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18/05/2012 - 14h30

Leia trecho de 'Por que Não Sou Cristão'

da Livraria da Folha

Escrito pelo filósofo inglês Bertrand Russell, "Por que Não Sou Cristão", considerado um dos textos mais blasfemos história da filosofia, derruba as principais ideias e "evidencias" do cristianismo. Abaixo, leia um trecho do exemplar.

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Por que não sou cristão

Esta palestra foi proferida no dia 6 de março de 1927, na Prefeitura de Battersea, sob o patrocínio da divisão da zona sul de Londres da Sociedade Laica Nacional.

Divulgação
Russell coloca ao leitor questões que nunca mais poderão ser ignoradas
Coloca ao leitor questões que nunca mais poderão ser ignoradas

Como o presidente desta sociedade já lhes disse, o assunto sobre o qual falarei hoje à noite é "Por que não sou cristão". Talvez seja melhor, também, para começar, tentar definir o que quero dizer com a palavra "cristão". Ela é usada hoje em dia num sentido bastante vago, por um enorme número de pessoas. Algumas delas só a utilizam para descrever alguém que tenta viver bem. Nesse sentido, acredito que haveria cristãos em todas as seitas e credos; mas não creio que esse seja o sentido adequado da palavra, ainda que apenas por implicar que todas as pessoas que não são cristãs - todos os budistas, confucionistas, maometanos, e assim por diante - não tentam viver bem. Quando digo cristão, não quero dizer qualquer pessoa que tente viver de maneira decente de acordo com suas luzes. Penso que é preciso ter uma certa quantidade de crença definida antes que se adquira o direito de se autodenominar cristão. A palavra não tem um significado tão puro hoje quanto tinha na época de Santo Agostinho ou de São Tomás de Aquino. Naquele tempo, se um homem afirmasse ser cristão, já se sabia o que ele queria dizer: ele aceitava. Aceitava todo um conjunto de credos, definidos com muita precisão, e acreditava em cada sílaba daquilo com toda a força das suas convicções.

O QUE É UM CRISTÃO?

Hoje, a coisa não é bem assim. Quando falamos em cristianismo, precisamos ser um pouco mais vagos quanto a seu significado. Penso, no entanto, que existem dois itens distintos e bastante essenciais para quem se autodenomina cristão. O primeiro é de natureza dogmática - especificamente, que é necessário acreditar em Deus e na imortalidade. Se não acreditar nessas duas coisas, penso que ninguém poderá se autodenominar apropriadamente cristão. Mais do que isso, como o próprio nome implica, é necessário ter algum tipo de crença em relação a Cristo. Os maometanos, por exemplo, também acreditam em Deus e na imortalidade, e no entanto não se autodenominam cristãos. Penso que é necessário ter, no mínimo, a crença de que Cristo foi, se não divino, o melhor e mais sábio dos homens. Se uma pessoa não estiver disposta a acreditar nem nisso a respeito de Cristo, penso que não tem o direito de se autodenominar cristão. Claro que existe um outro sentido, que pode ser encontrado no Whitaker's Almanack e nos livros de geografia, nos quais está escrito que a população do mundo está dividida em cristãos, maometanos, budistas, fetichistas e assim por diante; nesse sentido, somos todos cristãos. Os livros de geografia nos incluem todos, mas em um sentido puramente geográfico, que, suponho, pode ser ignorado. Logo, presumo que, quando digo por que não sou cristão, devo dizer duas coisas distintas: primeiro, por que não acredito em Deus e na imortalidade; e, segundo, por que não penso que Cristo foi o melhor e mais sábio dos homens, apesar de atribuir a Ele um alto grau de excelência moral.

Mas, devido às iniciativas bem-sucedidas de descrentes no passado, eu não poderia assumir uma definição de cristianismo tão elástica assim. Como já disse, antigamente o sentido da palavra era muito mais puro. Por exemplo, deduzia a crença no inferno. A crença no fogo eterno do inferno era item essencial da crença cristã até pouquíssimo tempo atrás. Neste país, como vocês sabem, isso deixou de ser item essencial graças a uma decisão do Conselho Privado, e dessa decisão o arcebispo de Canterbury e o arcebispo de York discordaram; mas neste país a nossa religião é acertada por Leis Parlamentares, e portanto o Conselho Privado foi capaz de suplantar Vossas Graças e o inferno deixou de ser necessário aos cristãos. Em consequência, não devo insistir na obrigatoriedade da crença no inferno para ser um cristão.

A EXISTÊNCIA DE DEUS

Para abordar a questão da existência de Deus, que é uma questão ampla e séria, pedirei licença para tratar dela de maneira um tanto resumida - se eu fosse tentar abordá-la de qualquer maneira adequada, precisaria mantê-los aqui até o Final dos Tempos. Os senhores sabem, é claro, que a Igreja Católica definiu como dogma o fato de a existência de Deus poder ser provada pela razão espontânea. Esse é um dogma um tanto curioso, mas é um dos dogmas deles. Precisaram introduzi-lo porque, a certa altura, os livres-pensadores adotaram o hábito de dizer que existiam tais e tais argumentos por meio dos quais a pura e simples razão poderia concluir que Deus não existe, mas é claro que eles sabiam, por questão de fé, que Deus existe. Esses argumentos e razões foram expostos muito longamente, e a Igreja Católica sentiu a necessidade de dar um basta nisso. Assim, estabeleceram que a existência de Deus pode ser comprovada pela razão espontânea, e precisaram determinar o que consideravam argumentos para comprovar tal fato. Existem, é claro, diversos deles, mas abordarei apenas alguns.

O ARGUMENTO DA CAUSA PRIMORDIAL

Talvez o mais simples e mais fácil de entender seja o argumento da Causa Primordial. (Defende-se que tudo o
que vemos neste mundo tem uma causa e, à medida que retrocedermos cada vez mais na corrente de causas, chegaremos obrigatoriamente à Causa Primordial, e essa Causa Primordial recebe o nome de Deus.) Tal argumento, suponho, não tem muito peso nos dias de hoje, porque, em primeiro lugar, já não é mais o que era. Os filósofos e os homens de ciência têm estudado muito a causa, e ela já não tem nem de longe a vitalidade que tinha; mas, fora isso, dá para ver que o argumento de que obrigatoriamente existe uma Causa Primordial não pode ter nenhuma validade. Posso dizer que, quando eu era jovem e debatia essas questões com muita seriedade em minha mente, durante muito tempo aceitei o argumento da Causa Primordial, até o dia em que, aos dezoito anos, li a autobiografia de John Stuart Mill e lá encontrei a seguinte frase: "Meu pai me ensinou que a pergunta 'Quem me fez?' não pode ser respondida, já que imediatamente sugere a pergunta seguinte 'Quem fez Deus?'". Essa frase extremamente simples me mostrou, como ainda penso, que o argumento da Causa Primordial é uma falácia. Se tudo precisa ter uma causa, então também Deus deve ter uma causa. Se é possível que exista qualquer coisa sem causa, isso tanto pode ser o mundo quanto Deus, de modo que não pode haver validação nesse argumento. Trata-se exatamente da mesma natureza da visão hinduísta de que o mundo repousava sobre um elefante, e que o elefante repousava sobre uma tartaruga; e quando alguém perguntava "Mas e a tartaruga?", o indiano respondia: "Que tal mudarmos de assunto?". O argumento, de fato, não é melhor do que isso. Não há razão por que o mundo não possa ter passado a existir sem causa nenhuma; tampouco, por outro lado, existe qualquer razão que o impeça de ter sempre existido. Não há razão para supor que o mundo teve alguma espécie de início. A ideia de que as coisas precisam obrigatoriamente ter um início na verdade se deve à pobreza da nossa imaginação. Portanto, talvez eu não precise mais perder tempo com o argumento relativo à Causa Primordial.

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" Por que Não Sou Cristão"
Autor: Bertrand Russell
Editora: L&PM Pocket
Páginas: 256
Quanto: R$ 16,20 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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