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23/01/2012 - 13h30

Leia trecho de "Os Descendentes", obra que inspirou vencedor do Globo de Ouro

da Livraria da Folha
Texto baseado em informações fornecidas pela editora da obra.

Obra de estreia da escritora havaiana Kaui Hart Hemmings, o romance"Os Descendentes" (Alfaguara, 2012) arrebanhou o Globo de Ouro de melhor drama em sua adaptação cinematográfica. Estrelado por George Clooney ("Amor sem Escalas" e "Os Homens que Encaravam Cabras" ) e dirigido por Alexander Payne ("Sideways: Entre Umas e Outras" e "As Confissões de Schmidt " ), o longa também é um forte candidato ao Oscar de melhor filme do ano.

Em história real, homem compra zoo e leva família para morar nele
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A história fala de Matthew King, um homem quase comum, exceto pelo fato de pertencer a uma linhagem real do Havaí e ser um dos principais donos de terra do conjunto de ilhas.

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Capa de "Os Descendentes", da escritora havaiana Kaui Hart Hemmings; Clooney encarna protagonista nos cinemas
Capa de "Os Descendentes", da havaiana Kaui Hart Hemmings; Clooney encarna protagonista nos cinemas

O protagonista passa por uma reviravolta depois de sua mulher entra em coma ao sofrer um acidente de lancha. King terá que cuidar das duas filhas, uma delas ex-modelo e ex-usuária de drogas, de quem até então, não conseguia se aproximar. Ao mesmo tempo, seus primos querem lhe convencer a vender sua propriedade, único legado de sua origem nobre, para resolverem questões famíliares.

Leia o primeiro capítulo de "Os Descendentes".

*

1 O sol brilha, os mainás cantam, as palmeiras balançam, e daí. Estou no hospital e tenho saúde. Meu coração bate como deve. Meu cérebro dispara mensagens em alto e bom som. Minha esposa jaz no leito hospitalar, ereta, posicionada do jeito que as pessoas ficam ao dormir em aviões, o corpo rígido, a cabeça caída para o lado. Suas mãos estão no colo.

"Não dá pra deixar ela um pouco mais deitada?", eu pergunto.

"Peraí", diz minha filha Scottie. Ela tira uma foto de sua mãe, uma Polaroid. Ela se abana com a foto, e eu aperto o botão na lateral da cama para baixar o corpo de minha esposa. Solto o botão quando está quase na horizontal.

Joanie entrou em coma faz vinte e três dias, e nos próximos terei de tomar algumas decisões baseado no veredicto final de nosso médico. Na verdade, só preciso descobrir o que o médico
tem a dizer sobre a condição de Joanie. Não há nenhuma decisão a tomar, uma vez que Joanie deixou sua living will, uma espécie de testamento rejeitando viver por aparelhos. Ela, como sempre, toma suas próprias decisões.

Hoje é segunda-feira. O dr. Johnston disse que vamos conversar na terça, e esse compromisso me põe nervoso, como se fosse um encontro. Não sei como agir, o que dizer, o que vestir.
Ensaio respostas e reações, mas guardo apenas as falas que respondem a cenários favoráveis. Não ensaiei um plano B.

"Pronto", diz Scottie. Seu nome é Scottie de verdade. Joanie achou que seria um nome bacana, em homenagem ao meu sogro, Scott. Sou obrigado a discordar.

Pego o instantâneo, que parece uma dessas fotos que as pessoas tiram de alguém dormindo. Não sei por que achamos tão engraçado. Tem um monte de coisa que dá para fazer com você quando está dormindo. Essa parece ser a mensagem. Olha só como está vulnerável, as coisas que você nem sabe que estão acontecendo. Contudo, nessa foto dá para perceber que não está apenas dormindo. Joanie está com a bolsa de soro ao lado e há uma coisa chamada entubação endotraqueal indo de sua boca a um ventilador que a ajuda a respirar. Ela é alimentada por um tubo intravenoso e recebe medicação suficiente para abastecer um vilarejo
fijiano. Scottie está documentando nossa vida para suas aulas de estudos sociais. Eis Joanie no Queen's Hospital, sua quarta semana de coma, um coma que recebeu um 10 na escala de Glasgow e um III na escala do Rancho Los Amigos. Ela participava de uma corrida e foi ejetada de uma lancha de competição a cento e trinta quilômetros por hora, mas acho que vai ficar bem.

"Ela reage não intencionalmente a estímulos de uma maneira inespecífica, mas ocasionalmente suas reações são específicas, embora inconsistentes." Isso foi o que me disse sua neurologista, uma jovem com um ligeiro tremor no olho esquerdo e um jeito de falar apressadinho que torna difícil lhe fazer perguntas. "Seus reflexos são limitados e com frequência os mesmos, independente dos estímulos apresentados", diz. Nada disso me soa bem, mas tenho certeza de que Joanie ainda está segurando as pontas. Sinto que vai ficar bem e um dia será capaz de funcionar normalmente. Em geral tenho razão sobre as coisas.

"Para que era a corrida?", perguntou a neurologista.

A pergunta me deixou confuso. "Para ganhar, eu acho. Para chegar em primeiro no final."

"Não aguento mais ver isso", digo a Scottie. Ela termina de colar a foto em seu álbum e então desliga a televisão com o controle remoto.

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Cena do filme "Os Descendentes", no qual George Clooney encarna o pai de família havaiana em crise
Cena do filme "Os Descendentes", no qual George Clooney encarna o pai de família havaiana em crise

"Não, estou falando daquilo." Aponto as coisas na janela - o sol e as árvores, os pássaros no gramado, saltitando de migalha em migalha, atiradas por turistas e velhas malucas. "Abaixa aquela coisa. É horrível." Os trópicos inviabilizam as lamentações. Aposto que na cidade grande a pessoa pode sair pela rua de cara amarrada sem ninguém para ficar perguntando qual o problema ou encorajando-a a sorrir, mas aqui todo mundo exibe essa postura de como somos sortudos por morar no Havaí; o paraíso reina supremo. Se depender de mim, o paraíso pode ir pra puta que o pariu.

"Que nojo", diz Scottie. Ela fecha a persiana diante da janela, obstruindo a cena toda.

Espero que não perceba que a estou avaliando e que fico absolutamente preocupado com o que vejo. Ela é agitada e esquisita. Tem dez anos. O que faz uma pessoa durante o dia quando tem dez anos? Ela passa os dedos pela janela e murmura, "Isso podia me deixar com gripe aviária", e então forma um círculo em torno da boca com a mão e faz sons de trombeta. Ela é doida. Vai saber o que passa por aquela cabeça, e, falando em cabeça, definitivamente está precisando de um corte de cabelo ou de uma escovada. Há pequenos novelos felpudos encimando seu cocuruto. Onde ela corta o cabelo?, me pergunto. Se é que já cortou em algum lugar. Ela dá uma coçada no couro cabeludo, depois olha as unhas. Está usando uma camiseta dizendo não sou esse tipo de garota. mas posso ser! Fico feliz por ela não ser muito bonita, mas percebo que isso pode mudar.

Olho meu relógio. Foi presente de Joanie.

"Os ponteiros brilham e o mostrador é de madrepérola", disse ela.

"Quanto custou?", perguntei.

"Mas como é que eu sabia que essa ia ser a primeira coisaque você ia falar?"

Deu para perceber que ficou magoada, que se empenhara muito em escolher o presente. Ela adora dar presentes, prestar atenção nas pessoas de modo que possa lhes dar um presente demonstrando que se deu ao trabalho de conhecê-las e escutá-las. Pelo menos, parece ser isso o que faz. Eu não deveria ter perguntado sobre o preço. Ela só queria mostrar que me conhecia.

"Que horas são?", pergunta Scottie.

"Dez e meia."

"Ainda é cedo."

"Sei", eu digo. Não sei o que fazer. Estamos aqui não só por causa da visita e na esperança de que Joanie tenha feito algum progresso durante a noite, reagindo a luz, som e picadas doloridas, mas também porque não temos nenhum outro lugar para ir. Scottie fica na escola o dia todo e depois Esther vai buscá-la, mas essa semana achei que deveria passar mais tempo aqui comigo, então a tirei da escola.

"O que você quer fazer agora?", pergunto.

Ela abre seu álbum de recortes, um projeto que parece ocupar todo seu tempo. "Sei lá. Comer."
"O que você faz normalmente a essa hora?"

"Estou na escola."

"E se fosse sábado? O que você ia estar fazendo?"

"Praia."

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Matt King (Clooney) ao lado de sua filha mais velha Alexandra(Shailene Woodley), que teve problemas com drogas
Matt King (Clooney) ao lado de sua filha mais velha, Alexandra (Shailene Woodley), que teve problemas com drogas

Tento pensar quando foi a última vez que ela esteve inteiramente aos meus cuidados e o que fizemos juntos. Acho que foi quando estava com um ano, um ano e meio. Joanie teve de viajar para o Maui para uma sessão de fotos e não conseguiu achar uma baby-sitter, e seus pais não podiam ficar com ela, por algum motivo. Eu estava no meio de um julgamento e fiquei em casa, mas tinha algum trabalho inadiável, então pus Scottie na banheira com um sabonete. Fiquei observando para ver o que acontecia. Ela bateu na água e tentou beber, e então encontrou o sabonete e tentou pegá-lo. O sabonete fugiu e ela tentou outra vez, com uma expressão de deslumbramento no rosto, e eu saí de fininho para o corredor, onde havia colocado meu computador e uma babá eletrônica. Dava para escutar suas risadas, então eu sabia que não estava se afogando. Pergunto-me se isso ainda funcionaria: deixá-la em uma banheira com um escorregadio sabonete Irish Spring.

"A gente pode ir pra praia", eu digo. "A mamãe não ia levar você no clube?"

"Claro, dã. Aonde mais a gente podia ir?"
"Então, fechado. Depois que você conversar e a gente encontrar uma enfermeira, a gente passa em casa e vai." Scottie arranca uma foto de seu álbum, amassa e joga fora. Me pergunto qual foto teria sido, se era a de sua mãe na cama, não a melhor das recordações familiares, provavelmente. "Eu queria", diz Scottie. "O que eu queria?"

É uma de nossas brincadeiras. De vez em quando ela diz o nome de um lugar em que gostaria de estar sem ser ali, nesse momento de nossas vidas.

"Eu queria estar no dentista", decide.

"Eu também. Queria que estivessem tirando raio X da nossa boca."

"E a mamãe ia estar fazendo clareamento dos dentes", diz.

Eu queria mesmo estar no consultório do dr. Branch, nós três ficando doidões de gás hilariante e sentindo os lábios dormentes. Um tratamento de canal seria um passeio no parque comparado com isso. Ou qualquer procedimento médico, qualquer um. Na verdade, eu queria estar em casa trabalhando. Preciso tomar uma decisão sobre quem deve ficar com as terras que estão na minha família desde a década de 1840. Com essa venda, será o fim de todas as terras em nossa posse e preciso desesperadamente examinar os fatos antes da reunião que terei com meus primos daqui a seis dias. É nosso prazo final. Duas horas na casa do Primo Seis daqui a seis dias. Vamos aprovar um comprador. Foi irresponsabilidade minha ter postergado tanto a decisão sobre esse negócio, mas acho que protelar é o que minha família tem feito há um bom tempo. Demos as costas a nossa herança, esperando que alguém aparecesse para cuidar tanto de nossa fortuna quanto de nossas dívidas.

Receio que talvez seja Esther quem vá levar Scottie à praia, e estou quase dizendo isso a ela, mas então fico quieto porque sinto vergonha. Minha esposa está no hospital, minha filha precisa de seus pais, e eu preciso trabalhar. Mais uma vez, eu a estou deixando de molho na banheira.

Vejo Scottie encarando sua mãe. Está de costas para a parede, e mexendo na barra de sua camiseta.

"Scottie", eu digo. "Se você não vai falar nada, então a gente já pode ir."

"Tá", ela diz. "Então vamos."

"Não quer contar para sua mãe como tem sido na escola?"

"Ela não liga pro que acontece na escola."

"E que tal suas atividades extracurriculares? Você tem a agenda mais cheia que o presidente. Seu álbum, mostra pra ela. Ou o que você fez na aula de soprar vidro, outro dia?"

"Um bongo", ela diz.

Dou uma boa olhada nela antes de responder. Ela não parece ter dito nada fora do comum. Nunca sei se sabe do que está falando. "Interessante", eu digo. "O que é um bongo?"

Ela dá de ombros. "Um cara do colegial me ensinou a fazer. Ele disse que ficava bom com fritas ou molho de salsa ou qualquer outra coisa que eu gostasse de comer. É tipo um prato."

"Você ainda tá com esse bongo?"

"Estou, mais ou menos", ela disse. "Mas o senhor Larson falou pra eu transformar num vaso. Eu podia pôr umas flores nele e dar pra ela." Ela aponta sua mãe.

"Que ideia ótima!"

Ela me olha com ar cético. "Não precisa parecer todo empolgado desse jeito."

"Desculpe", eu digo.

Recosto em minha cadeira e fico olhando os buracos no teto, um por um. Não sei por que não estou preocupado, mas simplesmente não estou. Sei que Joanie vai ficar bem, porque ela sempre consegue se sair bem. Vai acordar e Scottie terá uma mãe, e poderemos conversar sobre nosso casamento e eu poderei deixar minhas desconfianças de lado. Vou vender a propriedade e comprar um barco para Joanie, algo que vai deixá-la de boca aberta e fazer com que jogue a cabeça para trás de tanto rir.

"Da última vez era você que estava na cama", diz Scottie.

"É."

"Da última vez você mentiu pra mim."

"Sei, Scottie. Desculpe."

Ela se refere à minha passagem pelo hospital. Sofri um pequeno acidente de moto. Bati na pista, voando por cima do guidão e caindo em um monte de terra. Em casa, depois do acidente, contei para Joanie e Scottie o que havia acontecido, mas insisti que estava bem e que não ia para o hospital. Scottie me fazia esses pequenos testes para mostrar que eu não era confiável. Joanie participava. Elas agiam como o tira mau, tira bom.

"Quantos dedos?", perguntou Scottie, erguendo o que imaginei ser um mindinho e um polegar.

"Puxa vida", eu disse. Não estava a fim de ser testado desse jeito.

"Responde", disse Joanie.

"Dois?"

"Certo", disse Scottie, cautelosa. "Fecha os olhos, encosta o dedo na ponta do nariz e fica num pé só."

"Puxa vida, Scottie. Não consigo fazer isso independente do que for, e você está me tratando como um motorista bêbado."

"Faz o que ela diz", gritou Joanie. Está sempre gritando comigo, mas na verdade é só o jeito que a gente conversa um com outro. Seus gritos fazem com que me sinta inepto e amado.
"Encosta no nariz e fica num pé só."

Fiquei parado em protesto. Eu sabia que havia alguma coisa errada comigo, mas não queria ir para o hospital. Queria deixar o que estivesse errado com meu corpo seguir seu curso. Eu estava curioso. Estava com dificuldade de manter a cabeça erguida. "Estou bem."

"Você está zonzo", disse Joanie.

Ela tinha razão, claro. "Você tem razão", eu disse. Já dava até para imaginar: "O senhor se feriu", um médico me diria, e então cobraria mil dólares, no mínimo, e faria coisas desnecessárias e me daria conselhos inconfiáveis e excessivamente cautelosos para evitar uma ação judicial, e então eu teria de lidar com as companhias de seguros, que costumam perder documentos de propósito para evitar pagar, e o hospital me mandaria para o setor de cobrança, e eu teria de tratar disso tudo ao telefone com pessoas que não têm sequer o segundo grau. Mesmo hoje fico cético. A neurologista de língua rápida e nosso neurocirurgião dizem que eles só precisam manter os níveis de oxigênio e controlar o inchaço em seu cérebro. Falando, parece moleza; manter alguém cheio de oxigênio dificilmente seria algo a exigir um cirurgião. Troquei meus pensamentos de médicos para Joanie
conforme esfregava o lado direito da minha cabeça.

"Olha só para você", disse Joanie. Eu estava olhando para uma pintura em nossa parede de um peixe morto, tentando lembrar onde conseguira aquilo. Tentei ler o nome do artista: Brady Churkill? Churchill?

"Você não consegue nem enxergar direito", ela disse.

"Como posso olhar para mim mesmo, então?"

"Cala a boca, Matt. Se arruma e entra no carro."

Me arrumei e entrei no carro.

Descobriu-se que eu lesionara meu quarto nervo, um nervo que liga os olhos ao cérebro, o que explicava por que as coisas haviam ficado fora de foco.

"Você podia ter morrido", diz Scottie agora.

"De jeito nenhum", eu digo. "Um quarto nervo? Quem precisa disso?"

"Você mentiu. Disse que estava bem. Disse que conseguia enxergar meus dedos."

"Não menti. Adivinhei certo. Além do mais, por algum tempo tive gêmeas. Duas Scotties."

Ela estreita os olhos, avaliando meu subterfúgio.

Lembro de quando eu estava no hospital, Joanie pôs vodca em minha gelatina. Ela usou meu tapa-olho e subiu no leito hospitalar comigo para tirar um cochilo. Foi gostoso. Foi a última coisa gostosa de verdade que fizemos juntos.

Tenho uma incômoda desconfiança de que está, ou esteve, apaixonada por outro homem. Quando ela deu entrada no Queen's, vasculhei sua carteira à procura de seu cartão do seguro- saúde e encontrei um bilhete escrito num pedacinho de papel azul duro que parecia feito sob medida para mensagens clandestinas. O bilhete dizia: Pensando em você. A gente se vê no Indigo.

O bilhete podia ser de anos antes. Ela vivia encontrando recibos desbotados de antigas férias, cartões de visita de comércios que nem existiam mais, canhotos de ingressos para Waterworld ou Tempo de glória. O bilhete também podia ser de um de seus amigos modelos, gays. Eles viviam dizendo essas merdas sentimentais, e a cor do cartãozinho era um azul Tiffany feminino. Na época eu deixei minha desconfiança pra lá, e tenho tentado esquecer esse bilhete, ainda que ultimamente me pegue pensando em como andava se comportando, dissimulada, dada a flertes - o modo como consegue beber sem parar, e aonde beber leva, as inúmeras noites saindo com as garotas -, e quando penso nas coisas desse jeito, um caso parece possível, quando não inevitável. Esqueço que Joanie é sete anos mais nova que eu. Esqueço que precisa de elogio e distração constantes. Ela precisa ser desejada, e em geral estou ocupado demais para elogiar, distrair ou desejar. Mesmo assim, não sou capaz de imaginá-la tendo um caso de verdade. A gente se conhece faz mais de vinte anos. Temos um ao outro e não alimentamos expectativas altas demais. Gosto do que temos, e sei que ela também. Minhas desconfianças não são muito convenientes nesse momento.

Scottie ainda não parou de me olhar daquele jeito. "Você podia ter morrido", diz.

Fico me perguntando o que meu acidente tem a ver com o que quer que seja. Ultimamente, Scottie anda acusando minhas falhas, minhas tapeações e mentiras. Parece uma entrevista. Sou o candidato reserva. Sou o papai. Ela e Esther estão tentando me preparar para o papel, acho, mas quero dizer a elas que não tem problema. Sou apenas o ator substituto, e a estrela principal em breve estará de volta.

"O que mais você queria?", pergunto.

Está sentada no chão, com o queixo apoiado no assento de uma cadeira. "Almoçar", ela diz. "Estou morrendo de fome. E um refri. Preciso de um refri."

"Eu queria que você conversasse com ela", eu digo. "Quero fazer isso antes da gente ir. Eu vou buscar o refrigerante pra você. Vou deixar você só com ela. Dar um pouco de privacidade." Fico de pé, pondo os braços acima da cabeça e me esticando. Me sinto mal quando baixo o rosto para Joanie. Quanta mobilidade eu tenho.
"Quer alguma coisa diet?"

"Você está me achando gorda?", pergunta Scottie.

"Não, não estou achando você gorda, mas a Esther enche você de açúcar, e quero desintoxicar você um pouco, se não for pedir demais. As coisas vão mudar um pouco."

"O que é desintoxicar?" Ela ergue os braços fibrosos acima da cabeça e se estica. Notei que anda copiando as coisas que eu faço e digo.

"É o que a sua irmã deveria ter feito", murmuro. "Já volto. Não sai daqui. Conversa com ela."

*

"Os Descendentes"
Autora: Kaui Hart Hemmings
Editora: Alfaguara
Páginas: 304
Quanto: R$ 29,90 (preço promocional*)
Onde comprar: Pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
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