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02/03/2012 - 13h00

Leia capítulo de "Festa no Covil", obra sobre tráfico no México

da Livraria da Folha
Texto baseado em informações fornecidas pela editora da obra.

A ficção "Festa no Covil" (Companhia das Letras, 2012), de Juan Pablo Villalobos, expõe a realidade cruel do tráfico de drogas no México pelo singelo olhar do filho de um traficante. Afastado do submundo do crime, o inteligente menino --criado como um pequeno príncipe-- pega apenas as rebarbas do universo do pai.

Divulgação
Doce olhar de menino denuncia os horrores do narcotráfico no México
Doce olhar de menino denuncia os horrores do narcotráfico no México

Ficção mexicana expõe entranhas do tráfico pelos olhos de menino
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Inventar e solucionar mistérios, cuidar de suas coleções e falar sobre a França, samurais e bichos são as atividades preferidas do personagem. O garoto faz tudo junto ao seu insólito preceptor, um escritor frustrado, ex-militante de esquerda, que não mede as palavras frente à pouca idade de seu companheirinho.

Dono de um zoológico particular, o menino sonha em possuir um hipopótamo anão da Libéria. Ele poderá ver seu desejo realizado quando a coisa fica feia para o seu pai e família precisa abandonar o México.

Ao adotar o tema por um ângulo inusitado, Juan Pablo Villalobos consegue fugir do lugar comum e adentrar o difícil e urgente tema.

Leia o primeiro capítulo de "Festa no Covil".

*

UM

Algumas pessoas dizem que eu sou precoce. Dizem isso principalmente porque pensam que sou pequeno pra saber palavras difíceis. Algumas das palavras difíceis que eu sei são: sórdido, nefasto, pulcro, patético e fulminante. Na verdade não são muitas as pessoas que dizem que sou precoce. O problema é que não conheço muita gente. Conheço no máximo umas treze ou catorze pessoas, e quatro delas dizem que sou muito precoce. Dizem que eu pareço mais velho. Ou o contrário, que sou muito novo pra essas coisas. Ou o contrário do contrário, às vezes até pensam que sou anão. Mas eu não acho que seja tão precoce assim. Acontece que eu tenho um truque, que nem os mágicos, que tiram coelhos da cartola, só que eu tiro palavras do dicionário. Toda noite, antes de dormir, eu leio o dicionário. O resto é por conta da minha memória, que é muito boa, quase fulminante. O Yolcaut também não acha que eu sou precoce. Ele diz que sou um gênio, e fala assim:

- Tochtli, você é um gênio, moleque desgraçado - e me passa a mão na cabeça com seus dedos cheios de anéis de ouro e diamantes.

De qualquer maneira, as pessoas que dizem que sou engraçado são mais: sete. E isso só porque eu gosto muito de chapéus e estou sempre de chapéu. Usar chapéu é um bom hábito das pessoas pulcras. O céu está cheio de pombas fazendo suas necessidades. Se você não usa chapéu, acaba com a cabeça suja. As pombas são umas sem-vergonha. Fazem suas porcarias na frente de todo mundo, enquanto voam. Elas bem que podiam fazer escondidas, entre os galhos das árvores. Assim a gente não precisava andar o tempo todo olhando pro céu com medo de sujar a cabeça. Mas o chapéu, se é um chapéu bom, também serve para a distinção. Ou seja, os chapéus são como as coroas dos reis. Se você não é rei, pode usar chapéu para a distinção. E se você não é rei e não usa chapéu, acaba sendo um zé-ninguém.

Eu não acho que seja engraçado por usar chapéu. Além do mais, o engraçado é primo do feio, como diria a Cinteotl. O que eu sei, sim, é que sou macho. Por exemplo: não fico chorando por não ter mãe. Teoricamente, se você não tem mãe deve chorar muito, litros e litros de lágrimas, uns dez ou doze por dia. Mas eu não choro, porque quem chora é dos maricas. Quando fico triste, o Yolcaut diz para eu não chorar, ele fala assim:

- Segura, Tochtli, segura como um macho.

O Yolcaut é meu pai, mas ele não gosta que eu chame ele de pai. Diz que somos o melhor bando de machos num raio de pelo menos oito quilômetros. O Yolcaut é dos realistas, e por isso não diz que somos o melhor bando do universo nem o melhor bando num raio de oito mil quilômetros. Os realistas são pessoas que acham que a realidade não é assim, como você pensa que é. Foi o Yolcaut que me falou. A realidade é assim, e pronto. Sem chance. "É preciso ser realista" é a frase favorita dos realistas.

Eu acho que somos um bando muito bom mesmo. Tenho provas. Os bandos são sobre a solidariedade. Então a solidariedade é que, como eu gosto de chapéus, o Yolcaut compra chapéus pra mim, muitos chapéus, tantos que tenho até uma coleção de chapéus do mundo inteiro e de todas as épocas do mundo. Se bem que agora, em vez dos chapéus novos, o que eu quero mesmo é um hipopótamo anão da Libéria. Já botei na lista de coisas que eu quero e entreguei pro Miztli. A gente sempre faz assim, porque não vou muito pra rua, e aí o Miztli compra para mim tudo que eu quero por ordem de Yolcaut. E como o Miztli tem uma memória péssima, tenho que fazer as listas para ele. Mas um hipopótamo anão da Libéria não é tão fácil assim de encontrar num pet shop. O máximo que os pet shops vendem são cachorros. Mas quem quer um cachorro? Ninguém quer um cachorro. É tão difícil conseguir um hipopótamo anão da Libéria que talvez o único jeito seja ir capturar lá na Libéria. Por isso estou com muita dor de barriga. Na verdade, sempre tenho dor de barriga, mas agora é mais seguido.

Acho que neste momento minha vida é um pouquinho sórdida. Ou patética.

Mais ou menos sempre eu gosto do Mazatzin. Só não gosto quando ele fica rigoroso e quer seguir o plano de estudos com rigor. Aliás, o Mazatzin não me chama de Tochtli. O Mazatzin me chama de Usagi, que é meu nome em japonês, porque ele gosta muito de todas as coisas do império do Japão. O que eu gosto muito do império do Japão são os filmes de samurais. Alguns eu vi tantas vezes que até sei de cor. Quando vejo esses filmes, eu me adianto e vou dizendo as falas dos samurais antes deles. E nunca erro. Consigo fazer isso graças à minha memória, que é mesmo quase fulminante. Um desses filmes se chama O crepúsculo do samurai, e trata de um samurai velho que ensina as coisas dos samurais pra um menino. Uma hora ele obriga o menino a ficar quieto e mudo por um monte de dias. Ele vira e fala assim pra ele: "O guardião é sigiloso e sabe esperar. A paciência é sua melhor arma, como o grou que não conhece o desespero. Os fracos são reconhecidos pelo movimento. Os fortes, pela imobilidade. Veja o sabre fulminante que não conhece o tremor. Veja o vento. Veja seus cílios. Feche os olhos e veja seus próprios cílios". E não é só esse filme que eu sei de cor, sei muitos outros, quatro.

Um dia, em vez de me dar aula, o Mazatzin me contou a história dele, que é muito sórdida e patética. O que acontece é que antes ele fazia negócios muito bons com os anúncios da tevê. Ganhava milhões de pesos pra inventar comerciais de xampu e de refrigerante. Mas o Mazatzin estava sempre triste, porque na verdade ele tinha estudado pra ser escritor. Aqui começa a parte sórdida: a pessoa ganhar milhões de pesos e ficar triste porque não é escritor. Isso é sórdido. No fim das contas, de tanta tristeza, o Mazatzin foi morar muito longe, numa cabana no meio do nada, acho que no alto de um morro. Ele queria ficar lá pensando e escrever um livro sobre a vida. Levou até um computador. Isso não é sórdido, mas é patético. O problema é que a inspiração não veio, e enquanto isso o seu sócio, que também era seu melhor amigo, passou a perna nele pra ficar com todos os seus milhões de pesos. Melhor amigo coisa nenhuma, era um traidor.

Aí o Mazatzin veio trabalhar com a gente, porque o Mazatzin é dos cultos. O Yolcaut diz que os cultos são pessoas muito metidas porque sabem muitas coisas. Sabem coisas das ciências naturais, como que as pombas transmitem doenças nojentas. Também sabem coisas da história, como que os franceses gostam muito de cortar a cabeça dos reis. Por isso os cultos gostam de ser professores. Às vezes eles sabem coisas erradas, como que pra escrever um livro você tem que ir morar numa cabana no meio do nada e no alto de um morro. Quem diz isso é o Yolcaut, que os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida. A gente também mora no meio do nada, mas não é pra se inspirar. A gente está aqui para a proteção.

De qualquer jeito, como eu não posso ir pra escola, o Mazatzin me ensina as coisas dos livros. Agora estamos estudando a conquista do México. É um tema divertido, com guerra e mortos e sangue. A história é assim: de um lado estavam os reis do reino da Espanha e do outro lado estavam os índios que viviam no México. Aí os reis do reino da Espanha resolveram que queriam ser também os reis do México. Daí eles chegaram e começaram a matar os índios, mas só pra meter medo neles e fazer com que aceitassem seus novos reis. Bom, na verdade alguns índios eles nem matavam, só queimavam os pés deles. Toda essa história deixa o Mazatzin furioso, porque ele usa camisas de índio e sandálias de índio, como se fosse índio. E aí começa com seus discursos. Ele fala assim:

- Eles roubaram a nossa prata, Usagi, nos saquearam! Parece até que os índios mortos eram seus primos ou seus tios. Patético. Aliás, os espanhóis não gostam de cortar a cabeça dos reis. Eles ainda têm reis vivos com a cabeça grudada no pescoço. O Mazatzin me mostrou uma foto numa revista. Isso também é muito patético.

Uma das coisas que aprendi com o Yolcaut é que às vezes as pessoas não viram cadáveres com uma bala. Às vezes precisam de três balas ou até de catorze. Tudo depende de onde você atira. Se você atira duas balas no cérebro, com certeza elas morrem. Mas você pode atirar até mil vezes no cabelo que não acontece nada, apesar de que deve ser bem divertido de ver. Eu sei dessas coisas por causa de um jogo que eu e o Yolcaut costumamos jogar. O jogo é de perguntas e respostas. Um fala uma quantidade de tiros e uma parte do corpo, e o outro responde: vivo, cadáver ou diagnóstico reservado.

- Um tiro no coração.

- Cadáver.

- Trinta tiros na unha do dedo mindinho do pé esquerdo.

- Vivo.

- Três tiros no pâncreas.

- Diagnóstico reservado.

E assim por diante. Quando acabam as partes do corpo, procuramos partes novas num livro que tem desenhos de tudo, até da próstata e do bulbo raquidiano. Por falar no cérebro, é importante tirar o chapéu antes de atirar no cérebro, para ele não manchar. O sangue é muito difícil de limpar. Isso é o que a Itzpapalotl, que é a empregada que faz a faxina do nosso palácio, repete o tempo todo. Isso mesmo, o nosso palácio, o Yolcaut e eu somos donos de um palácio, e olha que nem somos reis. Acontece que temos muito dinheiro. Muitíssimo. Temos pesos, que é a moeda do México. Também temos dólares, que é a moeda do país Estados Unidos. E também temos euros, que é a moeda dos países e reinos da Europa. Acho que temos bilhões dos três tipos, mas as notas de que mais gostamos são as de cem mil dólares. E além do dinheiro temos as joias e os tesouros. E muitos cofres com senhas secretas. É por isso que conheço poucas pessoas, treze ou catorze. Porque se eu conhecesse mais iam nos roubar o dinheiro ou passar a perna na gente como fizeram com o Mazatzin. O Yolcaut diz que precisamos nos proteger. Os bandos também são sobre isso.

Outro dia apareceu no nosso palácio um homem que eu não conhecia, e o Yolcaut quis saber se eu era macho ou não era macho. O homem estava com o rosto sujo de sangue e na verdade olhar pra ele dava um pouquinho de medo. Mas eu não falei nada, porque ser macho quer dizer que você não tem medo e se você tem medo é um maricas. Fiquei bem sério enquanto o Miztli e o Chichilkuali, que são os vigias do nosso palácio, davam uns golpes fulminantes nele. O homem acabou sendo dos maricas, porque começou a chorar e a gritar: não me matem! Não me matem! Ele até urinou nas calças. O bom dessa história é que eu provei que sou macho, sim, e o Yolcaut me deixou sair antes que o maricas virasse cadáver. Com certeza o mataram, porque depois vi a Itzpapalotl passar com o balde e o esfregão. Se bem que eu não sei quantos tiros deram nele. Acho que no mínimo foram quatro no coração. Se fosse contar os mortos, eu conheceria mais de treze ou catorze pessoas. Umas dezessete ou mais. Vinte, fácil. Mas os mortos não contam, porque os mortos não são pessoas, os mortos são cadáveres.

Na verdade existem muitos jeitos de fazer cadáveres, mas os mais usados são com os orifícios. Os orifícios são buracos que você faz nas pessoas para o sangue vazar. As balas de revólver fazem orifícios e as facas também podem fazer orifícios. Se o seu sangue vaza, chega uma hora que o coração ou o fígado param de funcionar. Ou o cérebro também. E você morre. Outro jeito de fazer cadáveres é com os cortes, que também são feitos com as facas ou com facões e guilhotinas. Os cortes podem ser pequenos ou grandes. Se são grandes, separam partes do corpo e fazem cadáveres em pedacinhos. O mais normal é cortar a cabeça, mas na verdade você pode cortar qualquer parte. É por culpa do pescoço. Se a gente não tivesse pescoço seria diferente. Podia ser que o normal fosse cortar o corpo ao meio para ter dois cadáveres. Mas a gente tem pescoço, e essa é uma tentação muito grande. Principalmente para os franceses.

*

"Festa no Covil"
Autor: Juan Pablo Villalobos
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 96
Quanto: R$ 24,50 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

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