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04/01/2012 - 16h00

Leia capítulo um de "Cavalo de Guerra", livro adaptado por Spielberg

da Livraria da Folha
Texto baseado em informações fornecidas pela editora da obra.

O best-seller "Cavalo de Guerra" (WMF Martins Fontes, 2011), do escritor, poeta e dramaturgo inglês Michael Morpurgo, narra a emocionante história de um jovem que se separa de seu cavalo quando o equino é vendido para os militares e mandado para as trincheiras na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

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A obra foge do lugar comum ao ser narrada do ponto de vista do próprio animal, que divide com os leitores suas impressões do mundo e da guerra. O tratamento recebido pelo animal denuncia a crueldade e também o amor que os seres humanos são capazes cultivar.

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Nova capa do livro "Cavalo de Guerra", de Michael Morpurgo, traz cenas da adaptação cinematográfica de Spielberg
Capa nova de livro de Michael Morpurgo traz cenas da adaptação cinematográfica realizada por Steven Spielberg

O título foi adaptado para a tela grande pelo mestre do cinema norte-americano Steven Spielberg ("Jurassic Park" e "E.T.: O Extraterrestre" ), em filme previsto para estrear no país nesta sexta-feira (6).

Leia a introdução e o primeiro capítulo de "Cavalo de Guerra" do escritor.

*

Na velha escola que é agora utilizada como salão comunitário, debaixo do relógio que sempre marcou dez horas e um minuto, há um pequeno quadro poeirento de um cavalo. O animal está em pé, um esplêndido baio avermelhado com uma extraordinária cruz branca na fronte e quatro meias brancas perfeitamente simétricas. Desolado, ele olha para fora do quadro, as orelhas levantadas, a cabeça voltada para o lado, como se tivesse acabado de se dar conta da nossa presença.

Aqueles que o olham de passagem, quando o salão é fechado para reuniões comunitárias, festividades agrícolas ou jantares sociais, veem apenas uma velha pintura a óleo de um cavalo desconhecido realizada por um artista competente, porém anônimo. A imagem lhes é tão familiar que não chama a atenção. No entanto, aqueles que se dão o trabalho de olhar mais de perto veem a seguinte inscrição numa placa de cobre, gravada em letras pretas desbotadas, embaixo da moldura:

Joey.
Pintado pelo capitão James Nicholls, outono de 1914.

Somente alguns moradores do vilarejo, poucos e cada vez menos conforme os anos vão passando, lembram-se de Joey como ele realmente era. Sua história está escrita de modo que nem ele, nem aqueles que o conheceram, nem a guerra na qual viveram e morreram serão esquecidos.

Capítulo 1

Minhas lembranças mais antigas são uma confusão de campos montanhosos, baias escuras e úmidas e ratos correndo pelas vigas do teto. Lembro-me, contudo, muito bem do dia da venda de cavalos. O terror que senti naquele dia permaneceu comigo durante toda a minha vida.

Eu tinha menos de 6 meses de idade e não passava de um potro desengonçado e com pernas muito compridas que jamais havia se afastado da mãe. Naquele dia, fomos separados em meio à terrível gritaria do leilão, e nunca mais tornei a vê-la. Ela era uma bela égua destinada ao trabalho no campo. Já estava um pouco velha, mas tinha nos quartos dianteiros e traseiros toda a força e resistência de um cavalo de tração irlandês. Ela foi vendida em poucos minutos. Antes mesmo que eu pudesse segui-la, ela foi levada dali. Por algum motivo, demorou para que eu fosse negociado. Talvez tenha sido o olhar selvagem que eu lançava enquanto andava em círculos, procurando desesperadamente pela minha mãe, ou ainda o fato de nenhum dos fazendeiros e ciganos presentes querer comprar um potro muito magro, meio puro-sangue. Qualquer que fosse o motivo, eles discutiram por um bom tempo sobre o pouco que eu valia, até que ouvi a batida do martelo e fui conduzido para fora e levado para um pequeno curral.

- Nada mal para um cavalo que custou apenas três guinéus! Não é, meu pequeno rebelde? Nada mal! - disse a voz rouca e embriagada que obviamente pertencia ao meu dono. Não vou chamá-lo de meu senhor pois só tive um senhor em toda a minha vida. Meu dono segurava uma corda e subia na cerca do curral com mais três ou quatro de seus amigos de rosto vermelho. Cada um trazia uma corda. Tinham tirado o chapéu e o casaco e dobrado as mangas da camisa. Todos eles estavam rindo quando se aproximaram de mim. Como eu jamais havia sido tocado por um ser humano, recuei até sentir a cerca que estava atrás de mim e que impossibilitava a minha fuga. Eles ameaçaram se lançar sobre mim, mas, como eram lentos, consegui escapar e corri para o centro do curral, onde me virei para enfrentá-los novamente. Agora, eles haviam parado de rir. Relinchei, pedindo socorro à minha mãe, e ouvi sua resposta ecoando a distância. Foi na direção dessa voz que corri, investindo contra a cerca e tentando saltá-la, mas uma das minhas patas traseiras ficou presa. Fui puxado violentamente pela crina e pela cauda e senti uma corda apertando- me o pescoço. Fui derrubado e fiquei preso ao chão, sob o peso dos homens que pareciam estar sentados em meu corpo inteiro. Lutei até perder as forças, coiceando toda vez que os sentia relaxar, mas eles estavam em maior número e eram fortes demais para mim. Senti o cabresto roçando o meu rosto e estreitando-se na região do pescoço e do focinho.

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Cena do filme "Cavalo de Guerra", épico com direção de Steven Spieberg que estreia em 6 de janeiro
Cena do filme "Cavalo de Guerra", épico com direção de Steven Spieberg que estreia em 6 de janeiro

- Você é brigão, não é? - disse meu dono, apertando a corda e sorrindo com os dentes cerrados. - Gosto de brigões, mas vou domá-lo de um jeito ou de outro. Você é um galinho de briga, mas logo estará comendo na minha mão como um pintinho.

Fui sendo arrastado pelo caminho, amarrado à traseira de uma carroça, de modo que, a cada curva ou solavanco, eu levava um puxão no pescoço. Quando final6 mente chegamos à alameda da fazenda, atravessamos a ponte e deparamos com o pátio do estábulo que seria a minha morada, eu estava encharcado de suor, e o cabresto tinha deixado o meu focinho em carne viva. Naquela noite, quando me arrastaram para dentro da cocheira, o meu único consolo era saber que eu não estava sozinho. A velha égua que havia puxado a carroça desde o mercado até a fazenda foi conduzida à baia vizinha. Ao entrar, ela parou para olhar por cima da porteira e relinchou gentilmente para mim. Eu estava prestes a fugir pelo fundo da baia quando meu dono deu uma chicotada com tamanha violência no flanco da égua que acabei me encolhendo no canto, encostado na parede.

- Entre logo, sua miserável! - gritou o homem. - Você é uma peste, Zoey. Nem pense em ensinar os seus truques ao potro.

Nesse momento, consegui ver nos olhos da velha égua uma centelha de bondade e de cumplicidade que apaziguou os meus medos e me tranquilizou.

Fui deixado na baia sem água e sem comida, e o homem saiu cambaleando pelas lajes de pedra rumo à casa da fazenda. Portas bateram com força, vozes se elevaram. Então ouvi passos apressados voltando pelo pátio e vozes agitadas se aproximando. Duas cabeças apareceram por trás da porteira. Uma delas era a de um menino, que olhou fixamente para mim por um bom tempo, examinando-me atentamente antes de abrir um sorriso radiante.

- Mãe! - disse decidido. - Esse potro ainda vai ser um cavalo bonito e corajoso. Veja o porte da cabeça dele - e repetiu: - Veja, mãe! Ele está todo molhado. Preciso enxugá-lo.

- Seu pai falou para você deixar o potro quieto, Albert - lembrou-lhe a mãe. - Disse que é melhor para ele. Falou para você não mexer nele.

- Mãe - insistiu Albert, puxando os trincos da porteira da baia. - Quando o papai está bêbado, ele não sabe o que diz nem o que faz. E ele sempre bebe quando vai ao mercado. Você mesma disse que não devo lhe dar atenção quando ele fica desse jeito. Cuide de Zoey, que cuido do potro. Ele não é demais, mãe? É quase vermelho, eu diria que é um baio avermelhado, você não acha? E essa cruz branca no focinho é perfeita. Você já viu algum cavalo com uma cruz como essa? Viu? Vou montá-lo quando ele estiver preparado. Vou cavalgá-lo em todos os lugares. Ele vai ser o melhor cavalo da região, do condado.

- Você acabou de fazer 13 anos, Albert - a mãe respondeu da baia vizinha. - O potro é muito novinho e você é muito novinho, e, seja como for, seu pai falou para não mexer nele. Depois não venha chorar se ele pegar você aí dentro.

- Mas por que ele comprou um potro, mãe? - perguntou o menino. - Ele não tinha ido comprar um bezerro? Um bezerro para ser amamentado pela Celandine?

- Pois é, meu filho, seu pai vira outra pessoa quando bebe - respondeu a mãe com carinho. - Ele disse que o fazendeiro Easton estava interessado no potro, e você sabe que o seu pai tem birra do Easton desde que ele levantou aquele celeiro, invadindo parte das nossas terras. Acho que ele acabou comprando o potro só para contrariar o Easton. É isso o que acho.

- Ainda bem que ele fez isso, mãe - disse Albert, caminhando lentamente em minha direção e tirando o casaco. - Bêbado ou não, foi a melhor coisa que ele fez na vida.

- Não fale assim de seu pai, Albert. Ele tem passado maus bocados. Não está certo - disse a mãe, mas suas palavras careciam de convicção.

Albert era praticamente da minha altura e, ao se aproximar, falava tão mansamente, que logo fiquei calmo e bastante intrigado, portanto fiquei onde estava, encostado na parede. Saltei para trás quando ele me tocou pela primeira vez, mas logo percebi que ele não queria me fazer mal. Primeiro afagou o meu dorso, depois o pescoço, enquanto dizia que iríamos nos divertir muito, que eu seria o cavalo mais inteligente do mundo e que sairíamos para caçar juntos. Depois de um tempo, ele começou a esfregar o casaco em meu pelo suavemente. Esfregou-me até que eu estivesse seco. Depois borrifou água salgada em meu focinho, onde a pele estava machucada. Trouxe-me feno saboroso e um balde de água fresca. Acho que não parou de falar nem um segundo. Quando se virou para sair, relinchei em agradecimento, e ele pareceu entender, pois abriu um largo sorriso e afagou meu focinho.

- Vamos nos dar muito bem, você e eu - disse carinhosamente. - Vou chamá-lo de Joey, porque rima com Zoey, e também porque acho que combina com você. Volto amanhã de manhã. Não se preocupe, tomarei conta de você. Prometo. Durma bem, Joey.

- Não adianta falar com cavalos, Albert - disse a mãe, do lado de fora. - Eles não entendem. São bichos estúpidos. Estúpidos e teimosos, como diz o seu pai, e olha que ele lidou com cavalos a vida inteira.

- É que o papai não os entende - disse Albert. - Acho que ele tem medo deles.

Fui até a porteira e vi Albert e sua mãe caminhando para dentro da escuridão. Então percebi que havia encontrado um amigo para a vida inteira, que tínhamos criado um laço instintivo e imediato de confiança e de afeto. Ao meu lado, Zoey tentou me alcançar por cima da porteira, mas nossos focinhos não conseguiram se tocar.

*

"Cavalo de Guerra"
Autor: Michael Morpurgo
Editora: WMF Martins Fontes
Páginas: 184
Quanto: R$ 25,80 (preço promocional*)
Onde comprar: 0800-140090 ou na Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
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