Leia trecho de "Erva Brava", primeira ficção brasileira da editora Fósforo

Contos de Paulliny Tort levam ao cerrado embates entre Brasil arcaico e moderno

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[sobre o texto]  O trecho acima faz parte do conto “Má Sorte”, que integra o livro “Erva Brava”, primeira ficção brasileira da editora Fósforo. O livro, que chega às livrarias neste mês de outubro, retrata embates políticos, sociais e com a natureza no cerrado brasileiro.

Você diz que é domingo. E domingo é bom porque ganha mais. Não muito, mas melhor que dia de semana. A mãe ergue as sobrancelhas, se é assim, então vá, filho. Sentada à mesa da cozinha, na cadeira de rodas, ela interrompe o debulhar do feijão para lhe dar a bênção. Do lado de fora, você sobe na moto, coloca o capacete e vai singrar o vermelho da estrada, deixando a marca dos pneus na lama.

Choveu ontem à noite, choveu a semana inteira, mas hoje faz sol, um sol baço, desbotado, círculo de nata no céu encoberto de nuvens. Por onde passa, você vê a soja que desponta homogênea, cobrindo a terra como um tapete de silêncio. O único som naquele deserto verde é o da sua moto.

Ilustração de Juliana Russo

Na fazenda, atravessa a porteira que lhe abrem como se tivesse chegado alguém importante, gosta quando abrem assim a porteira, e isso só acontece aos domingos. Perto da recepção, estão seus companheiros, chegaram antes em uma saveiro sarapintada de ferrugem.

Você desce da moto e os cumprimenta com acenos de cabeça, eles falam do jogo de logo mais, vai passar na televisão, você não tem parabólica, ouve pelo rádio, mas está bom, prefere assim, porque no rádio o que conta é o futebol mesmo, não tem papo furado, isso lá é verdade, eles concordam, mas gostam de ver os gols.

Tomara que o serviço seja rápido, é, tomara. Dá tempo de fumar um cigarro, você puxa duas tragadas e cospe no chão. Fica olhando para a bola de cuspe, ela flutua na terra, é espessa, não se mistura, mas basta empurrar com a ponta da botina um torrão para que ela despareça. Quando termina de fumar, atira longe a bituca, está cheio de bitucas em torno da recepção, parece até que deram uma festa.

Pensa em acender outro cigarro, mas o administrador sai de repente de uma porta e gesticula, chamando-os para perto, com os óculos escuros metidos no alto da cabeça. O administrador não é igual a vocês. Os óculos, o cinto, o branco da camisa dele, tudo brilha. Tudo exceto os sapatos, invariavelmente embaciados por uma camada de poeira fina. O que é pra fazer, doutor? O que é que vocês acham? Desentupir, porra!

Choveu demais, você sabe. A umidade junta a soja em blocos e os grãos não escoam, entopem os dutos, o silo para de funcionar. Então é preciso subir a montanha de grãos e andar por cima dela, empurrando com as botinas até que os grumos se soltem. Vão os três, você e seus dois companheiros.

No silo, você é o primeiro a descer a escada, o primeiro a entrar e sentir o ar viciado, o cheiro da fermentação, o calor insuportável. Não é fácil respirar aqui dentro, mas os outros estão logo atrás, você pode ouvi-los.

Não que a presença deles mude alguma coisa, mas é reconfortante ter companhia nesse ambiente, onde tudo parece pesar mais. A montanha é gigantesca, quatro mil toneladas de soja, foi o que disseram, enchem mais de cem carretas. As paredes de metal estalam de vez em quando, estão quentes e ninguém quer que o desentupimento seja demorado.

Pensa no jogo, não admitiu para os companheiros, mas queria ter uma parabólica para ver os gols assim como os outros. Quem sabe trabalhando muitos domingos? Precisará beber menos, sair menos com os amigos, evitar o rio. Ainda se desse para tomar banho, mas não, você só fica lá, na beira, ouvindo música alta e gastando dinheiro com cigarro, petisco e bebida. Quantas vezes a mãe já não disse que essa vida é malsã? Que o melhor é você trabalhar duro, terminar os estudos, pensar em um emprego na cidade. Mas será? Em ritmo compassado, você continua a pisar os grãos, e pisa, e pisa.

Uma vez, você foi à aldeia dos caras-pretas com o seu padrinho, que vendia ferramentas para eles. Você nunca soube o que eles comemoravam, mas dançavam pisando mais ou menos assim enquanto tocavam chocalhos, talvez não fossem chocalhos, você não entende de índios, só sabe que pisavam a terra e faziam o chão tremer. Você não tem medo deles, na verdade, não tem medo de ninguém. Contam que sua bisavó era daquele povo, nunca crismada ou casada por padre, porque detestava igreja.

Mas melhor não pensar em bisavó, danças, chocalhos, essas bobagens. É a soja que importa. Vem à mente a imagem das plaquinhas que viu à beira da estrada, variedade CP4 EPSPS, muito embora você não saiba o que isso significa. É coisa do dono da fazenda, essa gente tem manias demais. Conforme pisa, os blocos aos poucos vão se desprendendo, os grãos voltam a correr uns sobre os outros. Feito correntes de água, fluem.

Você olha para o lado, cadarços de suor saem de sua testa e pingam sobre a montanha, os outros dois também suam, fazem uma piada qualquer, riem. E é nesse instante, nesse átimo de riso, que os grãos desaparecem sob seus pés. Não, não são os grãos que desaparecem. É você que afunda, submerge no mar de soja feito um palito, só a cabeça fica de fora. Quando se dá conta do que está acontecendo, grita, se debate, procura um ponto de apoio para os pés e não encontra.

Os grãos são muito pesados e quanto mais você se mexe mais afunda. Os companheiros acorrem em sua direção, tentam agarrá-lo por baixo dos braços, tentam puxá-lo pela cabeça, tentam de tudo, mas nada funciona. Às pressas, os dois se encaminham para a saída do silo, gritam por socorro. Ei, vocês vão me deixar aqui?

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