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14/09/2012 - 16h00

Leia trecho de 'Os Sentidos do Lulismo'

da Livraria da Folha

Divulgação
André Singer analisa as relações de classe e poder no Brasil
André Singer analisa as relações de classe e poder no Brasil

"Os Sentidos do Lulismo" apresenta o exame do realinhamento eleitoral do Partido dos Trabalhadores (PT). Segundo o autor, André Singer, houve uma mudança na classe econômica que, por algum tempo, optou pela esquerda após a redemocratização.

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Enquanto a classe média se afastou de Lula e do PT, principalmente em decorrência das denúncias de corrupção, uma massa de pessoas que permaneciam excluídas das relações de consumo e trabalho passaram a apoiar os petistas. O livro apresenta uma versão sobre a raiz desse apoio popular.

Singer, jornalista e cientista político, também assina "Folha Explica: O PT" e "Esquerda e Direita no Eleitorado Brasileiro". Abaixo, leia um trecho de "Os Sentidos do Lulismo: Reforma Gradual e Pacto Conservador".

*

Introdução

Alguns temas da questão setentrional

Afirmam os que o camponês meridional está ligado ao grande
proprietário rural por meio do intelectual. Este tipo de organização
é o mais difundido em todo o Mezzogiorno e na Sicília. Forma
um monstruoso bloco agrário que no seu conjunto funciona
como intermediário e guardião do capitalismo setentrional e dos
grandes bancos. Seu único objetivo é conservar o status quo.
Antonio Gramsci, Alguns temas da questão meridional

O lulismo existe sob o signo da contradição. Conservação e mudança, reprodução e superação, decepção e esperança num mesmo movimento. É o caráter ambíguo do fenômeno que torna difícil a sua interpretação. No entanto, é preciso arriscar os sentidos, as resultantes das forças em jogo, se desejamos avançar a compreensão do período. Faço a minha aposta principal em forma de pergunta, pois o processo ainda está em curso: a inesperada trajetória do lulismo incidirá sobre contradições centrais do capitalismo brasileiro, abrindo caminho para colocá-las em patamar superior?

Para tentar uma resposta, é necessário refazer os passos históricos e descer aos detalhes materiais e ideológicos que os sustentaram. Na aparência, tendo vencido a eleição de 2002 envolto ainda por restos da aura do movimento operário dos anos 1980, o ex-metalúrgico apenas manteve a ordem neoliberal estabelecida nos mandatos de Collor e FHC. Decidido a evitar o confronto com o capital, Lula adotou política econômica conservadora. Nos dois primeiros meses de 2003, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) aumentou os juros de 25% para 26,5%. De modo a pagar a dívida contraída com essa elevação, o Executivo subiu a meta de superávit primário de 3,75% em 2002, já considerada alta, para 4,25% do PIB (Produto Interno Bruto) e anunciou em fevereiro enorme corte, de 14,3 bilhões de reais, no orçamento público, quase 1% do produto estimado para aquele ano. O poder de compra do salário mínimo foi praticamente congelado em 2003 e 2004. Para completar o pacote, em 30 de abril de 2003 o presidente desceu a rampa do Planalto à frente de extensa comitiva para entregar pessoalmente ao Congresso projeto com reforma conservadora da Previdência Social. Entre outras coisas, a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) 40 acabava com a aposentadoria integral dos futuros servidores públicos.

O efeito das decisões foi o esperado. O crescimento caiu de 2,7% nos últimos doze meses de Fernando Henrique Cardoso para 1,3% do PIB nos primeiros doze do PT. O desemprego aumentou, passando de 10,5% no derradeiro dezembro tucano para 10,9% no primeiro dezembro petista (2003). A renda média do trabalhador caiu 12,3%. As instituições financeiras tiveram um resultado 6,3% maior. Compreende-se, portanto, que na conclusão de O ornitorrinco, datada de julho de 2003, o sociólogo Francisco de Oliveira tenha afirmado que o Brasil era "uma acumulação truncada e uma sociedade desigualitária sem remissão".

Entretanto, passados oito anos, o cenário era outro. Em dezembro de 2010 os juros tinham caído para 10,75% ao ano, com taxa real de 4,5%. O superávit primário fora reduzido para 2,8% do PIB e, "descontando efeitos contábeis", para 1,2%. O salário mínimo, aumentado em 6% acima da inflação naquele ano, totalizava 50% de acréscimo, além dos reajustes inflacionários, entre 2003 e 2010. Cerca de 12 milhões de famílias de baixíssima renda recebiam um auxílio entre 22 e duzentos reais por mês do Programa Bolsa Família (PBF). O crédito havia se expandido de 25% para 45% do PIB, permitindo o aumento do padrão de consumo dos estratos menos favorecidos, em particular mediante o crédito consignado.

As consequências dessas medidas, voltadas para reduzir a pobreza, ativando o mercado interno, foram igualmente lógicas. O crescimento do PIB, em 2010, pulou para 7,5%. O desemprego, em dezembro, havia caído para 5,3%, taxa considerada pelos economistas próxima ao pleno emprego. O índice de Gini, que mede a desigualdade de renda, foi de 0,5886 em 2002 para 0,5304 em 2010. Entrevistada em novembro de 2010, a economista de origem portuguesa Maria da Conceição Tavares afirmava: "Eu estou lutando pela igualdade desde que aqui cheguei [1954]. E só agora é que eu acho que estamos no rumo certo". Um ano antes, Conceição assinalava que o governo Lula estava "tocando três coisas importantes: crescimento, distribuição de renda e incorporação social".

O que teria acontecido nos dois quadriênios em que Lula orientou o Brasil? Confirmou-se o truncamento da acumulação e a desigualdade "sem remissão", previstos por Oliveira, ou se entrou em fase de desenvolvimento com distribuição de renda, observada por Tavares? O país teria dado seguimento à vocação conservadora, que afogara, no passado, as possibilidades de desenvolvimento democrático, ou estariam certas as avaliações de que a aceleração do crescimento e a redução da desigualdade inauguravam etapa distinta? E, caso estivessem corretas as perspectivas otimistas, como teria sido possível destravar a economia e reduzir a iniquidade sem radicalização política, numa transição quase imperceptível do viés supostamente neoliberal do primeiro mandato para o reformismo do segundo?

Este livro não tem a pretensão de dar respostas definitivas a essas perguntas, mas procura oferecer um esquema interpretativo com base no qual elas podem ser equacionadas. Em resumo, o esquema proposto tem o seguinte roteiro. Teria havido, a partir de 2003, uma orientação que permitiu, contando com a mudança da conjuntura econômica internacional, a adoção de políticas para reduzir a pobreza - com destaque para o combate à miséria - e para a ativação do mercado interno, sem confronto com o capital. Isso teria produzido, em associação com a crise do "mensalão", um realinhamento eleitoral que se cristaliza em 2006, surgindo o lulismo. O aparecimento de uma base lulista, por sua vez, proporcionou ao presidente maior margem de manobra no segundo mandato, possibilitando acelerar a implantação do modelo "diminuição da pobreza com manutenção da ordem" esboçado no primeiro quadriênio.

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"Os Sentidos do Lulismo: Reforma Gradual e Pacto Conservador"
Autor: André Singer
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 280
Quanto: R$ 24,50 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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