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Martim Vasques da Cunha

Como 'Psicopata Americano', romance de 91, previu desolação que levou a Trump e Bolsonaro

Criticado por narrativa perturbadora, livro se tornou clássico e antecipou 'política do fim do mundo' dos tempos atuais

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Martim Vasques da Cunha

Doutor em ética e filosofia política pela USP, é autor de "A Tirania dos Especialistas" (Civilização Brasileira) e "O Contágio da Mentira" (Âyiné)

[RESUMO] Há 30 anos, era lançado o controverso romance "Psicopata Americano", narrado por um rico executivo cuja diversão é mutilar mendigos e assassinar mulheres. Hoje alçado à condição de clássico, livro de Bret Easton Ellis previu com notável acuidade o espírito de desolação e mentira da época atual, que se manifesta na vitória de Trump e, no Brasil, nas relações corruptas entre PT e Odebrecht e na ascensão de Bolsonaro.

Patrick Bateman surgiu das páginas do escritor americano Bret Easton Ellis há 30 anos. É um executivo rico de Wall Street, 26 anos, obcecado com marcas, objetos de valor, sexo promíscuo e restaurantes caríssimos.

Seus hobbies favoritos são mutilar mendigos, estuprar e matar mulheres, além devorá-las com indiscutível prazer. Tudo isso descrito nos mínimos detalhes, tendo como cenário a década alucinada de 1980.

Quando Ellis lançou, em um distante 1991, o romance "Psicopata Americano" (publicado no Brasil em uma bela edição da Darkside, com tradução primorosa de Paulo Raviere), a polêmica veio naturalmente.

O escritor americano Bret Easton Ellis durante o Festival de Veneza de 2013 - Gabriel Bouys - 30.ago.13/Folhapress

Não seria exagero dizer que o escritor foi um dos primeiros a ser "cancelado" pela própria mídia que ele ironicamente idolatrava em seus livros anteriores, "Abaixo de Zero" (1985) e "As Regras da Atração" (1987).

Homossexual assumido e frequentador das rodas da alta sociedade que transitam entre Nova York e Los Angeles, Ellis era tão perturbador naquela época para seus pares que a primeira grande editora (Simon & Schuster) a receber o manuscrito de "Psicopata Americano" afirmou que não iria publicar o livro por causa das acusações internas, feitas por funcionários, de que a obra era "grotesca" e "misógina".

Depois de vários obstáculos, o relato sobre a vida de Patrick Bateman foi lançado por outra editora respeitada (Vintage). Veio então o esperado frenesi midiático. Nos anos seguintes, isso resultou em uma boa versão cinematográfica (com Christian Bale no papel principal, em 2000) e em um inusitado musical na Broadway.

A marca do cancelamento, contudo, o seguiria por um bom tempo, miopia também acompanhada pela crítica literária daquela época. Em um famoso texto a respeito do romance, Alberto Manguel disse que "a debilidade de seu estilo, seu vocabulário magro e a pobreza com que o autor constrói diálogos e descrições impedem qualquer abordagem, exceto a do pornógrafo".

Na verdade, Ellis está mais para um moralista à la Dostoiévski ou Karl Kraus e menos para um pervertido como o Marquês de Sade ou Henry Miller.

Sua obra inteira é uma pesquisa obsessiva sobre como a cultura contemporânea —composta de canções pop, pinturas sem valor intrínseco, grifes capitalistas, drogas, perversão sexual e um vasto etc.— é um gigantesco "trabalho de morte" ("deathwork").

Na terminologia do sociólogo Philip Rieff, trata-se de algo que deveria ter um usufruto estético, mas sufoca espiritualmente os indivíduos, que não sabem mais onde começa o mundo imaginário criado por eles mesmos e a realidade concreta em que tentam viver.

Só há uma solução para esse impasse —e a pior possível: a traição da liberdade interior. Em "Psicopata Americano", há uma cena antológica que simboliza perfeitamente o que Ellis desenvolveria em seus trabalhos posteriores, em especial o épico "Glamurama" (1998) e o volume de ensaios "White" (2019) —no caso, o mergulho no inferno que são as nossas ilusões.

Ali, encontramos Patrick Bateman em um show da banda irlandesa U2, na época em ascensão por causa do álbum "The Joshua Tree" (1987). Ele imagina que, no meio da apresentação, conversa com ninguém menos que Bono, o vocalista do grupo de rock —e neste bate-papo singelo um reconheceria no outro o fato de que ambos seriam, nada mais, nada menos que o "diabo".

No romance, Bono passa a ser um modelo de comportamento para Bateman, mas não é o único. Há um segundo nome que ronda os pensamentos perturbadores (e perturbados) desse "psicopata americano": Donald Trump, na época magnata imobiliário e bajulado pela imprensa, 25 anos antes de ser o presidente dos EUA mais controverso dos últimos tempos.

A coincidência não é apenas assustadora para a nossa era. Ela mostra que, como grande moralista, Bret Easton Ellis previu o espírito de tudo o que aconteceria no Ocidente a partir de 2016, como a eleição de Trump para a Casa Branca, a vitória do referendo do brexit no Reino Unido e a colonização meteórica de Jair Bolsonaro no inconsciente brasileiro. Para ser exato, ele articulou, com assustadora presciência, a "política do fim do mundo".

Não à toa, naquele mesmo ano em que Patrick Bateman surgiu nas prateleiras das livrarias americanas, o seu outro modelo de vida, o cantor e compositor Bono, lançava com os colegas de banda (o guitarrista The Edge, o baixista Adam Clayton e o baterista Larry Mullen, Jr.) um novo álbum: "Achtung Baby".

O título do disco remetia à época nefasta do nazismo. Era também uma piada macabra, retirada de uma das falas do filme de Mel Brooks, a comédia "Primavera para Hitler" (1967), cujo uso da língua alemã também rememorava o próprio ambiente caótico onde foi gravado o disco dos irlandeses: uma Berlim recém-unificada após a queda do muro, enquanto os quatro músicos tentavam desesperadamente reinventar suas carreiras depois do triunfo de "The Joshua Tree".

A sombra de um outro "trabalho de morte", a imaginação totalitária que permeou o século 20, acompanha "Achtung Baby" em cada uma de suas faixas. Isso fica evidente na canção "Until the End of the World" (até o fim do mundo), que parece ser uma conversa entre dois amantes e, pouco a pouco, revela-se um diálogo de Judas com Jesus Cristo, o melhor amigo a quem traiu por 30 moedas de prata.

Na versão do U2, diferentemente do que ocorre no relato bíblico, Judas não mostra um pingo de arrependimento, como um bom totalitário. Na realidade paralela em que vive, ele não se encontra na tradicional desolação onde o colocaram por séculos.

Para ser exato, o traidor até gosta do inferno que habita: "Nos meus sonhos, eu afogava minhas tristezas", canta por meio da voz e da persona de Bono, "mas elas aprenderam a nadar [...] / Ondas de remorso e ondas de alegria, alcancei aquele que desejava destruir".

Patrick Bateman tem o mesmo tipo de comportamento. Pouco se importa com o destino das suas vítimas. Sua meta é copiar Trump e Bono em todos os detalhes, especialmente na criação de um mundo imaginário no qual ele seria um psicopata ensandecido que pisa em cima de quem é um empecilho na sua vida.

Ocorre que Bateman é apenas mais um pateta. Ninguém do seu círculo social o suporta, nem mesmo a família. Por meio de diálogos fragmentados e uma narrativa cheia de lacunas —nitidamente influenciados pela ambiguidade estilística de Don DeLillo, em particular nos romances "Os Nomes" (1982) e "Ruído Branco" (1985)—, Ellis dramatiza a psique fragilizada de um infeliz que não consegue, tal como Judas, admitir que sua existência é apenas uma gigantesca fake news.

No Brasil, o mesmo fenômeno ocorreu, mas não no governo destrambelhado de Jair Bolsonaro, como alguns supõem. A mentira institucionalizada tornou-se apenas consequência de um longo adeus da redemocratização.

Nesse exemplo em particular, a indústria dos fatos falsos foi criada na administração anterior, quando o PT dominava a República junto com a construtora Odebrecht, conforme narra a jornalista Malu Gaspar na obra-prima "A Organização" (2020).

Com uma narrativa minuciosa, digna de Janet Malcolm, Gaspar decifra ao leitor comum os labirintos da corrupção institucional que contagiou o Brasil nos governos Lula e Dilma, assim como não hesita em contar uma tragédia familiar —o rompimento dos líderes da gigantesca empresa, Emílio Odebrecht e seu filho e herdeiro, Marcelo, ambos pegos pela Operação Lava Jato.

Por outra estranha coincidência, o ano crucial para a sedimentação desse império foi justamente 1991. Todavia, o que conecta esses personagens reais tanto ao que foi imaginado por Bret Easton Ellis como ao que foi narrado nos relatos bíblicos não é somente o ato de traição que cometeram com seus semelhantes. É a traição que fizeram sobretudo contra si mesmos, ao destruírem a liberdade interior que deveria ampará-los.

Essa é a síntese da política do fim do mundo que nos espera a partir de agora, seja no Brasil ou nos EUA —neste último, com ou sem a presença contaminada de Trump. Cada um de nós gostaríamos de afogar nossos remorsos, mas, ao acordarmos do sonho, veremos que eles aprenderam a nadar —e de maneira primorosa.

O exemplo de Marcelo Odebrecht é o mais comovente, justamente por ser o mais real e o mais próximo de nós, mesmo que ele nos pareça profundamente antipático, até porque a sua história é, no fundo, a nossa história. Afinal, como qualquer ser humano, traiu e foi traído.

De acordo com Malu Gaspar, ele se tornara "um personagem deslocado no tempo e no espaço". "Não era mais poderoso, nem tampouco o criminoso número um do Brasil. Perdera os elos com a empresa pela qual vivera e o lugar de honra na família de que, no passado, havia tido tanto orgulho. Ainda assim, continuava a se comportar como o vencedor de outros tempos. Estoico e orgulhoso, certo de que estava com a razão, encarava tudo como uma jornada heroica que, não importava quanto demorasse, ainda o levaria à vitória."

Exatamente como Patrick Bateman diante de Bono naquele concerto de rock que ocorria somente na sua cabeça.

Ao fim e ao cabo, a corrupção feita pelo PT e pela Odebrecht foi o nosso "trabalho de morte". Não há como negar isso, por mais que as notícias falsas de qualquer lado político afirmem o contrário.

O que sobra para todos que insistem caminhar nessa trilha de traição são as últimas e amargas palavras de "A Organização", ao descrever como o herdeiro da Odebrecht via o seu atual cenário, após dois anos de cadeia, condenado pelo ex-juiz federal Sergio Moro: "Eu não tenho horizonte".

Pois nesses panoramas da desolação, todos forjados há 30 anos, os Judas que sempre estiveram no poder finalmente conseguirão, a partir de 2022, alcançar aquilo que desejavam tanto destruir: nós, o povo. Quem viver, verá.

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