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16/05/2012 - 11h30

Leia trecho de 'Freud, Me Tira Dessa!'

da Livraria da Folha

Escrito por Laura Conrado, "Freud, Me Tira Dessa!" mistura experiências pessoais e diversos casos femininos para contar a tragicômica história de Catarina, uma jovem de 20 e poucos anos que enfrenta os desafios da vida adulta e acaba se apaixonando pelo terapeuta.

Autora confessa paixonite por terapeuta
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Abaixo, leia um trecho do exemplar.

*

CAPÍTULO 1

"Estou no começo do meu desespero, e só vejo dois caminhos: ou viro doida, ou santa."
Adélia Prado

Divulgação
Personagem recorre a Freud para entender a paixão que sente pelo terapeuta
Personagem recorre a Freud para entender a paixão pelo terapeuta

Sem olhar para trás. Era assim que eu tentava sair daquele maldito encontro. Acabava de levar um fora e fazia de tudo para esconder meu choro. Naquela altura, as lágrimas borravam minha maquiagem e levavam todo o rímel que tinha nos cílios. Eu devia estar igual a um panda. Sentia vergonha das pessoas que passavam na rua e me viam esperar um táxi sozinha, com aquela cara de menina rejeitada.

Eu tinha esperado a semana inteira para estar com Rubens. No trajeto da minha casa até o restaurante, ele estava normal. As bebidas mal tinham chegado quando ele soltou, de uma vez, que estava gostando de outra pessoa.

Ele estava tão seguro na fala que nem tentei jogar charme ou começar com o papo de "despedida". Não quis saber quem era a outra. Mas queria muito saber como ela tinha cativado o Rubens. O que ele viu nela que não viu em mim? Por que ela estava sendo escolhida e não eu? Por que, quase sempre, os caras com quem me envolvia sempre ficavam com as outras? Mas, claro, eu nunca perguntaria em voz alta.

Tentei manter a classe e o mínimo de controle. Ele disse que poderíamos ser amigos. E eu queria quebrar o copo na cabeça dele. Mas falei que sim, claro. Querendo me ver livre daquela situação, sem demonstrar estar um caco por dentro, disse que, possivelmente, iria encontrar com algumas amigas, já que era sexta-feira. Idiotice. Não adiantaria fazer pose. Ele simplesmente não me queria. Desejei boa sorte e me levantei. Foi quando desceu a primeira lágrima. E não parou de descer tão cedo.

- Para de chorar, Catarina! Espera chegar em casa! - eu tentava, em voz baixa, dar ordens a mim mesma.

Rubens era alto, tinha os braços fortes, os olhos bem pretos e dentes lindos. Eu era fascinada por dentes. Adorava um sorriso certinho. Trabalhávamos no mesmo lugar, razão pela qual optei por manter nosso caso em segredo. Eu tinha alguns meses na empresa quando ele puxou assunto comigo no estacionamento. Estava chovendo e ele abriu um guarda-chuva, oferecendo-se para me levar até meu carro. Aceitei preocupada com o estado que meu cabelo ficaria depois de tomar chuva. Na verdade, eu estava indo me encontrar com um antigo paquera, o Daniel, mas o cara acabou voltando para a ex-namorada. Eu devia ter previsto. Dois anos e meio de namoro, cinco semanas de término. O cara tem dois caminhos: ou vira pegador, ou volta para a ex. Eu, aliás, era um excelente agente catalisador de retomadas. Era como se ficar comigo fosse o necessário para o cara ver que amava mesmo a outra. E eu era, no máximo, uma das melhores pessoas que eles haviam conhecido, adoravam minha companhia, desejavam o melhor do mundo para mim e antecipavam a sorte da pessoa que, um dia, estaria comigo. Ainda assim, voltavam ou encontravam outras. Eu vivia num looping.

Comecei a reparar no Rubens quando ele passou a mão na minha cintura, puxando-me para perto, a fim de que coubéssemos debaixo do guarda-chuva. Que mão forte! Eu também adorava mãos de homens. Dentes e mãos. Braços. Pegada. E ah... Isso ele tinha! Depois que meu caso com Daniel desandou, comecei a prestar mais atenção em Rubens, que tinha começado a me rodear. Como uma boa pegada sempre faz bem ao ego, acabei cedendo à tentação de sair com alguém do trabalho.

A empresa em que trabalhávamos era uma multinacional bem conhecida e com centenas de funcionários. Rubens tinha 28 anos e estava terminando a faculdade naquela época. Ingressou bem jovem na empresa, em uma função simples, e foi crescendo. Era assistente de um dos diretores da produção. Tinha disposição para todo tipo de esforço físico,
entendia da fiação do meu apê, de montar móveis e reconhecia todos os barulhos do meu carro. Não tinha lido muitos livros, tinha preferência por filmes de carros, competições, briga de rua, explosão e pessoas voando. E atuava muito bem nas cenas de pegada.

Eu tinha me formado em Administração, estava para completar 23 anos, tinha minha pequena mas própria biblioteca e estudava para tirar meu certificado de inglês, preparando- me para alguma coisa fora do país - que eu ainda não sabia o que era. Entre minhas preocupações, estavam pagar minhas contas em dia, juntar grana e acordar cedo sem pedir ao porteiro para me interfonar. Estava morando sozinha pela primeira vez, o que era motivo de alegria para mim. Arrumar um namorado também estava entre as minhas metas, mas isso eu não confessava. E eu tentava, como tentava! Estava sempre aberta a conhecer alguém. Sempre emendava um caso no outro. Minhas intenções eram as melhores. Entretanto, eu só sobrava. Passava uns dias e lá estava eu com outro rolo. Mas namorar mesmo, nada. E isso me incomodava: eu já estava com quase 23 anos e com namoros de seis meses, no máximo. Também pudera, só encontrava tranqueira no caminho. Estava saindo com Rubens há quase dois meses. Não estava apaixonada, mas também não fazia ideia de que o fora fosse me doer tanto. Dentro do táxi, justificava a mim mesma que devia estar abalada daquele jeito por estar sozinha em Belo Horizonte. Minha família morava em Divinópolis, interior de Minas Gerais. Mudei em razão do emprego que havia conseguido.

Eu nem acreditava que morava sozinha, tinha um emprego de verdade e um carro na garagem. Claro, com prestações a vencer e aluguel e condomínio para pagar. Adorava BH, cidade em que tinha nascido, mas de onde saí ainda pequena. Meu pai, Camilo, tinha sido aprovado num concurso público e fomos todos para lá: minha mãe Virgínia, meu irmão Lucas e Amanda, minha irmã caçula. Lucas se formou em Engenharia de Produção e estudava nos Estados Unidos. Amanda, um ano mais nova do que eu, ainda morava com meus pais.

Para meu alívio, logo cheguei à minha casa. Doeu concluir que passaria a noite sozinha e que não teria o fim de semana que eu havia planejado. Também doeu tirar o resto da maquiagem e o vestido cuidadosamente escolhido. Tanta expectativa por nada. Cortava-me o coração lembrar que durante a semana não teria e-mails desejando-me boa tarde e que não teria que despistar risinhos e trocas de olhares nos corredores da empresa. E que não teria aquela companhia boa e alguém para conversar sobre os problemas do trabalho sem ter de ficar explicando quem é quem.

"Por que você se empolgou, sua idiota?", dizia a mim mesma. "Tudo sempre acaba do mesmo jeito!"

E lá ia o Muro das Lamentações. Aliás, eu tinha virado o próprio Muro, cujas fendas estavam repletas da minha amargura, tristeza e ódio do mundo. Imagens de casais apaixonados saltavam da televisão. Todas as pessoas felizes do mundo saíram para fazer compras no mesmo horário que eu. Mulheres lindas, bem-vestidas e com cabelos que pareciam ter passado pela escova progressiva na barriga mãe cruzavam meu caminho. E me martirizava com os pensamentos "será que é ela a namorada do Rubens?". Ficava imaginando uma mulher linda, magra, alta e bem-vestida. Eu me sentia a feia mais medonha do mundo.

Queria, pelo menos, ter dinheiro para torrar. Comprar coisas boas, comer em lugares caros, sair para qualquer lugar ou viajar. No entanto, a vida de recém-formada era dureza. Além de ter que viver provando competência no trabalho, o salário ainda não era grande coisa. Sem falar que eu não tinha mais a mamata de morar com meus pais. Eu pagava a luz, água, moradia, comida, celular, internet... Meus pais me ajudaram muito dividindo as prestações do carro comigo e me dando alguns móveis para montar meu apê. Mas como eu queria ter mais! Preferia chorar num apartamento de luxo com roupas de revistas do que na minha caixinha de fósforo e no meu carro com inúmeras prestações a vencer.

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" Freud, Me Tira Dessa!"
Autor: Laura Conrado
Editora: Novo Século
Páginas: 104
Quanto: R$ 25,50 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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