste ano na França pela editora Septentrion.

Mais que uma leitura da imagem do escritor na imprensa brasileira, busca uma interpretação global para a presença da “Busca do Tempo Perdido” na construção de nossa identidade moderna.

Como diz Sauthier, o objetivo do livro não foi apenas verificar “em que medida a obra de Proust se comunica com o público brasileiro”, mas também avaliar “como ela mesma pode se ler e se definir nessa leitura”. Entre poemas, romances, traduções, estudos críticos e clubes de leitura, não é exagero dizer que o Brasil criou um Proust que lhe é próprio.

O escritor francês Marcel Proust em foto de Otto-Pirou - Otto-Pirou/Reprodução

Ouviu-se falar de Proust no Brasil pela primeira vez ao final de 1919, quando “À Sombra das Moças em Flor” venceu o consagrado prêmio Goncourt. O contexto histórico foi bastante propício. Por um lado, o desfecho da Primeira Guerra Mundial levava a França a tentar restabelecer o trânsito da cultura europeia; por outro, a elite intelectual brasileira se empenhava em desbravar a cultura nacional sem abrir mão de um atento olhar cosmopolita sobre as vanguardas do Norte.

A partir de então, como disse há alguns anos Walnice Nogueira Galvão, “crítico brasileiro que se prezasse frequentava Proust”.

O primeiro artigo crítico sobre ele no país veio da pena de Graça Aranha, em 1925. Trata-se de um comentário apressado e vulgar em que dizia que “Proust não nos rejuvenesce” e que seu livro, carente de “senso filosófico”, promovia uma “decomposição do universo” sem “recomposição estética”.

Dois anos depois, Alceu Amoroso Lima, nome forte do conservador círculo dos escritores católicos, partiu em defesa do autor e o descreveu como um “explorador da alma humana” à altura de Montaigne.
Na literatura brasileira, as alusões a Proust são numerosas. O exemplo mais corriqueiro são os sete volumes das memórias de Pedro Nava, mas há ainda vários outros casos intrigantes.

Uma importante passagem do romance “A Mulher Obscura”, publicado em 1939 por Jorge de Lima, se inicia com a seguinte frase: “Há muito tempo me deitei para dormir”, cópia canhestra do início do romance de Proust.

Em “No Tempo da Flor”, de 1966, Augusto Meyer apresenta ao leitor um moribundo personagem que “ia ler todas as manhãs um estranho e delicioso livro intitulado ‘À L’ombre des Jeunes Filles en Fleurs’”, título original de “À Sombra das Moças em Flor”.

O narrador de Jorge Andrade, em “Labirinto”, de 1978, vive uma experiência de memória involuntária que é uma “xícara mais encantada do que a de Marcel Proust”.

E o protagonista de “A Menina do Sobrado”, publicado por Cyro dos Anjos em 1979, viaja a Haia na esperança de contemplar a “Vista de Delft”, de Vermeer, e “captar o mesmo sentimento que o petit pan de mur jaune despertou em Bergotte”, referência à morte do personagem do escritor em “A Prisioneira” (1923), quinto volume de “Em Busca do Tempo Perdido”.

Nos anos 1950, a editora Globo lançou a primeira tradução de Proust em língua portuguesa, levada a cabo pelo crème de la crème de nossa moderna literatura: Mário Quintana, Manuel Bandeira (com Lourdes Sousa de Alencar), Carlos Drummond de Andrade e Lúcia Miguel Pereira.

A capa do livro de Sauthier recupera uma rara imagem da fachada da Livraria da Globo no contexto desse lançamento. Há volumes de “No Caminho de Swann” espalhados por cada centímetro da pequena vitrine. Ao centro, paira uma grande cópia da famosa fotografia de Proust por Otto Wegener. O anúncio grandiloquente que a acompanha dá o tom da importância do evento: “A editora Globo tem o orgulho de apresentar ao público brasileiro o nome mais importante da literatura francesa moderna”.

Apesar de o francês ter sido por muitos anos o segundo idioma do ensino básico brasileiro, essa primeira tradução foi, segundo Sauthier, um marco do processo de democratização do nome de Proust.
Uma outra tradução —mais sisuda, menos colorida, porém mais precisa— foi publicada nos anos 1980 pelo poeta Fernando Py. Há ainda uma aguardada terceira versão, capitaneada por Mario Sergio Conti e Rosa Freire d’Aguiar, que deve vir a público muito em breve pela Companhia das Letras.

Proustianos franceses ainda se espantam quando descobrem que, em junho de 1947, menos de 15 dias após a fundação da Associação dos Amigos de Marcel Proust de Illiers-Combray, seus colegas brasileiros inauguravam um Proust-Clube na ensolarada praia de Copacabana, com sede no apartamento do banqueiro Walther Moreira Salles.

Em 1956, a socialite Christiane Mendes Caldeira participou de uma edição do primeiro programa de perguntas e respostas da televisão brasileira, O Céu É o Limite, na TV Tupi. Teve de responder a questões sobre “Em Busca do Tempo Perdido” e, por isso, se tornou conhecida em toda São Paulo. Andava pelas ruas e os pedestres gritavam: “Olha lá! Lá vai a dona Christiane. Sabe tudo sobre Proust. É fera em Proust”.

Todos esses casos ganham detalhada interpretação no livro de Sauthier. Ele recupera ainda a hipótese mais anedótica que se conhece para a chegada do romance de Proust ao Brasil. Ela foi narrada pela primeira vez nos anos 1960 pelo crítico Tadeu Rocha, cujo depoimento acaba de ser traduzido em francês pelo próprio Sauthier para a edição de 2021 da revista literária Cahiers de l’Herne.

O ator Marcelo Mazzarella que interpreta Marcel Proust, em cena do filme "O Tempo Redescoberto" - Divulgação

Henri Rochat, jovem garçom do Ritz —para uns, referência de Proust ao criar Albertine; para outros, modelo do diabólico personagem Charles Morel—, teria trazido ao Brasil os primeiros volumes de “Em Busca do Tempo Perdido”.

De mudança para Buenos Aires, onde Proust lhe garimpara um cargo no Banco de Paris e dos Países Baixos, Rochat fez uma escala em Recife. Gastador, teve de entregar suas malas para pagar dívidas com a hospedagem em uma pensão. Lá abandonou os livros, que um piloto da antiga Latécoère levou em seguida para Maceió e ofereceu a seu médico, o poeta Jorge de Lima, autor da “Invenção de Orfeu”.

A série de conferências Le cercle de Marcel Proust, que ganha neste ano seu terceiro volume graças à editora Honoré Champion, traz um artigo da pesquisadora Pyra Wise a respeito dessa conturbada relação de Proust com Henri Rochat.

Suas investigações também atingiram, por outros caminhos, a trilha brasileira de Sauthier. Elas revelaram o fato de que Rochat, ao ser indagado no Brasil sobre a origem de seu dinheiro, dizia sempre receber mesadas de uma “tia rica” de Paris.

Por muito tempo, proustianos brasileiros tiveram a certeza de que tal figura fosse Céleste Albaret, governanta de Proust. Wise, todavia, considera mais provável que “a tia” correspondesse à gíria pejorativa contra homossexuais —portanto, uma perversa alusão a Proust e à raça de invertidos de seu romance.

Autor vs. narrador

As implicações biográficas na construção da monumental obra proustiana, e as diversas interpretações que se fazem dessa relação, são tema de um outro importante, e controverso, lançamento.

Saul Friedländer, historiador premiado em 2008 com um Pulitzer por seus estudos sobre o Holocausto, viu-se instigado diante desse frenesi contemporâneo da leitura de Proust. Seu ensaio “Proustian Uncertainties” foi escolhido um dos principais títulos de 2020 pelos editores do “Times Literary Supplement” e acaba de ser traduzido para o francês pela editora Seuil.

À moda dos estudos culturais em voga na Universidade da Califórnia, onde é professor emérito, Friedländer tenta discernir no “Em Busca do Tempo Perdido” uma “camada profunda de autenticidade” e de “identidade”. Infla as zonas de contato entre o narrador e o autor, transforma a ficção em autobiografia para que o romance não seja mais que o prolongamento de um discurso, a confirmação de uma ideologia mascarada.

Trecho de "Em Busca do Tempo Perdido", adaptação para os quadrinhos da obra de Marcel Proust. A versão para os quadrinhos, feita pelo ilustrador Stéphane Heuet, é publicada no Brasil pela editora Jorge Zahar. - Divulgação

Seu objetivo “não é descobrir apenas o que o narrador quer dizer”, mas, sobretudo, as “pistas astuciosas ou tentativas de camuflagem do autor ao se valer das declarações do narrador”.

Surgem dessa reversibilidade entre narrador e autor as conclusões mais estapafúrdias. O narrador promoveria um “discurso de ódio” contra o barão de Charlus porque o autor talvez desejasse evitar um “romance abertamente homossexual” que “repelisse vários de seus leitores”.

Ainda assim, contudo, o autor deixaria entrever sua homossexualidade em um “subtexto”, ao descrever com enorme interesse o encontro entre Charlus e Jupien nos fundos da alfaiataria e representar de modo “totalmente artificial, como se fora copiado de uma enciclopédia” o corpo de Albertine.

O narrador se permitiria ainda “insultar” Bloch, “ironizar” Swann e representar “negativamente” os judeus porque ele próprio, o autor, seria “indeciso” quanto a seu judaísmo.

Friedländer nada diz sobre a visão piedosa do narrador diante de um Charlus humilhado por Morel. Também não lhe ocorre a bela cena de êxtase que exprime o narrador ao surpreender o “pescoço nu” de Albertine no Grande Hotel de Balbec. Ele se esquece da reação ácida de Oriane de Guermantes contra o antissemitismo de madame de Gallardon, em defesa do amigo Charles Swann.

É difícil enquadrar os personagens de Proust em identidades. Eles são o produto complexo de um lento processo de transformação e negação das identidades em favor de essências comuns. A saga “Em Busca do Tempo Perdido” é sempre lembrada por sua profusão de pormenores, mas nunca é demais ressalvar que esses pormenores se somam para culminar em uma visão geral e profunda da existência.

Nada também mais avesso ao projeto estético de Proust que a confusão entre autor e narrador, entre o eu biográfico e o eu criativo. A ilusão é denunciada desde os primórdios da redação da “Busca do Tempo Perdido”, em um adágio já bastante conhecido nos escritos de Proust editados postumamente em “Contra Sainte-Beuve”: “Um livro é o produto de um outro eu, diferente daquele que manifestamos em nossos hábitos, na sociedade, em nossos vícios”.

Há outras diversas temeridades no livro de Friedländer: o romance “raramente possui algum enredo”, não se vê em lugar algum “sequer um indício da aparência” dos pais e não se vê uma “tentativa nele de experimentar novas formas de narração ou de estilo”.

Contra esse tipo de imprecisão é que se insurge a crítica genética, interessada em uma interpretação do processo de criação de uma obra a partir do deciframento de seus textos preliminares. Se “subtexto” há, ele não se encontra em entrelinhas hermeticamente “sentidas” ou “reconhecidas”, como diz Friedländer, mas, sim, em manuscritos, datilografias e provas corrigidas.

Os rascunhos tortuosos da “Busca do Tempo Perdido” são publicados desde meados dos anos 1950, quando começaram a deixar o espólio familiar e coleções particulares para integrar um fundo público da Biblioteca Nacional da França.

Desde então, os arquivos apenas cresceram. Mais importante ainda, também ingressaram no acervo de manuscritos da biblioteca os lendários soixante-quinze feuillets (75 folhas) de Proust, de 1907. É com esse “graal”, agora editado em livro pela Gallimard, que Proust inaugurou a redação de seu clássico.
Repletas de rasgos, adesivos e manchas, as 75 folhas habitavam há décadas uma pasta cor bordô, guardada nas gavetas de Bernard de Fallois, primeiro editor dos manuscritos de “Jean Santeuil”, romance inacabado de Proust, e de “Contra Sainte-Beuve”.

As diferenças entre “Em Busca do Tempo Perdido” e os manuscritos iluminam muitos aspectos da criação proustiana. No romance, por exemplo, ao longo da cena encantada do passeio pela região de Hudimesnil, o herói avista três árvores que simbolizam o esquecimento e que “recobriam alguma coisa que não podia alcançar”. Nos manuscritos, o leitor também se depara com “uma espécie de avenida com grandes árvores que parecia saber aonde nos levava”.

No entanto, nos manuscritos, essa aleia constitui um simples déjà-vu e ainda não exprime o fenômeno de memória involuntária que se tornaria uma das marcas proustianas.

Essa é a razão pela qual Proust teria renunciado ao romance das 75 folhas e se dedicado logo em seguida ao ensaio em que contesta as ideias do crítico Sainte-Beuve, para quem a obra de um escritor seria sobretudo um reflexo de sua vida e poderia ser explicada por ela. Proust ainda carecia, a essa altura, da reflexão sobre a memória involuntária capaz de cimentar o conteúdo das folhas esparsas.

É como se as 75 páginas do manuscrito fossem a matéria bruta —pequenas narrativas de afetos, emoções e impressões— que as elaborações sobre o método de Sainte-Beuve articularão, proporcionando ao futuro romance um princípio organizador.

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