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18/01/2013 - 20h30

Van Gogh era obcecado por conto de Hans Christian Andersen

da Livraria da Folha

Na biografia "Van Gogh: A Vida", Steven Naifeh e Gregory White Smith dizem que o pintor holandês do século 19 tinha especial apreço pelo conto "História da Mãe", de Hans Christian Andersen (1805-1875). "Vincent conhecia o conto de cor e salteado em várias línguas, inclusive num inglês de sotaque carregado", contam.

O livro descreve a relação do artista com familiares e com Paul Gauguin (1848-1903) e a história de sua loucura e mutilação. A edição também traz notas bibliográficas e material iconográfico.

Os autores, Naifeh e White Smith, formaram-se em direito, mas se especializaram história da arte. Abaixo, leia um trecho.

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Divulgação
Artista fracassou nas tentativas de se fixar numa profissão "respeitável"
Artista fracassou nas tentativas de ter uma profissão "respeitável"

Entre os milhares de contos que Vincent van Gogh consumiu em toda uma vida de leitor incansável, um deles ocupava lugar especial em sua imaginação: "História da mãe", de Hans Christian Andersen. Sempre que estava com alguma criança, ele contava e recontava a triste história da mãe amorosa que prefere deixar o filho morrer a expô-lo ao risco de uma vida infeliz. Vincent conhecia o conto de cor e salteado em várias línguas, inclusive num inglês de sotaque carregado. Para ele, com uma vida tão cheia de infelicidade, sempre procurando a si mesmo na arte e na literatura, o conto de Andersen sobre o sinistro amor materno possuía um poder inigualável, e o fato de recontá-lo até a obsessão mostrava como eram também inigualáveis seus anseios e mágoas.

Anna, sua mãe, nunca entendeu o filho mais velho. As excentricidades de Vincent, mesmo quando pequeno, contrariavam sua visão de mundo profundamente convencional. A inteligência errante do filho desafiava o alcance limitado da percepção e curiosidade intelectual da mãe. Ele lhe parecia cheio de ideias estranhas e "sonhadoras"; ela lhe parecia tacanha e insensível. Quanto mais se passava o tempo, menos a mãe gostava do filho. A incompreensão deu lugar à impaciência; a impaciência, à vergonha; a vergonha, à raiva. Quando Vincent atingiu a idade adulta, ela já tinha praticamente perdido a esperança. Desprezava as pretensões religiosas e artísticas do filho como "vagabundagens sem futuro" e comparava sua vida errante a uma morte na família. Acusava-o de infligir deliberadamente "dor e sofrimento" aos pais. Descartava de modo sistemático todas as pinturas e desenhos que ele deixava em casa, como se fosse lixo (já tinha jogado fora quase todos os objetos de recordação de sua infância), e tratava sem muita consideração as obras que ele lhe deu depois.

Depois que ela morreu, entre seus pertences encontraram apenas algumas das cartas e obras de arte que Vincent tinha lhe enviado. Nos últimos anos de vida do filho (Anna sobreviveu dezessete anos a ele), eram cada vez mais raras as cartas da mãe e, quando ele ficou internado perto do final, ela nunca foi visitá-lo, apesar das frequentes viagens que fazia para ver outros parentes. Mesmo depois da morte dele, quando lhe veio a fama tardia, ela jamais lamentou ou retificou seu veredicto de que a arte de Vincent era "ridícula".

Vincent nunca entendeu a rejeição da mãe. Às vezes ele desabafava com raiva, dizendo que era uma mulher "de coração empedernido", "de um amor amargurado". Às vezes culpava a si mesmo por ser uma "pessoa meio estranha, meio cansativa... que só traz perdas e mágoas". Mas nunca deixou de tentar ganhar sua aprovação. No fim da vida, ele pintou o retrato dela (a partir de uma fotografia) e afixou um poema com a triste pergunta: "Quem é a donzela que meus espíritos buscam/ Entre a censura fria e a praga das calúnias?".

Anna Cornelia Carbentus se casou com o reverendo Theodorus van Gogh num dia de céu límpido, em maio de 1851, em Haia, sede da monarquia holandesa e, segundo um relato, "o lugar mais agradável do mundo". Cultivada com base no mangue que tinha uma mistura perfeita de areia e argila para o plantio de flores, Haia em maio era um verdadeiro paraíso: flores se abriam numa abundância incomparável na beira das estradas e nas margens dos canais, em parques e jardins, em balcões e varandas, em jardineiras nas janelas e vasos às portas, e até nas barcaças deslizando pelas águas. A constante umidade que emanava dos canais e lagos sob a sombra das árvores "parecia pintar todas as manhãs com um verde mais fresco e mais intenso", como escreveu um visitante encantado.

No dia das núpcias, a família de Anna espargiu pétalas pelo caminho dos recém-casados e enfeitou todos os pontos de parada do percurso com coroas de folhagens e flores. A noiva saiu da casa da família Carbentus na Prinsengracht até a Kloosterkerk, uma preciosidade do século XV que ficava numa avenida bordejada de tílias e cercada por residências suntuosas no coração monárquico da cidade. Sua carruagem percorreu ruas que faziam a inveja de um continente sujo: todas as vidraças recém-lavadas, todas as portas recém-pintadas ou envernizadas, todos os vasos de cobre polidos, em todas as entradas das casas, todas as lancetas de todos os campanários recém-folheadas a ouro. "Os próprios telhados parecem lavados diariamente", maravilhou-se um estrangeiro, e as ruas eram "tão limpas como o assoalho de uma sala". Um lugar assim, escreveu outro visitante, "é capaz de despertar a inveja de todos pela felicidade de seus moradores".

A vida de Anna Carbentus foi moldada pela gratidão por dias idílicos como esses, em lugares idílicos como esse - e pelo medo de que pudessem desaparecer de uma hora para outra. Ela sabia que nem sempre tinha sido assim, nem para sua família, nem para seu país.

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"Van Gogh: A Vida"
Autor: Gregory White Smith e Steven Naifeh
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 1144
Quanto: R$ 67,50 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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