Descrição de chapéu Clube da Leitura Folha

Em lugar de criticar Mo Yan, deveríamos tentar entender o que sua ficção nos diz sobre a China atual

Seria indolência intelectual que ocidentais distantes da situação o descartassem como um fantoche literário

Julia Lovell
The New York Times

O Clube de Leitura Folha de julho discute o livro "As Rãs" (2009), de Mo Yan, Nobel de Literatura em 2012. O encontro acontece na terça (30), às 19h, na Livraria Martins Fontes da avenida Paulista.

O texto abaixo, sobre as críticas que Mo recebeu ao vencer o prêmio, foi publicado no New York Times em 2012.

Em agosto, o Clube se reúne em torno do clássico “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad, e, em setembro, conversa sobre a história em quadrinhos “Fun Home”, de Alison Bechdel.

O escritor Kingsley Amis afirmou que prêmios literários "são ótimos quando você os ganha". Mas a elite política da China adota uma postura muito menos relaxada com relação ao Prêmio Nobel de Literatura.

Desde que o país se reintegrou à comunidade mundial, depois da morte de Mao Tsé-tung, seu governo desejava um Nobel literário para um cidadão chinês que vivesse, trabalhasse e prosperasse na China, como prova de que a República Popular se tornou um potência moderna. A inveja do Nobel que a China sentiu por muito tempo fez do prêmio um símbolo de realização coletiva, e não de criatividade individual.

O escritor Mo Yan durante evento na Universidade de Oxford, em junho de 2019 - Han Yan/Xinhua

Em teoria, a concessão do prêmio a Mo Yan em 2012 —então membro do Partido Comunista e vice-presidente presidente da Associação de Escritores, um órgão oficial do governo— deveria pôr fim ao complexo de Nobel dos chineses. O Diário do Povo, jornal oficial do Partido Comunista, expressou seu entusiasmo, e Li Changchun, o então chefe do aparato de propaganda do país, se apressou a congratular o escritor. O telejornal da Televisão Central da China foi interrompido para uma reportagem especial.

O contraste com as reações a prêmios conquistados anteriormente por autores de etnia chinesa foi acentuado. Quando Gao Xingjian, que vivia no exílio, recebeu o Nobel de Literatura, em 2000, Pequim denunciou os "propósitos políticos" do comitê de premiação. Quando o Nobel da Paz foi concedido a Liu Xiaobo —um dissidente—, em 2010, o Ministério do Exterior classificou a escolha como "blasfêmia".

A despeito do júbilo oficial, o prêmio a Mo gerou controvérsia política. Vozes dissidentes na China se queixaram de que o prêmio era "um insulto à humanidade e à literatura", nas palavras do artista plástico Ai Weiwei, por o escritor estar comprometido com a liderança política e nunca ter protestado contra a prisão de Liu Xiaobo. Críticos mencionaram um acontecimento de alguns meses atrás, quando Mo aderiu a um grupo de escritores que estavam fazendo uma cópia manuscrita das "Palestras de Yantan", que Mao realizou em 1942 —o texto de origem do realismo socialista chinês— para uma edição comemorativa especial. Um internauta zangado simplesmente postou uma foto que o mostrava com o dedo central erguido na direção de uma foto de Mo.

Os críticos chineses do escritor —que vivem a realidade de uma censura autoritária no dia a dia— têm alguns motivos para suas reclamações. Nos últimos anos, Mo vem tentando evitar controvérsias políticas. Na Feira do Livro de Frankfurt em 2009, quando a China era o "mercado em foco", ele permitiu que a delegação oficial chinesa o usasse como uma fachada literária anódina. Em companhia dos demais integrantes da comitiva, ele boicotou devidamente os eventos que incluíssem escritores chineses exilados. Também manteve o foco na Feira do Livro de Londres em abril de 2012. O boato é de que todos os integrantes da delegação receberam uma longa lista de tópicos sobre os quais não deveriam falar com a imprensa estrangeira —especialmente o expurgo de Bo Xilai, escândalo que estava fervilhando na época da feira.

Mas seria indolência intelectual que observadores ocidentais distantes da situação descartassem Mo como um fantoche literário, ou presumissem que seus diversos romances históricos que se passam na China pós-1949 oferecem uma versão oficialmente higienizada da China e seu passado recente. Desde a publicação de "Baladas do Alho", no final da década de 1980, a ficção de Mo vem buscando expor a brutalidade, cobiça e corrupção que floresceu sob o domínio chinês.

Passado em uma província chinesa hipotética que leva o nome do livro, "A República do Vinho" (1992), por exemplo, é uma sátira mordaz sobre o vácuo espiritual da economia de mercado que floresce na China. Os romances de Mo podem não ser tecnicamente perfeitos ou expor os tabus mais sensíveis da China, entre os quais a repressão às manifestações pró-democracia de 1989 ou a responsabilidade dos líderes e instituições comunistas da China por boa parte da desigualdade política no país. Mas o grotesco de suas narrativas expressa uma visão acerca da República Popular e, por extensão, de seus arquitetos políticos. Ainda que suas críticas ao "status quo" pós-1949 sejam raramente diretas, são implícitas e onipresentes.

Em lugar de criticar Mo por sua acomodação política, deveríamos dedicar nossas energias em lugar disso a tentar compreender o que ele e sua ficção nos dizem sobre a China atual. A literatura contemporânea chinesa não constitui, em sua maior parte, uma luta maniqueísta entre complacentes apaziguadores do regime e heroicos dissidentes (embora não faltem à China indivíduos excepcionalmente corajosos dispostos a dizer a verdade diante dos poderosos). O que existe é um espectro de vozes que operam dento de um reino de possibilidades políticas que ocasionalmente é muito amplo; algumas dessas vozes (entre as quais a de Mo) pressionam periodicamente por uma expansão.

Mo aludiu pessoalmente a essa situação ambígua, ao responder aos críticos em uma entrevista coletiva depois do anúncio do Nobel. "Muitas das pessoas que me criticaram online são elas mesmas integrantes do Partido Comunista. Também trabalham dentro do sistema. E algumas se beneficiaram imensamente do sistema... se tivessem lido meus livros compreenderiam que minha escrita [criou] riscos consideráveis."

Mo é um escritor que mantém um jogo público com as autoridades mas preserva um espaço criativo que permite que apresente desafio indireto às mesmas autoridades.

Um aspecto intrigante é que as críticas parecem tê-lo levado a abandonar sua reticência política habitual. Depois de conquistar o prêmio, ele expressou a esperança de que Liu Xiaobo "consiga a liberdade o mais breve possível".

O Prêmio Nobel de Literatura de 2012 pode augurar tempos interessantes para seu laureado.

Julia Lovell é escritora, tradutora literária e professora de história chinesa moderna no Birkbeck College, Universidade de Londres. Seu livro mais recente é "The Opium War".

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

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