Saltar para o conteúdo principal
 
06/09/2012 - 13h30

Leia trecho de 'Carcereiros', novo livro de Drauzio Varella

da Livraria da Folha

Divulgação
Drauzio Varella apresenta a versão dos carcereiros sobre a vida na cadeia
Varella apresenta a versão dos carcereiros sobre a vida na cadeia

Com lançamento previsto para o dia 1º de outubro, "Carcereiros" dá sequência ao livro "Estação Carandiru", publicado em 1999.

PCC agora mata no 'varejo'; ouça repórter policial
Siga a Livraria da Folha no Twitter
Conheça nossa página no Facebook
Leia trecho de "Folha Explica: Violência Urbana"

Em "Estação Carandiru" a história foi contada pelo ponto de vista da população carcerária. Agora, Drauzio Varella narra a vida prisional fundamentado em depoimentos de agentes penitenciários.

A experiência de Varella como médico no Carandiru o permitiu compor um relato sobre os códigos de comportamento, os problemas e o cotidiano da Casa de Detenção de São Paulo, um mundo quase desconhecido do público.

Abaixo, leia um trecho do exemplar.

*

Um dia trágico

Seu Araújo tem o andar, o ritmo da fala e a sabedoria de negro velho dos terreiros de candomblé. Somos amigos há mais de vinte anos, mas ainda fico em dúvida se o ar simplório lhe é natural ou se ele o cultiva com requinte profissional para esconder a sagacidade com que observa o ambiente e o interlocutor.

Às sete da manhã do dia 2 de outubro de 1992, olhou as plantas no corredor, regou dois vasos de avenca e saiu de casa, como de rotina. Pegou o metrô na estação Tatuapé, desceu na Sé e fez a conexão para Santana. Dez para as oito entrava para ocupar o posto de chefe titular substituto do pavilhão Oito da Casa de Detenção, conhecida popularmente como Carandiru. Quando seu Araújo passou pela Portaria, um colega baixo e entroncado, com a barba por fazer, tomou o cuidado de avisá-lo:

- Está havendo um probleminha no pavilhão Nove. Fica esperto.

Como no pavilhão Oito a situação era de normalidade, no meio da manhã, acompanhado de três colegas, ele atravessou o portão que separava os dois pavilhões, para ajudar os companheiros de plantão no Nove a solucionar o tal probleminha. O clima estava tão carregado que lhe veio um presságio:

- Ou muito me engano ou a cadeia vai virar.

De fato, virou. No começo da tarde os presos tomaram o pavilhão Nove, depredaram as dependências da Administração e levantaram barricadas atrás da porta de entrada. Por sorte, os funcionários de plantão conseguiram escapar, o que nem sempre é possível nessas eventualidades.

Estava armado o cenário para a maior tragédia coletiva da história dos presídios brasileiros: o massacre do pavilhão Nove.

No Oito, seu Araújo chamou os doze funcionários desarmados que se achavam de serviço para vigiar 1756 condenados reincidentes, naquela hora do dia espalhados pelo pátio interno e pelo campo de futebol, situado entre o prédio do pavilhão e as muralhas.

Uma vez que o Oito era vizinho de parede do Nove, na parte do fundo da cadeia, dele separado apenas por um muro e um pequeno portão de ferro maciço, o grupo concluiu que seria mais prudente recolher os homens do campo para melhor controlá-los, porque, se os reincidentes aderissem, a rebelião se espalharia pelo presídio inteiro, como já havia acontecido em outra ocasião.

A empreitada, no entanto, não era trivial:

- Porque numa situação dessas o sentenciado fica cheio de medo de perder a vida. E nós, funcionários, também.

Sem aparentar pressa, foram explicando às rodinhas formadas no campo que eles nada tinham a ver com os problemas alheios, que seria mais sensato irem para o pátio interno do pavilhão porque o pelotão do Choque já estava no presídio e os PMS poderiam vir para cima deles, atrás dos desafetos que lhes causavam tantos dissabores nas ruas, como era hábito sempre que invadiam a Detenção. Era melhor não oferecer pretexto a eles.

Com dificuldade, por volta das duas da tarde conseguiram reunir todos no pátio interno. Quando começou o fogo nos colchões e nos móveis do Nove, seu Araújo chamou os funcionários mais experientes na salinha da chefia do pavilhão:

- Eram Osmar, Osvaldo, Silvão, Jeremias e eu. Não adiantava chamar os demais, porque eram novatos no trabalho. Ficamos apreensivos e resolvemos pedir encarecidamente aos sentenciados que subissem para as galerias, de modo que a gente pudesse trancar a gaiola de entrada do térreo.

Osmar era na verdade o chefe titular do Oito, substituído por Araújo durante as férias que só terminariam na segunda-feira seguinte. Naquela sexta, seu último dia de folga, resolveu dar um pulo no pavilhão para inteirar-se do que havia acontecido em sua ausência:

- Era meu sistema: na véspera de acabar as férias, dava uma passada na cadeia para não chegar perdido no primeiro dia. Em três ou quatro semanas corre muita água embaixo da ponte.

Com os argumentos de que a situação no pavilhão vizinho se deteriorava e que serviriam de alvo fácil para os tiros dos PMs na muralha caso permanecessem expostos no pátio, foi possível convencê-los a subir para os andares do Oito.

Soltos nos andares, os presos tomaram a providência característica dos momentos de crise: desentocaram as facas. Nessas oportunidades costumam armar-se, menos para agredir os policiais que invadem a cadeia com cães e metralhadoras - a luta seria desigual - do que para fazer frente a eventuais ataques desfechados por inimigos internos que porventura se aproveitem da confusão.

Os cinco funcionários fizeram nova reunião na salinha. Osmar teve a ideia:

- Araújo, é o seguinte: você, eu, o Osvaldo e o Silvão subimos para os andares. O Jeremias monta guarda no portão que dá para o Nove; os outros ficam aqui na sala da chefia, porque eles têm pouco conhecimento com a malandragem. Vamos tentar trancar todo mundo: é a única saída. Se a polícia entrar, vai morrer muita gente, inclusive nós. No tropel, eles não vão perguntar quem é quem.

A intenção era manter cada homem em sua cela para não desafiar os militares. Que justificativa haveria para invadir um pavilhão em paz?

A estratégia fazia sentido, mas como convencer, um por um, quase 2 mil presidiários assustados que formavam grupos nervosos pelas galerias?

Não se sabe de quem veio a proposição mais razoável: trancar os presos mas deixar o molho de chaves com os líderes da Faxina que ocupavam um dos xadrezes logo na entrada de cada andar, para que destrancassem os demais se assim decidissem. De hora em hora, um dos funcionários passaria pelas galerias para colocar todos a par dos acontecimentos.

Seu Araújo subiu para o quinto andar, o mais problemático da cadeia inteira. Quando chegou na gaiola de entrada, os homens estavam encapuzados e ameaçadores, com as facas na mão.

- Eram mais de cem facas, uma mais brilhante que a outra. Eu pensei: ô meu Deus, me ajude nessa situação, e entrei para dentro da gaiola: "Vamos conversar, gente boa. Vamos trocar uma ideia. É melhor trancar todo mundo para evitar que o Choque caia para dentro".

Os presos discordaram; um deles gritou mais alto:

- Pessoal, não vamos entrar nessa. Vão trancar nós e abandonar o pavilhão nas mãos do Choque. Vamos morrer feito frango empoleirado no galinheiro.

Naquele estado de ânimo, todos falavam ao mesmo tempo. Rodeado pelas facas, algumas das quais perigosamente próximas, seu Araújo insistia que podiam confiar, ele e os colegas já tinham passado o cadeado no portão de acesso ao Nove, e ali montariam
guarda permanente, decididos a barrar a entrada da PM.

Não havia líderes com quem negociar; o vozerio era ensurdecedor. Os argumentos pareciam não demover os homens do intento de permanecer soltos nas galerias, para intimidar os militares e eventualmente resistir a eles. Se tivessem que morrer, seria lutando, vociferavam os mais exibidos. Com os olhos esbugalhados pela cocaína, alguns ameaçavam matar seu Araújo se insistisse em trancá-los; chegavam a encostar as facas em seu peito.

Cercado pelas armas naquele tumulto de homens mascarados, o carcereiro sentiu que tudo podia acontecer, bastava que o mais afoito desfechasse o primeiro golpe. Pela primeira vez na carreira, achou que podia acabar numa poça de sangue na galeria.

Inesperadamente, Cidão, um bandido de longa folha corrida muito respeitado pelos pares, que fazia consertos nas instalações elétricas do pavilhão, subiu numa cadeira:

- Vamos fazer o que ele acha melhor, tem chance de dar certo. Estou aqui há muitos anos e nunca vi esse homem faltar com a palavra.

O mais agressivo do grupo contrário à medida ameaçou:

- Se acorrer do senhor trancar nós e abandonar o pavilhão, nenhum dos funça de plantão no dia de hoje vai viver na rua.

Enquanto os últimos recalcitrantes entravam, seu Araújo começou a trancar as portas com o molho de chaves. Quando a tarefa ia pela metade, Silvão chegou para ajudá-lo. Ele, Osmar e Osvaldo já tinham conseguido fechar as celas dos andares inferiores. Jeremias vigiava o portão com o cadeado.

Mal haviam terminado o trabalho, ouviram-se os primeiros tiros no pavilhão vizinho. A noite começava a cair. Osmar ficou surpreso:

- Invadir o Nove no escuro! Os cara perderam a cabeça, mano

Os funcionários honraram a palavra: a cada hora um deles subia para avisar de cela em cela que, apesar do tiroteio ao lado, estava tudo em calma no Oito, mas que não ousassem espiar pelas janelas para não correr o risco de levar um tiro na cabeça.

Em rodízio, um deles permanecia de prontidão o tempo todo no portão que os separava do Nove, providência que se mostrou de grande valia, porque diversas vezes os PMs foram convencidos a não entrar, sob a alegação inquestionável de que não havia razão para invadir um pavilhão em paz.

Por volta das oito da noite, as balas silenciaram. Duas horas mais tarde, caiu uma chuva torrencial. Quando deu meia-noite, Osmar e ele decidiram ir à rua:

- Era uma confusão de PM entrando e saindo com gente ferida; dezenas de corpos a caminho do necrotério. Falei para o Osmar: "Já imaginou se tivessem entrado no Oito?".
Estavam em jejum, mas não tinham fome nem sono:

- Fomos até o bar do China e tomamos duas cachaças cada um, para clarear a mente.

Com a mente clareada, reassumiram seus postos até a manhã seguinte. Era dia de eleição, foram votar e retornaram para ajudar os companheiros no rescaldo da tragédia. Seu Araújo nunca mais esqueceu o que viu:

- Vi sangue ser puxado com rodo na galeria.

*

"Carcereiros"
Autor: Drauzio Varella
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 232
Quanto: R$ 27 (preço promocional de pré-venda*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
Voltar ao topo da página