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Renato Janine Ribeiro

Mais que apenas um galã, Tarcísio Meira foi o herói ético de várias gerações

Renato Janine Ribeiro comenta o legado do ator, que morreu aos 85

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Renato Janine Ribeiro

Filósofo, é presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) e ex-ministro da Educação (governo Dilma, 2015)

[resumo] Professor de ética e filosofia política da USP analisa a imagem projetada por Tarcísio Meira no imaginário popular brasileiro ao longo de seis décadas, período em que conservou os atributos de charme, firmeza e virilidade que fizeram dele um guerreiro popular em nome de valores éticos.

Tarcísio Meira foi bem mais do que um ator: foi um símbolo forte. Era nosso mais famoso ator de novela, quase sempre galã, muitas vezes tendo como par romântico sua esposa, Glória Menezes, com quem esteve casado quase 60 anos – o mesmo tempo, praticamente, que a carreira cênica de ambos. Foram dezenas de novelas e muitos filmes.

Talvez o mais emblemático, para minha geração, tenha sido o longa “Independência ou Morte” (1972), em que ele fez dom Pedro 1º, e ela, sua amante, a marquesa de Santos. Um filme ambíguo, porque a ditadura militar usou politicamente as celebrações dos 150 anos da Independência – ao contrário do governo atual, que, provavelmente por não estimar a ideia de soberania nacional, não programou nada para o bicentenário, que será completado em menos de 13 meses.

Também era ambíguo porque foi usado pelo ufanismo ditatorial, mas, ao mesmo tempo, celebrava um amor proibido, adúltero, isso num tempo bem mais moralista que o atual.

O ator Tarcisio Meira em 1974

Não importa: a história de amor que aparece no filme é extraordinária. Nenhum outro país das Américas teve a Independência proclamada por um príncipe, ainda mais o próprio herdeiro da potência colonizadora.

Um príncipe que, além do mais, inicia o romance mais conhecido de sua vida em quase total coincidência com o grito do Ipiranga: na cama, os dois celebraram a Independência.

E, no entanto, naquela ocasião havia apenas uma década que o casal paradigmático das novelas brasileiras estava casado. Hoje, às vésperas do bicentenário, faz cinquenta anos que Tarcísio e Glória representaram o casal amoroso por excelência de nossa história política. Nas décadas que se seguiram, apareceram inúmeras vezes como casal, nas novelas.

Tanto assim que me lembro de “Guerra dos Sexos” (1983-4), em que, a certa altura, uma personagem comenta, num exemplo inovador de metalinguagem no gênero novelístico, que “dizem” que “desta vez” Glória não vai ficar com Tarcísio, como de fato não ficou nessa novela, uma rara exceção... (“Guerra dos Sexos” foi também uma das primeiras novelas a ter os personagens se dirigindo ao público, falando de seus papéis e do próprio enredo – outro exemplo de metalinguagem).

Tarcísio talvez seja o ator que por mais tempo esteve presente na telinha, o nome afetuoso que os conhecedores dão à televisão. Já em 1959, quando nossa TV mal completava uma década, estava no teleteatro da hoje extinta, mas inaugural, TV Tupi.

Sua última atuação na teledramaturgia se deu em 2018, numa participação especial na novela de época “Orgulho e Paixão”. Sua trajetória é paralela à da televisão brasileira.

Tornou-se um ícone, assim como sua esposa, que esperamos se recupere plenamente da Covid que o levou (embora ambos tivessem sido vacinados, o que nos faz recomendar o máximo de cuidados, mesmo para quem já recebeu a dosagem completa dos imunizantes). Ele era o paradigma de galã, o homem perpetuamente bonito; ela, o exemplo de mulher bela e elegante.

Por isso mesmo, a partir de certo momento, deixaram de ser suportes para seus personagens e se tornaram, também, personagens de si mesmos. Será por acaso que sua última atuação na TV, exibida já durante a pandemia, foi em “Os Casais que Amamos”, série documental sobre os grandes pares românticos das telenovelas? Ou seja, um programa no qual personagens e pessoas se misturavam.

Essa mistura do ator com a personagem não é rara. Lembro-me vagamente de uma novela dos anos 1980, no curso da qual faleceu um ator que fazia um personagem bom. Um de seus melhores amigos na vida pessoal fazia, na trama, o papel de seu inimigo perverso. Pois o amigo foi ao velório, em que alguns populares o insultaram, acusando-o da morte.

Stendhal, aliás, conta que no começo do século 19 um policial norte-americano matou o ator que fazia Otelo no teatro, dizendo que jamais deixaria um negro sair impune do assassinato de uma mulher branca.

No caso de nosso casal, a mistura entre pessoa e personagem foi para o bem, não para o mal. Jamais ouvi falar mal dele ou dela.

O que é ser galã? Não conta só a beleza, mas o charme, a firmeza, a virilidade. Não foi nada fácil sustentar esses atributos durante 60 anos, que coincidiram com mudanças radicais nos costumes, no Brasil e no mundo.

Pelo que ele mesmo conta, numa entrevista de dezembro de 2019, talvez uma virada importante em sua trajetória tenha sido o papel do capitão Rodrigo Cambará na minissérie “O Tempo e o Vento” (1985), inspirada na obra de Erico Verissimo (cujo sucesso talvez explique a inflação de nomes “Rodrigo” numa certa faixa etária brasileira, inclusive no Congresso Nacional...).

Tarcísio já tinha quase 50 anos, e não gostava do apelido de galã, que, diz, sempre considerou “um tanto zombeteiro”.

De fato, galã pode significar alguém meramente bonito, sem dotes artísticos especiais. Os personagens homens de Janet Clair, ele diz, “tinham um tom másculo, épico, eram cheios de bravura”.

Ora, aos 50 anos, poderia ele fazer um novo irmão Coragem? É uma façanha conservar o poder de sedução, como homem e como ator, ou na síntese de ambos, como foi ele por tantos anos.

Penso que Tarcísio esqueceu, nesta evocação, que um dos principais papéis de sua juventude, justamente o de João nos “Irmãos Coragem”, era o de herói: muito mais do que um homem apenas bonito, era um guerreiro popular, combatendo a prepotência em nome de valores éticos. Não foi apenas um sedutor.

É verdade que, talvez por convicção, talvez para ser a unanimidade nacional que foi, Tarcísio evitou tomar posições que o carimbassem de um lado ou outro das polêmicas políticas recentes.

Na entrevista de 2019, declara ter votado em Lula (mas não apertou o 13 em 2018, acrescenta) e ter convencido a mulher a fazer o mesmo; já quando lhe perguntam sobre os ataques de Bolsonaro à cultura, e de um secretário de Cultura bolsonarista a Fernanda Montenegro, acaba com o subalterno, mas nem menciona o chefe deste.

Na mesma entrevista, falando da polarização brasileira, diz que anda “com as duas pernas”. “Não posso caminhar com a direita sem a ajuda da esquerda, assim como não posso caminhar com a esquerda sem a ajuda da direita. O que estou vendo é que uma perna está brigando com a outra, e esse indivíduo, o Brasil, é capaz de soçobrar.”

Finalmente, a morte. Não terá sido por acaso que seu último papel no teatro foi a peça “O Camareiro”, obra-prima de Ronald Harwood, na qual ele representava um ator shakespeariano que, com a idade que Tarcísio tinha na época (84 anos), se confronta com as marcas do final da vida (o esquecimento, as manias, o andar trôpego), mas ainda conserva o apego à arte.

A morte assustava nosso ator, confessou ele, ante a perda de amigos e colegas. “A esta altura da vida, muitos colegas da minha idade se foram. Daqui a pouco, vou eu. Talvez eu deixe um vazio nas pessoas.”

Deixou, deixa, deixará.

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