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'Senhor dos Anéis' passou por jornada difícil como a de Frodo para chegar ao cinema há 20 anos

Trilogia mudou a cultura pop e inaugurou era de fantasias épicas mais adultas, como 'Game of Thrones'

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Rodrigo Salem

É jornalista especializado em cinema

[RESUMO] Há 20 anos um cineasta neozelandês desconhecido, Peter Jackson, lançava nos cinemas o primeiro filme da trilogia "O Senhor dos Anéis", após anos de percalços quase tão difíceis quanto os de Frodo neste clássico da literatura fantástica. Fenômeno de bilheteria, vencedora de 17 Oscars, a saga nos cinemas inaugurou a era de fantasias épicas mais adultas, como "Game of Thrones", e vai virar série em 2022.

Quando a atriz Cate Blanchett, no papel da rainha élfica Galadriel, proferiu a frase "até a menor das criaturas pode mudar o curso do futuro", ela se referia a Frodo, o pequeno hobbit protagonista de "O Senhor dos Anéis – A Sociedade do Anel", obra de J.R.R. Tolkien publicada em 1954.

Essas mesmas palavras podem ser usadas para ilustrar como um pequeno cineasta de uma ilha distante um oceano de Hollywood conseguiu mudar a história não apenas do cinema moderno, mas da própria cultura pop do século 21.

Não são hipérboles vazias. Sem "O Senhor dos Anéis", filme que o neozelandês Peter Jackson lançou há 20 anos, muita coisa seria diferente. Certamente não teríamos visto a invasão, para o bem e para o mal, de fantasias épicas mais sérias, como "Game of Thrones", "His Dark Materials" ou "A Torre Negra".

Personagens digitais tão emocionantes quanto os colegas humanos não se tornariam tão comuns em Hollywood sem gosmento Gollum de Andy Serkis. E o próprio conceito de trilogia, algo tão na moda, tomou força após o sucesso bilionário dos longas de Jackson.

Antes de "O Senhor dos Anéis", o cinema de fantasia era sinônimo de fracassos de bilheteria, dramaturgia risível e efeitos especiais capengas que atingiam apenas um nicho de público.

Até os Beatles, em 1968, tentaram fazer uma adaptação musical da série, mas foram vetados pelo próprio Tolkien, que vendeu os direitos da obra para o estúdio United Artists um ano depois. "Peter Jackson entendeu que a fantasia de ‘O Senhor dos Anéis’ precisava ser realista", escreveu o jornalista Ian Nathan no seu livro "Peter Jackson and The Making of Middle-Earth", lançado em 2018 e ainda sem versão brasileira.

A trajetória do diretor para trazer ao cinema uma das obras mais vendidas e amadas da literatura fantástica foi tão difícil e inesperada quanto a jornada de Frodo rumo à Montanha da Perdição para destruir o Um Anel, o elemento mágico central da saga, que confere poderes absolutos a quem o possuir.

Como muita coisa na Hollywood dos anos 1990, a história de "O Senhor dos Anéis" no cinema começou com Harvey Weinstein. Atualmente preso e condenado a 23 anos de prisão por abuso sexual e estupro, o ex-produtor, temido por metade de Los Angeles e odiado pela outra, tinha um contrato de "primeira opção" com Peter Jackson após o sucesso de um drama dirigido por ele, "Almas Gêmeas" (1994), distribuído pela companhia dos irmãos Weinstein, a Miramax. Isso significava que o estúdio teria o direito de ser a primeira escolha do diretor para seu próximo filme.

E uma das ideias jogadas por Jackson e sua parceira e esposa, Fran Walsh, foi exatamente "O Senhor dos Anéis". Weinstein gostou e sugeriu que fizessem três filmes: o primeiro adaptaria "O Hobbit", livro mais infantil que mostra as aventuras do hobbit Bilbo na fantasiosa Terra-Média, enquanto os dois restantes trariam a jornada de Frodo, sobrinho de Bilbo.

Eventualmente, eles descobriram que os direitos de "O Hobbit" eram impossíveis de ser adquiridos na época, pois estavam na posse da MGM. "Dane-se, faremos apenas dois filmes com ‘O Senhor dos Anéis’", teria praguejado o grosseirão Weinstein por telefone.

Na época, Jackson já estava dirigindo "Os Espíritos" (1996) e começou a procurar seu novo projeto para oferecer aos Weinstein. Não lhe faltavam alternativas. A primeira foi uma atualização de "O Planeta dos Macacos" com Arnold Schwarzenegger no papel principal e produção de James Cameron, mas o neozelandês decidiu cair fora quando a produção ficou megalomaníaca demais para seu gosto.

A outra foi o remake de "King Kong", filme que era grande paixão de Jackson desde criança. Desta vez, ele topou recriar o drama do gorila gigante.

Harvey Weinstein não recebeu bem a notícia de que Jackson não faria "O Senhor dos Anéis" naquele momento, mesmo que os direitos não estivessem assegurados. "Isso não está acontecendo. Você não está me falando isso", disse aos gritos o chefão que não aceitava recusas.

"Eu estou te falando isso, Harvey. Nós ainda vamos fazer, mas consiga os direitos que voltamos depois de ‘Kong’", replicou o diretor. A resposta nem veio: Weinstein bateu o telefone na cara de Jackson.

Esperto, o cineasta conseguiu driblar a raiva do produtor ao costurar um acordo: a Miramax entraria em parceria com a Universal em 50% do orçamento de "King Kong", e em troca o estúdio pagaria metade de "O Senhor dos Anéis" para os Weinstein. Mais esperto ainda, Harvey Weinstein disse que não seria um acordo justo, pois a adaptação da obra de Tolkien geraria dois longas.

Ele pediu para ficar com os direitos de outro roteiro da Universal, um tal de "Shakespeare Apaixonado". Três anos depois, ele ganharia sete Oscars, inclusive de melhor filme, pelo drama estrelado por Gwyneth Paltrow.

Quando tudo parecia certo na carreira em ascensão meteórica do cineasta que veio do submundo dos filmes de terror B da Nova Zelândia, uma nova surpresa. A Universal decidiu cancelar a refilmagem de "King Kong", pois a Disney já havia lançado uma cópia fajuta chamada "O Poderoso Joe" (1998) e não gerou nenhuma comoção. Além disso, o estúdio havia fechado com Roland Emmerich, na época um dos diretores mais prestigiados de Hollywood, para ressuscitar outro monstrengo: Godzilla.

Também não ajudou nada o fato de o novo filme de Jackson, "Os Espíritos", ter naufragado nas bilheterias. Harvey Weinstein, contudo, tomou as dores do cineasta. "Vamos fazer ‘O Senhor dos Anéis’", teria dito. "E sem o envolvimento deles [Universal]."

A lua de mel não durou muito. Apesar de ter concordado em fazer dois filmes com o orçamento de US$ 75 milhões, Jackson logo percebeu que não seria possível alcançar a qualidade desejada de efeitos visuais, produção e direção de arte com essa quantia. Ele pediu pelo menos o dobro, mas Weinstein nem deu ouvidos.

A solução dada pelo brucutu hollywoodiano era a mais radical possível: adaptar os três livros da saga "O Senhor dos Anéis" em apenas um filme, cortando dezenas de personagens (como Saruman), mesclando outros (os nobres Faramir e Éowyn seriam apenas uma guerreira), eliminando locações (os reinos humanos de Gondor e Rohan seriam o mesmo lugar) e condensando cenas —um dos pedidos de Weinstein era matar um dos hobbits para criar um momento emotivo.

Peter Jackson se recusou a embarcar nesta canoa furada. O produtor ameaçou tirá-lo do projeto por inteiro e repassar "O Senhor dos Anéis" para algum cineasta mais próximo, como Quentin Tarantino ou John Madden ("Shakespeare Apaixonado"). Ninguém sabe se estava blefando, mas é fato que Weinstein enviou o roteiro dos filmes para Hossein Amini, de "Asas do Amor" (1997), analisar.

O projeto estava por um fio. Jackson já havia pedido para seu agente comunicar a Weinstein que não faria "O Senhor dos Anéis" como um filme isolado. O agente, contudo, preferiu pedir ao chefão da Miramax mais tempo para encontrarem um estúdio parceiro que garantisse os dois filmes.

Normalmente, algo dessa magnitude requer, pelo menos, um ano. Weinstein deu quatro semanas a Jackson, que voltou para a Nova Zelândia e preparou um vídeo com testes de efeitos, além de maquetes para poder exibir nas apresentações.

Dias depois, ele estava se reunindo com presidentes de produção de vários estúdios. Por uma razão ou outra, Jackson só ouviu recusas. Sua última esperança era a pequena New Line, que começou a ganhar muito dinheiro com filmes de terror como "A Hora do Pesadelo" e, ao ser comprada pela Warner, ganhou poder para financiar outros filmes.

A reunião foi tensa. Apesar de o produtor Mark Odersky ser apoiador e amigo de Jackson, ele precisava da aprovação de seu chefe, Bob Shaye, presidente da New Line. Shaye, que já havia chamado o cineasta na sua sala para dizer que dificilmente bancaria os filmes, assistiu à apresentação de Jackson sem exibir um sorriso.

Jackson achou que era o fim do sonho, mas veio a reviravolta. "Por que você faria dois filmes se Tolkien escreveu três livros?", perguntou Shaye a um cineasta incrédulo. "Se queremos fazer justiça a ‘O Senhor dos Anéis’, precisamos fazer três filmes."

Entre acordos e apertos de mão, assim nasceu a trilogia "O Senhor dos Anéis": "A Sociedade do Anel", lançada em dezembro de 2001; "As Duas Torres", em dezembro de 2002; e "O Retorno do Rei", dezembro de 2003. Os três épicos foram filmados simultaneamente na Nova Zelândia, entre 1998 e 2001, mas exigiram novas filmagens para cenas extras meses antes de cada episódio estrear.

Esse feito descomunal consumiu dez anos da vida de Peter Jackson. "Eu teria morrido se tivesse feito os dois ‘Duna’ de uma vez. Não sei como Peter Jackson conseguiu fazer três ‘Senhor dos Anéis’. Ele tem meu maior respeito", disse o diretor Denis Villeneuve em um recente evento de promoção de "Duna", em Los Angeles.

A trilogia de Jackson não apenas rendeu cerca de US$ 3 bilhões nos cinemas (sem contar as versões do diretor, lançadas sempre um ano após as estreias normais), como se tornou uma devoradora de prêmios: no total, os três longas foram indicados a 30 Oscars, tendo vencido 17 deles —"O Retorno do Rei", com 11 estatuetas, é recordista da história da Academia, ao lado de "Ben-Hur" (1959) e "Titanic" (1997).

Na esteira do sucesso, os estúdios saíram em busca de obras similares, como "As Crônicas de Nárnia", de C.S. Lewis, escritor que fazia parte do grupo de Tolkien em Oxford; "A Bússola de Ouro", livro de Philip Pullman que fracassou no cinema, mas encontrou lugar na TV sob o nome da série "His Dark Materials" (HBO); e até "Eragon", fantasia infanto-juvenil de Christopher Paolini.

E podemos dizer que "Game of Thrones" nunca teria chamado a atenção da HBO e ganhado a liberdade para florescer da maneira correta sem ter recebido o bastão de "O Senhor dos Anéis".

O próprio Jackson, contudo, não alcançou o mesmo resultado quando finalmente adaptou "O Hobbit", em 2012. Pressionado após a saída do diretor Guillermo del Toro, que teve choque de agendas por causa de diversos atrasos nas filmagens, Jackson assumiu a cadeira de diretor e transformou um livro curto e infantil num projeto de três filmes longos e mal-acabados esteticamente.

De toda forma, "O Senhor dos Anéis" permanece um pote de ouro para o audiovisual. Em setembro de 2022, a Amazon Prime Video lançará uma série ambientada milhares de anos antes das aventuras de Frodo, mas trazendo alguns personagens conhecidos do grande público. A expectativa é tão alta que a gigante das vendas online investiu cerca de US$ 1 bilhão no projeto, fazendo desta a série mais cara de todos os tempos.

Como a produção está sendo mantida em absoluto segredo, não se sabe se Peter Jackson participará ou não. Mas, numa trajetória com tantas surpresas, o que seria mais uma para esse pequeno gigante neozelandês que trouxe Tolkien para toda uma nova geração?

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