'Fico revoltado com o que acontece com meu povo', diz Kopenawa

Líder yanomami comenta sua luta em defesa da Amazônia e fala sobre "A Queda do Céu", uma das obras mais indicadas no projeto 200 anos, 200 livros

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Gabriel Araújo
Belo Horizonte

"Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar."

Assim diz Davi Kopenawa Yanomami, escritor, xamã e líder indígena reconhecido internacionalmente, no livro "A Queda do Céu", escrito em coautoria com o antropólogo francês Bruce Albert e lançado no Brasil pela Companhia das Letras em 2015.

Davi Kopenawa ocupa a maior parte do primeiro plano da foto. Ele é um homem indígena que olha fixamente para a câmera. Usa cocar, uma camisa azul, um colar e tem duas pinturas vermelhas no canto dos olhos.
O líder indígena Davi Kopenawa durante o 2º Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’Kwana, realizado em Roraima em novembro de 2021 - Adriana Duarte/ISA

O livro ocupa o segundo lugar entre as obras mais indicadas no projeto 200 anos, 200 livros. A iniciativa, motivada pelo bicentenário da Independência do Brasil, tem como mote "os livros para entender o Brasil" e contou com a indicação de 169 intelectuais —a grande maioria do Brasil, mas também nomes de Portugal, Angola e Moçambique.

O livro divide o segundo lugar com "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa. Ambos receberam 20 indicações.

"‘A Queda do Céu’ é a revelação do que poderíamos ter sido se tivéssemos sensibilidade para escutar o que os povos originários tinham —e ainda têm!— a nos dizer", afirmou o escritor Itamar Vieira Junior, autor de "Torto Arado" e colunista da Folha. Ele foi um dos integrantes do conselho curador a apontar o livro como uma das principais obras para compreender o Brasil.

Misto de testemunho autobiográfico e manifesto, a obra apresenta a história de Kopenawa e do povo Yanomami; o relato do avanço dos brancos, chamados de "povo da mercadoria", sobre a terra indígena; a denúncia da destruição da floresta Amazônica e dos povos que lá habitam; entre outras questões.

À Folha, Kopenawa, que é presidente da Hutukara Associação Yanomami, criada para defender o povo indígena, lembra a produção e a recepção do livro, e fala sobre a transmissão do conhecimento entre gerações de indígenas.

Comenta a situação de violência enfrentada pelo povo Yanomami —a entrevista foi feita no dia 21 de abril, quatro dias antes de vir à tona a denúncia de estupro e assassinato de uma criança indígena. Kopenawa fala ainda como evitar o desabamento do céu. "Eu não vou dizer que eu vou resolver. Quem vai resolver é o governo, é dele a responsabilidade", afirma.

No prólogo de "A Queda do Céu", Bruce Albert escreve que "nenhuma etnografia seria possível sem um envolvimento duradouro ao lado do povo com quem tinha resolvido trabalhar". E isso encontra eco em certa tradição da antropologia –basta lembrar Claude Lévi-Strauss e seu "Tristes Trópicos". Aqui, contudo, estamos falando de 30 anos de convivência. Como foi essa relação? O que teve que ceder e o que aprendeu desse processo?

Eu não conhecia o Bruce Albert quando ele chegou a Roraima e entrou na terra Yanomami, lá na comunidade. Ele ficou numa outra comunidade, não na minha, junto a meus parentes e minha família. Foi esperto, vivendo junto com os yanomami, conversando com a comunidade, com o xamã, com a liderança da aldeia que conhece o histórico do povo passado… Foi assim que ele foi aprendendo a nossa língua.

Ele ficou um ano na comunidade, só depois que eu encontrei ele, acho que foi em 1978, em Boa Vista. Na época, ele fez a coleta de toda a nossa sabedoria yanomami, de toda nossa história, para colocar no livro dele. Eu não gostei porque ele não consultou outras comunidades, não me consultou antes de fazer entrevista com meu tio, não consultou os "xapiri" [espíritos da floresta que auxiliam os xamãs].

Assim que encontrei ele, comecei a discutir: "Olha, Bruce, você roubou o nosso conhecimento". Ele ficou um pouquinho bravo comigo, dizendo que não tinha roubado. "Sim", eu disse, "você coletou e tirou as palavras que servem pra nós, Yanomami. Você coletou isso para colocar no seu livro. Não pode fazer isso. Isso está escrito no livro pra outros não indígenas lerem. Agora nós vamos conversar, você vai me ajudar, vai gravar e depois vai escrever um livro na sua língua, o francês. E depois vai traduzir para o português". Foi assim que nós começamos a conversar para ele me ajudar a fazer um livro meu.

Eu disse: "Quem vai contar sou eu, Bruce, pois você não é yanomami. Quem nasceu na floresta fui eu. Quem vai contar a história do povo Yanomami, os acontecimentos de quando eu era pequeno, sobre os ‘xapiri’, a ‘xawara’ [epidemia-fumaça, termo usado para designar as doenças causadas pela exploração dos brancos], quem vai contar para não indígena sou eu. Vamos escrever esse livro para os brancos lerem e descobrirem o que estão fazendo com a gente".

Ele concordou. Depois sentamos durante três, quatro semanas na comunidade e conseguimos gravar tudo. Contamos do povo, da minha mãe, dos parentes, xapiri, xawara, e tudo o que aconteceu em nossa comunidade.

Como avalia a recepção do livro?

Foi lançado no Brasil, Estados Unidos, Inglaterra, Itália e vários lugares, e tem ajudado muito a divulgar o nome do povo Yanomami, os problemas e as ameaças que nós continuamos sofrendo. Esse livro está fazendo boa parte da minha luta, e muita gente está lendo.

Nas últimas semanas, você estava na aldeia preparando a festa para celebrar os 30 anos da Terra Indígena Yanomami, cuja demarcação foi aprovada em 25 de maio de 1992. Entretanto, relatório recente da Hutukara Associação Yanomami denuncia justamente o aumento do desmatamento, da exploração do garimpo ilegal e diversas outras violências contra indígenas na área. O que há de ser celebrado e o que há de ser lamentado nesse contexto?

Eu não fico triste, eu fico revoltado com o que acontece com meu povo.

Eu estava lá na comunidade construindo a casa da assembleia, a casa para celebrar os 30 anos da homologação da Terra Yanomami, demarcação que o governo federal conseguiu, após muita pressão, para retirar os invasores do garimpo. Vamos conversar e dançar com alegria pela homologação. A festa vai lembrar a criação da floresta, a criação da terra, e vai agradecer a força da Hutukara, a força da natureza, a força da nossa luta. Isso é muito importante.

Nós estamos doentes, contaminados, mas também estamos fortes. A terra está demarcada, mas não garantida. Invasores já estão de volta, matando os peixes, contaminando a floresta, os rios que nascem nas montanhas, que nascem em nossas casas…

A terra está homologada, mas não é respeitada. Assim, temos que lutar, não podemos parar. Essa é a nossa festa: chamar a força do criador, nosso Deus, para não deixar nosso povo sofrer.

Temos neste ano o bicentenário da Independência do Brasil. Assistimos desde 1822 à construção de uma nação que não contemplou as pessoas indígenas enquanto cidadãs. O que deveria ser feito a partir de agora?

Eu e meu povo pensamos que essa situação deve mudar. Não pode continuar desse jeito, é algo que está fazendo muito mal para os povos originários. Nós, povos da floresta, precisamos que o homem da cidade seja amigo. Também precisamos que aquele que quer chefiar, que quer ser dono do Brasil seja uma pessoa honesta. Tem que ser boa pessoa, que conheça a nossa realidade.

Até hoje o governo não nos reconhece. Por que não? Porque ele não anda, não chega à nossa comunidade conversando, fazendo amizade.

Eu quero que o governo dê apoio e valor para o meu povo indígena do Brasil —não só o povo Yanomami não, do Brasil. Só vai piorando porque o governo não reconhece a floresta, a terra, a língua, os "xapiri", as montanhas. Só conhece a cidade. Mas o que nós, povos indígenas, estamos vivendo há muitos anos, ele não conhece, não. Só quer nos explorar. Eu vou dizer pra ti: não vai melhorar nunca. Mas também ninguém vai parar de lutar.

Considerando o intenso desmatamento na Amazônia e as mudanças climáticas, o que fazer para evitar o desabamento do céu?

(Kopenawa ri). Isso aí que é. Nós dois somos seres humanos. Quem sabe resolver isso é Jesus Cristo, o Deus. Você não é Jesus Cristo, nem eu.

É muito grande o estrago. Quem deixou o aquecimento global e a mudança climática crescerem foi a grande mineração, que nunca nos ouve, não quer saber nossa conversa. Mesmo com tantas reuniões, o problema da mudança climática não se resolve. A mudança climática já cresceu no nosso tempo.

Meu povo, nossos pajés, nós estamos tentando proteger [a natureza] para todos, não só para os yanomami. Essa é a minha missão. Mas eu não vou dizer que eu vou resolver, quem vai resolver é o governo, é dele a responsabilidade.

O filme "O Último Sonho", documentário de 2019 dirigido por Alberto Alvares, narra, de modo quase profético, os sonhos do líder espiritual Wera Mirim e a orientação que ele recebia de Nhanderu, o "Deus Verdadeiro" do povo Guarani. Com o que você tem sonhado? Quais conselhos os "xapiri" têm soprado pra você?

Todo mundo sonha. Os brancos sonham, o povo da floresta sonha. O pajé é quem sonha o futuro. Ele sonha, conversa, fala e discute com a grande alma dos "xapiri" pra tentar resolver.

Nós estamos trabalhando. Não é um trabalho para ganhar dinheiro, é para salvar a nossa vida. Um trabalho para entrar em contato com a grande sabedoria do planeta, pra escutar. O xamã entra em contato com ela pra não deixar acontecer o mal para todo mundo.

Eu sou pajé, sou aluno. Meu sogro repassou [a sabedoria] pra mim, pra cuidar quando a mudança climática fica ruim, quando chove muito, quando o clima está muito quente, quando a doença é muito perigosa. Então nós estamos fazendo parte do trabalho para proteger a nossa terra, o planeta.

A cultura yanomami, a cultura "xapiri" está agindo, cuidando do nosso planeta para evitar um desequilíbrio. É perigoso porque, lá em cima, lá no céu, tem uma grande pedra. Não vou dizer que nós vamos resolver porque, para isso, tem que juntar indígena, preto, azul, branco… Uma união para falar com as autoridades para retirar invasores da terra, que contaminam nossos rios e criam as doenças.

Eu acho que nunca vai resolver, não, estou falando isso, mas nunca vai resolver porque grandes empresários não vão parar de olhar o dinheiro. O mundo branco quer dinheiro e nós, os povos indígenas, queremos nossa terra, nossa floresta, nossa saúde, nossa língua, nosso costume, nosso conhecimento. Mas branco não quer deixar.

Tem algum novo livro em preparação?

Eu estou escrevendo um livro pequeno, "Mensagem para Povos da Cidade". Depois eu vou falar, vou contar nada por agora, não. Agora eu estou só escrevendo.

RAIO-X

Davi Kopenawa Yanomami, 66

Nasceu em 1956 no extremo norte do Amazonas, numa floresta do alto rio Toototobi, próxima à fronteira com a Venezuela. Desde a década de 1970, vive na comunidade de seus sogros, Watoriki (Montanha do Vento).

Em 1976, foi contratado como intérprete da Funai, experiência que lhe valeu um conhecimento maior sobre a diversidade entre os yanomami e sobre a ganância do "povo da mercadoria". No final da década de 1980 e início dos anos 1990, revoltado pela violência que vitimava seu povo, empreendeu uma jornada internacional pela demarcação da Terra Indígena Yanomami e em defesa dos povos originários e da Amazônia.

Vencedor do prêmio UN Global 500 (1989) e condecorado com a Ordem Rio Branco em 1999 e com a Ordem do Mérito do Ministério da Cultura do Brasil em 2009.

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