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10/09/2011 - 16h00

Fundadores da Al Qaeda foram endurecidos em campo de batalha

da Livraria da Folha

Após os atentados de 11 de setembro, Lawrence Wright, jornalista investigativo e colunista da revista "The New Yorker", procurou descobrir as origens e as motivações ideológicas da Al Qaeda, ou "A Base". A pesquisa, transcrita no livro "O Vulto das Torres", mostrou que, desde a sua fundação, mesmo contando com apenas 93 membros, a organização já apresentava qualidades letais.

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Atentados de 11 de setembro mergulhou o mundo em perplexidade
Atentados de 11 de setembro deixou o mundo perplexo

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"Os homens que compunham o grupo estavam bem treinados e endurecidos no campo de batalha. Pareciam dispor de amplos recursos. Além do mais, estavam fanaticamente empenhados em sua causa e convencidos de que sairiam vitoriosos. Haviam se reunido por uma filosofia tão irresistível que estavam dispostos --de bom grado-- a sacrificar a própria vida por ela. No processo, pretendiam matar o máximo de pessoas possível", conta Wright no prólogo do volume.

O estudo do autor --um trabalho que levou cinco anos e centenas de entrevistas no Oriente Médio, África, Europa e Estados Unidos--, esclareceu muitas dúvidas do Ocidente perplexo, um mundo que ignorou por décadas "meros fanáticos religiosos do deserto".

Leia um trecho do exemplar.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

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1. O MÁRTIR

Numa cabine de primeira classe de um navio de passageiros fazendo o trajeto de Alexandria, Egito, a Nova York, um escritor e educador frágil, de meia-idade, chamado Sayyid Qutb viveu uma crise de fé. "Devo ir para os Estados Unidos como qualquer estudante normal com uma bolsa de estudos, com que só se come e dorme, ou devo ser especial?", ele se perguntou. "Devo me ater às minhas crenças islâmicas, enfrentando as várias tentações pecaminosas, ou devo me entregar às tentações ao meu redor?" Era novembro de 1948. O novo mundo assomava no horizonte, vitorioso, rico e livre. O viajante deixara para trás o Egito, em frangalhos e lágrimas. Nunca saíra de seu país natal. Nem era de bom grado que o deixava agora.

O solteiro carrancudo era delgado e moreno, testa alta e inclinada e bigode semelhante a um pincel pouco mais estreito que a largura do nariz. Os olhos traíam uma natureza altiva que se ofendia facilmente. Ele sempre evocava um ar de formalidade, preferindo ternos escuros de três peças, apesar do sol abrasador do Egito. Para um homem tão zeloso de sua dignidade, a perspectiva de voltar à sala de aula aos 42 anos pode ter parecido aviltante. No entanto, tendo nascido numa aldeia cercada por muros de barro, no Alto Egito, já havia ultrapassado o modesto objetivo de tornar-se um funcionário público respeitável. As críticas literárias e sociais que escreveu fizeram dele um dos autores mais populares de seu país. Também despertaram a fúria do rei Faruk, o monarca dissoluto do Egito, que assinara uma ordem para a sua prisão. Amigos poderosos e solidários providenciaram sua partida.

Na época, Qutb ocupava um cargo confortável de supervisor no Ministério da Educação. Politicamente, era um nacionalista egípcio fervoroso e anticomunista, posição que o situava nas correntes predominantes da vasta classe média burocrática. As idéias que dariam origem ao que se denominaria fundamentalismo islâmico ainda não estavam completamente formadas em sua mente. Na verdade, ele mais tarde diria que nem mesmo era um homem muito religioso antes de começar aquela viagem, embora tivesse memorizado o Alcorão aos dez anos, e seus escritos haviam recentemente dado uma guinada para temas mais conservadores. Como muitos de seus compatriotas, foi levado a posições radicais pela ocupação britânica e odiava a cumplicidade do enfastiado rei Faruk. O Egito foi varrido por protestos antibritânicos, e facções políticas rebeladas estavam determinadas a expulsar as tropas estrangeiras do país - e talvez o rei também. O que tornava particularmente perigoso aquele desinteressante funcionário público de médio escalão eram seus comentários incisivos e potentes. Ele nunca chegara à linha de frente do cenário literário árabe contemporâneo, fato que o afligiu por toda a carreira. No entanto, do ponto de vista do governo, estava se tornando um inimigo irritantemente importante.

Ele era ocidental em alguns aspectos: os trajes, o gosto por música clássica e filmes de Hollywood. Havia lido, em traduções, as obras de Darwin e Einstein, Byron e Shelley, e mergulhara na literatura francesa, em especial Victor Hugo. Mas, mesmo antes da viagem, preocupava-se com o avanço de uma civilização ocidental dominadora. Apesar da erudição, via o Ocidente como uma única entidade cultural. As distinções entre capitalismo e marxismo, cristianismo e judaísmo, fascismo e democracia eram insignificantes em comparação com a única grande divisão na mente de Qutb: islã e Oriente de um lado, e Ocidente cristão de outro.

Os Estados Unidos, porém, mantinham-se afastados das aventuras coloniais que caracterizaram as relações da Europa com o mundo árabe. Ao final da Segunda Guerra Mundial, haviam superado a divisão política entre colonizadores e colonizados. De fato, era tentador imaginar os Estados Unidos como o paradigma anticolonial: uma nação subjugada que se libertara e sobrepujara, triunfante, os antigos senhores. O poder do país parecia residir em seus valores, e não em noções européias de superioridade cultural ou raças e classes privilegiadas. E, como se diziam uma nação de imigrantes, mantinham relações permeáveis com o resto do mundo. Os árabes, como a maioria dos outros povos, haviam criado suas próprias colônias dentro dos Estados Unidos, e laços de afinidade os aproximavam dos ideais que o país alegava defender.

Desse modo, Qutb, como muitos árabes, sentiu-se chocado e traído pelo apoio do governo americano à causa sionista após a guerra. Enquanto Qutb zarpava do porto de Alexandria, o Egito, com cinco outros exércitos árabes, estava nos estágios finais da derrota na guerra que criou Israel como um Estado judeu dentro do mundo árabe. Os árabes estavam aturdidos, não apenas pela determinação e habilidade dos combatentes israelenses, mas pela incompetência de suas próprias tropas e as decisões desastrosas de seus líderes. A vergonha daquela experiência moldaria o universo intelectual árabe mais profundamente do que qualquer outro evento na história moderna. "Odeio aqueles ocidentais e os desprezo!", escreveu Qutb depois que o presidente Harry Truman apoiou a transferência de 100 mil refugiados judeus para a Palestina. "Todos eles, sem exceção: os ingleses, os franceses, os holandeses e, finalmente, os americanos, em quem tantos confiaram."

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"O Vulto das Torres"
Autor: Lawrence Wright
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 504
Quanto: R$ 29,00 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

 
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