Saltar para o conteúdo principal
 
13/12/2011 - 16h00

Queria algo fofo, mas escroto, diz criadora da Elefoa Rosa

FELIPE JORDANI
da Livraria da Folha

A quadrinista Chiquinha faz humor com coisas aparentemente comuns do dia a dia que, em um segundo olhar, são extremamente esquisitas. Esta verve fica bem clara em seu primeiro livro "Uma Patada com Carinho: As Histórias Pesadas da Elefoa Cor-de-rosa!" (Leya, 2011).

Elefanta cor-de-rosa combate os clichês do mundo feminino em HQ
Aproveite as ofertas de Natal da Livraria da Folha

O trabalho, protagonizado por uma singela e ácida elefanta rosa, foi planejado para surpreender justamente pelas contradições e idiossincrasias cotidianas, principalmente no que se refere à vida a dois e ao que há de sufocante no universo feminino. "Queria desenvolver algo que fosse fofo, mas também escroto, explorar comicamente parte de uma realidade odiosa."

Luiz Henrique Pellizzari/Divulgação
Paquidermes inspiraram a cartunista Chiquinha a criar a personagem Elefoa Cor-de-Rosa, protagonista de seu livro
Paquidermes inspiraram cartunista Chiquinha a criar personagem Elefoa Cor-de-Rosa, protagonista de seu livro

A artista, uma amante declarada do quadrinho nacional, conversou, por e-mail, com a Livraria da Folha, em uma entrevista na qual fala de suas origens artísticas, das ideias por trás de seus trabalhos e dos próximos livros que vai lançar.

*

Livraria da Folha: Você poderia contar um pouco de sua trajetória nos quadrinhos?
Chiquinha: Não tenho memória exata de quando comecei a desenhar quadrinhos, mas foi muito cedo. Sou temporona, e, quando nasci, meus irmãos já eram adolescentes. Desde bem pequena, no final dos 80, com a explosão de publicações de humor em banca, tive acesso livre à revistas como "Chiclete com Banana", "Piratas [do Tietê]", "MAD", que minha irmã comprava. São quadrinhos e autores que até hoje estão entre os que mais amo.

Sinto como se tivesse absorvido essa linguagem muito cedo. Sentia isso muito presente e me pareceu sempre muito natural me expressar neste formato.

Quando adolescente, antes da internet e da profusão dos quadrinhos em livrarias, também somado ao desaparecimento das publicações em banca de jornal, ficava em sebos catando revista velha e comprava tudo. Aí comecei a conhecer também as influências estrangeiras dos autores brasileiros que eu já amava.

Livraria da Folha: Encontrou algum tipo de barreira por ser uma das ainda poucas quadrinistas mulheres?
Chiquinha: Barreira, acho meio pesado. Posso dizer que causei um certo estranhamento, com certeza. E claro, tive que ouvir diversos comentários desagradáveis. Imagine quais eram as observações mais comuns de quem, sem argumentos plausíveis pra exteriorizar seu ódio, se sentia ofendido com uma ou outra piada elaborada por uma mulher.

Divulgação

Livraria: Como surgiu a ideia de produzir "Uma Patada com Carinho" e como foi o processo para realizá-lo?
Chiquinha: Surgiu o convite de um editor pra fazer algo com essa personagem que estava superesquecida em alguma gaveta. "Quadrinho de personagem, não sei se é bem minha praia", pensei. Não sou muito de tipos fixos. [Minhas criações] geralmente são personagens do acaso nos quais coloco as histórias que quero contar no momento.

Em 3 segundos cheguei a óbvia conclusão de que ter um livro era uma ideia linda e, já que a proposta que se apresentou era aquela, me restava pegar a Elefoa de volta e começar a pensar em como seria. Fui buscar anotações, rascunhos guardados e alguns desenhos antigos onde ela aparecia.

Queria que parecesse viva. Algo como aquele poema ["O Elefante"] do [Carlos] Drummond, "Fabrico um elefante de meus poucos recursos (...) suas orelhas pensas. A tromba se enovela, é a parte mais feliz de sua arquitetura (...)". Ela, na minha cabeça, funciona como esse poema: "Eis meu pobre elefante pronto para sair à procura de amigos num mundo enfastiado que já não crê nos bichos e duvida das coisas". :]

Livraria: O humor é base fundamental nas histórias da Elefoa. Como é o seu processo de criação de uma gag? Você tem primeiro a ideia, já pensa o conjunto todo, como funciona?
Chiquinha: Normalmente tenho as ideias para as histórias prontas mesmo. Anoto onde estiver e no papel que encontrar para não esquecer. Depois, desenho e altero uma coisa ou outra, acrescento uns fatos, arrumo o texto.

Livraria: No livro você fala de machismo, das esquisitices das relações humanas e das coisas sem noção que a sociedade espera de uma mulher. Quais são os seus temas preferidos?
Chiquinha: Quando pensei na Elefoa em específico, e depois nas amigas (Gisbelle e Janete), tentei fazer algo voltado mesmo pro feminino. Pode ser que a vontade de encarar essa tarefa tenha sido algum tipo de chamado hormonal inexplicável, já que até então via isso com muito olho torto. Nunca, de forma alguma, pensei ou penso em segmentar minhas histórias, mas esse viver mulher da atualidade parece estar se tornando cada vez mais sufocante. Queria, a partir daí, desenvolver algo que fosse fofo, mas também escroto, explorar comicamente parte de uma realidade odiosa.

[Gosto d']o comportamento bizarro [tido como] comum/casual do viver humano. Também me agradam temáticas que envolvam o além.

Divulgação

Livraria: O quanto das histórias da Elefoa é autobiográfico? O que especificamente você vê de você na personagem?
Chiquinha: Na medida em que as situações passam pelo meu discernimento como autora antes de serem desenhadas. Talvez uma espécie de otimismo às avessas. De viver sempre às voltas com o mal e acreditando profundamente nele, mas mantendo lá no fundo, escondida, a esperança no que pode acontecer de bom.

Livraria: Quais são seus autores preferidos nos quadrinhos?
Chiquinha: Meus autores do coração são Ota, Allan Sieber, Adão Iturrusgarai, Angeli, Fábio Zimbres, Georges Wolinski, Laerte, Joe Sacco, Robert Crumb, Charles Schulz, Kaz, Lynda Barry, Marjane Satrapi, Jim Woodring.

Divulgação

Livraria: Tem novos projetos em vista? Poderia falar sobre eles?
Chiquinha: Sim. Vou começar a fazer um [livro pela editora] Mini Tonto por convite do Fabio Zimbres. Algo diferente, preto e branco, inspirado nas antigas revistinhas de terror da Vecchi. Tipo "Terror Nostalgia", "Spektro". Já estou começando a desenhar outro volume das "Histórias Pesadas da Elefoa Cor-de-Rosa". "Dá pra Mim", é o título provisório.

Também estou montando sozinha uma espécie de sonho romântico: um álbum tipo coletânea cartunística, com parte das páginas que desenhei ao longo da vida, publicadas em jornal, postadas no blog e HQs inéditas da pilha de rascunhos que tão na fila.

Livraria: Mais algum comentário?
Chiquinha: Vida longa aos paquidermes.

*

"Uma Patada com Carinho: As Histórias Pesadas da Elefoa Cor-de-rosa!"
Autora: Chiquinha
Editora: Leya
Páginas: 128
Quanto: R$ 29,90 (preço promocional, por tempo limitado)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
Voltar ao topo da página