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Dirce Waltrick do Amarante

Entrada de Fernanda Montenegro e Gil na ABL une artes que costumamos separar

Atriz e músico foram eleitos para a Academia Brasileira de Letras nos últimos dias

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Dirce Waltrick do Amarante

Tradutora e professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). É autora, entre outros, de “As antenas do caracol: notas sobre a literatura infantojuvenil” e “Pequena biblioteca para crianças: um guia de leitura para pais e professores”.

[resumo] Eleitos para a Academia Brasileira de Letras, a atriz Fernanda Montenegro e o músico Gilberto Gil trazem uma mudança positiva para a instituição, com a chance de estabelecer contatos entre categorias artísticas (teatro, dança, música, performance, escrita) que nossos preconceitos e interesses costumam distanciar.

O fato de a Academia Brasileira de Letras ter aberto as portas para uma atriz como Fernanda Montenegro não deveria causar nenhuma surpresa. Fernanda é de fato uma mulher das letras, no sentido de letrada, versada em letras, erudita, cujo conhecimento foi adquirido através do estudo. Sua autobiografia, "Prólogo, Ato, Epílogo: Memórias", publicado em 2019, pela Companhia das Letras, só corrobora esses atributos já amplamente conhecidos não só no Brasil.

Com essa escolha da Academia Brasileira de Letras, se abrem as fronteiras entre categorias que ainda costumamos separar —teatro, dança, música, pintura, performance, escrita etc.—, por "uma questão dos ‘nossos’ interesses e preconceitos", como diz o poeta norte-americano Jerome Rothenberg, ao falar da cultura ameríndia.

Aliás, neste momento em que a arte indígena vem ganhando mais reconhecimento e espaço no Brasil, apesar de a vida dos indígenas estar ainda mais vulnerável, nada mais apropriado do que refletir sobre o diálogo estreito entre as artes, as letras, as ciências humanas.

Uma coreografia, por exemplo, é uma forma de narrativa do corpo. "Cura', de Deborah Colker, conta a sua versão da história de Obaluaê, protetor dos doentes e dos pobres, que foi acolhido por Iemanjá, depois de ter sido rejeitado pelos seus por ter nascido com problema de saúde.

Escritores e poetas contemporâneos têm se valido dessa ampla concepção de arte e escrita para compor suas obras. Este é o caso do poeta Sérgio Medeiros, que tem se dedicado à escrita hieroglífica em livros como, entre outros, Dicionário de Hieróglifos e Díptico Cinzento, este sobre "as cinzas das matas [que] não ficarão soltas nem serão esquecidas...", como diz a epígrafe do livro, que é a única frase no alfabeto romano em todo o volume.

Além disso, há outras formas de escrever em português. O acadêmico Guimarães Rosa já havia introduzido essa "nova língua" na academia, mas parece não ter deixado muitos herdeiros na instituição. A respeito dessas novas formas de se expressar em português, vale lembrar o portunhol literário, língua de "Mar Paraguayo", de Wilson Bueno, e de muitos poemas e prosas de Douglas Diegues. O "pretuguês" também está na nossa literatura, como foi estudado por Lélia Gonzalez.

Interessante pensar que Lima Barreto (1881-1922) tinha a intenção de entrar para a Academia Brasileira de Letras, mas não teve espaço por lá, em outros tempos. Como lembra sua biógrafa Lilia Moritz Schwarcz: "Sua literatura surgia na contramão do modelo da Academia Brasileira de Letras, instituição da qual durante certo tempo acalentou o desejo de fazer parte. Acusado de praticar erros gramaticais em suas edições baratas e sem cuidado, alegou sempre, em seu favor, afastar-se propositadamente do formalismo, dando à sua literatura uma oralidade aproximada ao espetáculo por ele observado nas ruas que percorria diariamente".

Assim como Lima Barreto, Conceição Evaristo, com suas escrevivências, já tentou ingressar na Academia e não teve sucesso, No entanto, com o ingresso de Fernanda Montenegro, o modelo e a forma de candidatura a uma vaga parece mudar. Uma mudança positiva e importante.

Nesse amplo conceito de letras, Fernanda Montenegro seria uma espécie de xamã que estabelece contatos entre categorias aparentemente estanques. Que venham outros/as xamãs, outros falares, outros olhares... Aliás, Gilberto Gil, compositor e cantor consagrado, acaba de se tornar o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras. Novos tempos.

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