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20/09/2012 - 10h30

Elegância é confundida com pura superficialidade, diz psicanalista

da Livraria da Folha

Normalmente simplificada como uma maneira de saber se vestir ou se comportar à mesa, segundo a psicanalista Eleonora Rosset a elegância não é futilidade. "Trata-se de um equívoco desastroso, que coloca a pessoa que assim pensa fora de prumo, afastada de uma delicadeza natural, sem acesso à amabilidade necessária à convivência humana", escreve Rosset na apresentação de "Cultura e Elegância".

"A proposta central do livro, portanto, é a de que uma pessoa elegante interessa-se necessariamente por cultura", afirma. "Um homem ou uma mulher elegante quer --e precisa-- saber o que se passa no mundo das artes, da literatura, da música, dos espetáculos, das viagens, da gastronomia."

Divulgação
Livro traz dicas sobre livros, músicas, filmes e peças de teatro
Livro traz dicas sobre livros, músicas, filmes e peças de teatro

"Cultura e Elegância" traz alguns especialistas --escritores, maestros, críticos de arte, viajantes profissionais, professores, consultores-- para indicar os primeiros passos sobre os principais temas culturais.

Na edição, o leitor encontra dicas sobre livros, informações sobre a música clássica, o jazz e a MPB e opiniões sobre filmes, teatro, obras de arte e espetáculos de dança.

Organizado por Jaime Pinsky, historiador que também assina "Turismo e Patrimônio Cultural", "Ensino de História e a Criação do Fato" e "100 Textos de Histórias Antiga" o livro foi publicado originalmente em 2005, e ganha nova edição neste ano.

Os textos são de Alberto Guzik, André Domingues, Carlos Calado, Célia Leão, Dalal Achcar, Daniel Piza, Eleonora Rosset, João Braga, Julio Medaglia, Luciano Ramos, Luiz Gonzaga Godoi Trigo, Mara Salles, Marialice Pedroso e Moacyr Scliar.

Abaixo, leia trecho do capítulo escrito por Scliar.

*

Ficção

Acontece da maneira mais inesperada. Você está num bar, conversando com amigos, num jantar com familiares, no vestiário do clube, e de repente pessoas começam a falar sobre os livros que já leram. E aí você se dá conta de que é como se morasse em um outro planeta: você não sabe absolutamente nada do que eles estão falando.

Isso, é lógico, lhe deixa muito chateado. Você, como milhões ou bilhões de outros, criou-se acreditando que a palavra escrita é coisa fundamental. E, de fato, é. Para começar, muitas religiões têm em livros sagrados o seu referencial mais importante: a Torá para o judaísmo, o Novo Testamento para o cristianismo, o Corão para o islamismo. O livro sagrado é, para seus leitores, uma fonte de inspiração, um guia ético.

Mas a gente lê também por outras razões. Sobretudo quando se trata de ficção. Lemos porque gostamos de histórias: é algo embutido em nosso genoma. Todo pai ou toda mãe sabe que as crianças protestam quando, à noite, são mandadas para a cama; e todo pai ou toda mãe sabe que há uma maneira irresistível de convencer o filho ou a filha a fazê-lo: contando ou lendo uma história.

Ouvir histórias ajuda a criança a vencer a ansiedade inevitável que surge quando ela abandona o convívio da família e penetra no misterioso mundo dos sonhos (ou dos pesadelos). É a mesma ansiedade que explica também a origem dos mitos, aquelas narrativas fantasiosas que, nas culturas ditas primitivas, procuravam dar conta dos porquês dos fenômenos da natureza, do surgimento do universo. Uma ansiedade que explica ainda as lendas que passam de geração em geração e que serviram de base para as grandes obras. É delas, as grandes obras, que queremos falar.

Mas, por onde devemos começar?

O melhor é começar... do começo. Isto é, dos clássicos.

Entre os grandes clássicos da literatura universal, é imprescindível citar Odisseia, de Homero, poeta grego sobre o qual não sabemos muito e que é também o presumível autor de Ilíada. Esses dois poemas épicos foram escritos por volta de 750 a.c. e falam-nos da Guerra de Troia, travada entre gregos e troianos. Tudo começa, segundo Homero, quando Helena, a bela esposa do rei grego Menelau, é sequestrada e levada para Troia por Páris, filho de Príamo, rei troiano. Menelau, como é fácil imaginar, ficou furioso e mobilizou um exército, pedindo auxílio a seu irmão, Agamenon, e aos amigos Aquiles e Ulisses. Muitas aventuras acontecerão a partir daí - o episódio do cavalo de Troia é um dos mais famosos. Enquanto Ilíada fala sobretudo da guerra, de Aquiles e do herói troiano Heitor, Odisseia descreve as aventuras de Ulisses voltando para casa.

"Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer."
Italo Calvino

Dissemos que não sabemos muito sobre Homero, o autor de Ilíada e de Odisseia. É verdade. Homero é uma figura um tanto quanto misteriosa. É que, no passado, o autor de uma história não tinha tanta importância assim. À medida que surgiu a modernidade, isso mudou radicalmente. Primeiro porque, na modernidade, houve uma afirmação do indivíduo - a palavra "eu" passou a ser importante. Depois porque, com a invenção da imprensa, o livro virou um produto vendável. E é aí que surgiu o autor. Os temas já não eram apenas a religião ou as aventuras épicas, descritas como se fossem verdadeiras. Com a modernidade, admitiu-se também a ficção. E o grande gênero para a ficção será o romance, escrito nas línguas derivadas do latim, as chamadas línguas "românicas", como o francês, o italiano e o português. Daí vem o nome "romance".

O romance tem origem em vários gêneros da Idade Média, entre eles as histórias de cavalaria, protagonizadas por aquelas figuras de armadura, escudo e lança, que, com o advento dos tempos modernos, tornaram-se figuras caricaturais. O primeiro grande romance da modernidade (o livro completou quatrocentos anos em 2005) é Dom Quixote, do espanhol Miguel de Cervantes. Livro concebido apenas como uma sátira das novelas de cavalaria, mas que se tornou uma obra-prima da literatura universal.

Cervantes, a propósito, teve uma vida cheia de aventuras. Nascido em uma Espanha que era a nação mais rica e poderosa da Europa, vinha de uma família nobre, mas empobrecida: o pai fora preso por dívidas. Cervantes entrou no exército e participou na batalha de Lepanto contra os turcos, onde foi ferido na perna e ficou com a mão esquerda paralisada. Depois, foi capturado por piratas turcos e só libertado após cinco anos de cativeiro.

Apesar de todas essas desventuras, Dom Quixote é um livro cômico; mas é também um retrato da condição humana, tanto que "quixotesco" tornou-se um adjetivo incorporado ao nosso vocabulário como sinônimo de "sonhador", aquele que é "generosamente impulsivo, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade", segundo nos explica o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa.

Dom Quixote é um anti-herói, enfrentando os gigantes imaginários que vê nos moinhos de vento. Já Robinson Crusoé (1719), do inglês Daniel Defoe, marinheiro náufrago, encontra perigos reais e mostra qual é a primeira regra da modernidade: "Vire-se". Aliás, viagens marítimas seriam o ponto de partida para muitos livros, inclusive satíricos, como é o caso de As viagens de Gulliver (1726), do irlandês Jonathan Swift, que conta as fantásticas viagens do médico naval Lemuel Gulliver. Na primeira viagem, a mais famosa delas, nosso herói naufraga em Lilliput, uma terra cujos habitantes são bem pequeninos, o que faz de Gulliver um gigante e faria do termo "liliputiano" mais um adjetivo que a literatura incorporaria ao vocabulário universal como sinônimo de alguém ou algo "extremamente pequeno" e, no sentido figurado, de quem tem "falta de grandeza", isto é, de quem é mesquinho.

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"Cultura e Elegância"
Organizador: Jaime Pinsky
Editora: Contexto
Páginas: 236
Quanto: R$ 26,30 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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