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14/06/2013 - 20h45

Biógrafo discute principais obras e ideias de Nietzsche; leia trecho

da Livraria da Folha

Em "Nietzsche", volume da coleção "Encyclopaedia", Jean Granier, professor da Universidade de Rouen, França, apresenta a trajetória, as obras e principais ideias do filósofo.

Friedrich Nietzsche (1844-1900) foi um adversário ferrenho da moral cristã e influência para gerações de pensadores. Alguns escritos, publicados depois de sua morte, foram produzidos por sua irmã, Elizabeth Vöster-Nietzsche (1846-1935). Falida, falsificou alguns textos com a intenção de ganhar dinheiro e de colaborar com o antissemitismo. Morreu nas graças dos nazistas.

Abaixo, leia um trecho da biografia

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CAPÍTULO I

A BIOGRAFIA

Divulgação
Jean Granier discute como é possível mergulhar em uma obra inacabada
Granier discute como é possível mergulhar numa obra inacabada

Nietzsche gostava de alegar ascendência da nobreza polonesa. Na verdade, a linhagem dos Nietzsche, que graças a uma pesquisa minuciosa foi possível remontar até o começo do século XVIII, é inteiramente alemã. Entre os antepassados de Nietzsche há muitos pastores, como o avô, também com o nome Friedrich, que se tornou superintendente e ao qual a Universidade de Königsberg conferiu o título de doutor em teologia; e como seu pai, Karl Ludwig, que, como pastor em Röcken, perto de Lützen, casou-se em 1843 com Fransiska Oehler, também filha de um pastor.

Friedrich Nietzsche nasceu em 15 de outubro de 1844. A seu nascimento seguiu-se o de uma irmã, Elisabeth (1846), e de um irmão, Joseph, que faleceu em 1849. Aliás, foi nesse mesmo ano que ocorreu a morte do pai, o que foi ainda mais frustrante porque Nietzsche, como diria mais tarde em Ecce homo, sentia verdadeira veneração pelo progenitor, e a partir daí exerceu-se sobre ele apenas a educação de sua mãe, mulher de sólidas qualidades morais e de um devotamento exemplar, mas de espírito limitado; assim, desde cedo Nietzsche passou pela experiência da solidão intelectual e, mais tarde, viria a sofrer da estreiteza do ambiente familiar.

Em compensação ele fez seus estudos no liceu de Pforta, onde ingressou em outubro de 1858, com uma bolsa concedida pela cidade de Naumburg. O rigor da disciplina lhe foi, de início, penoso, mas logo lhe despertou o gosto pelo esforço, a capacidade de concentração e a coragem diante das provações. Além disso, Pforta era famosa pela qualidade do ensino de língua e literatura alemãs, e principalmente pelo brilhante espírito humanista que lá florescia. Sem dúvida foi em tal formação que Nietzsche adquiriu os métodos, o senso crítico e o domínio da linguagem que guiaram sua carreira de filólogo e, depois, suas indagações filosóficas. Por outro lado, a matemática e as ciências experimentais não tinham grande destaque, e mais tarde Nietzsche iria lamentar essa asfixia da inteligência científica sob a ditadura das "Humanidades". O jovem Nietzsche mostra pouco interesse pelas artes plásticas, mas tem um vivo senso musical; toma contato com a obra de Wagner e, em 1862, conhece a partitura para piano de Tristão e Isolda. Naturalmente Nietzsche também recebia educação religiosa em Pforta. Em 1861 recebe o sacramento da confirmação. Já nessa época, porém, multiplicam- se os sinais de distanciamento do cristianismo...

Tendo obtido seu diploma de bacharel em setembro de 1864, Nietzsche, em companhia do amigo Paul Deussen, matricula-se na Universidade de Bonn. Em outubro torna-se membro da Franconia, associação estudantil onde se reuniam vários ex-alunos de Pforta. Ao mesmo tempo ele começa a frequentar a Faculdade de Teologia e a Faculdade de Filologia, mas logo, conquistado pelas aulas do padre Ritschl, reserva sua atenção apenas para a filologia. Essa escolha, ademais, anunciava a iminente ruptura com o cristianismo; ela se deu em 1865, estimulada pela leitura do livro de Friedrich Strauss, A vida de Jesus, e foi motivo de cenas muito tumultuadas entre Nietzsche e sua mãe. Esta, perdendo as esperanças de ver Nietzsche abraçar a carreira sacerdotal e ferida em sua fé, resignou-se a um meio-termo, baseado no mútuo silêncio sobre o assunto.

Para seguir Ritschl, nomeado para Leipzig, Nietzsche se estabelece nesta cidade em 17 de agosto de 1865. Embora aprecie os estudos filológicos pela disciplina que exigem em seus métodos e como acesso privilegiado à Antiguida de greco-latina, Nietzsche pressente que, para ele, esses estudos jamais serão um fim em si. Assim, o acontecimento decisivo, nessa época crucial de sua formação intelectual, foi não a aula inaugural de Ritschl sobre Os Sete contra Tebas, de Ésquilo, e sim a descoberta de Schopenhauer (outubro-novembro de 1865). O desconcertante relato deixado por Nietzsche prova que, ao ler O mundo como vontade e representação, ele teve plena consciência de que havia encontrado seu destino. De resto, a impressão causada pelo conteúdo da obra, em especial as teses sobre o absurdo da existência e o ascetismo redentor, logo se atenua, enquanto ganha relevo o tema que prefigurava o nietzschianismo: a luta intransigente pela verdade!

Em 4 de dezembro de 1865, Ritschl funda uma sociedade filológica (reconhecida oficialmente em 1866). Nietzsche apresenta uma conferência que lhe vale os elogios de Ritschl e um convite para compor um léxico para o estudo de Ésquilo. No entanto, o interesse de Nietzsche se dirige cada vez mais para a filosofia. É neste momento que ele se ocupa de uma obra que virá a exercer em si uma considerável influência: A história do materialismo, de Albert Lange. Por meio deste texto ele toma conhecimento da filosofia kantiana (completando suas informações com a análise dos trabalhos de Kuno Fischer), ganha noções sobre o positivismo inglês e, acima de tudo, se inicia em duas ideias que se revelarão muito fecundas: o ceticismo em relação à Metafísica e a recusa de qualquer identificação entre o pensamento e o Ser.

Mas chega o momento de ingressar no serviço militar. Em 9 de outubro de 1867, Nietzsche entra no 4o Regimento de Artilharia de Campo. Adapta-se com facilidade à sua vida militar, da qual aprecia, como menciona numa carta, "um apelo constante à energia do indivíduo" e "um antídoto decisivo contra a erudição fria, estreita, pedante".

Além disso, ela não o impede de manter uma volumosa correspondência com seu novo amigo, Erwin Rohde, nem de iniciar trabalhos sobre Demócrito. Um acidente ocorrido no final de fevereiro ou começo de março de 1868 (Nietzsche se fere gravemente no peito durante um exercício de cavalaria e o ferimento infecciona) o leva ao hospital, e depois a uma estação de tratamento em Bad-Wettekind; a cura, demorada, coincide com o retorno a Naumburg em 2 de agosto. Em 19 de outubro Nietzsche está de novo em Leipzig; e em 6 de novembro, na Sociedade Filológica, ele apresenta uma conferência sobre as sátiras de Varrão e sobre Menipo, o cínico.

Em 8 de novembro de 1868, ele conhece Richard Wagner, e este primeiro encontro lhe causa fortíssima impressão, que contribui, em contraste, para aumentar sua aversão ao meio filológico. Mas é neste exato momento que lhe surge uma oportunidade excepcional, eliminando qualquer possibilidade de mudança de rumo: Ritschl recomendou sua candidatura para uma cátedra de língua e literatura gregas que vagara na Universidade da Basileia, e Nietzsche é escolhido para ela em 12 de fevereiro. Essa nomeação é uma grande honra; é também a garantia de uma vida estável e tempo livre para a pesquisa pessoal. Mas, enquanto sua família exulta, Nietzsche já avalia lucidamente o peso do fardo pedagógico que escolheu assumir... Além disso, ele renuncia à nacionalidade prussiana para adotar a cidadania suíça.

Nietzsche é acolhido cordialmente pelos colegas e pela sociedade burguesa da Basileia; logo, porém, as amenidades mundanas lhe causam irritação e cansaço. Em compensação, ele trava relações estimulantes com Franz Overbeck, especialista na história da Igreja, e com Jakob Burckhardt, 26 anos mais velho do que ele e eminente especialista em história da arte, cujas ideias, algumas delas, impregnarão as reflexões de Nietzsche. É a época, principalmente, do apogeu de sua amizade com Wagner.

Em maio de 1869, ele se hospeda na casa de Wagner em Triebschen, perto de Lucarno. Sente-se fascinado pelo gênio wagneriano, de modo que não percebe os aspectos negativos de sua personalidade: o temperamento autoritário, o egoísmo e a falta de escrúpulos. Em 1888, ou seja, muito tempo após o rompimento, Nietzsche ainda celebra em termos nostálgicos as maravilhas dessa amizade que brilhou intensamente por três anos, até abril de 1872. Nesta data Wagner partiu para se estabelecer em Bayreuth, e as nuvens se adensaram.

Durante a guerra franco-prussiana de 1870, Nietzsche, impedido de combater devido à sua recente naturalização suíça, serve como enfermeiro, contrai difteria, recupera-se lentamente e volta à Basileia sentindo profunda desconfiança pela hegemonia prussiana, confirmada pela vitória alemã.

Em 1871 publica-se O nascimento da tragédia, ou helenismo e pessimismo. Do ponto de vista de sua carreira como filólogo, esta publicação de Nietzsche é um suicídio; Ritschl fica consternado; Wilamowitz-Möllendorf desfere um ataque implacável e não tem dificuldade em vencer, visto que nem mesmo a réplica de Rohde consegue refutar as objeções do adversário. Nietzsche, ademais, percebeu que havia arruinado sua reputação e não se surpreendeu ao ver os estudantes abandonarem seus cursos. Em reação, entre 16 de janeiro e 23 de março de 1872, ele apresenta cinco conferências sobre O futuro de nossas instituições de ensino; critica asperamente a mentalidade dos liceus e das universidades da Alemanha, a especialização excessiva, onde julga reconhecer uma consequência do espírito das Luzes, tal como o jornalismo e a sociedade industrial moderna. De passagem solta farpas contra a teoria hegeliana do Estado e seu pretenso papel educativo.

Em 1873-1874, Nietzsche publica as quatro Considerações intempestivas.

Aos trinta anos, Nietzsche já é um homem seriamente enfermo e com uma situação afetiva das mais precárias. É verdade que, se perdeu a amizade de Ritschl (falecido em 1876), rompeu com Gersdorff e afrouxou os laços com Roh de (por sua vez professor em Iena), por outro lado travou novas relações: com Malwida Von Meysenbug, Paul Rée e o músico Peter Gast. Mas ele deseja uma existência mais estável, como demonstram suas veleidades matrimoniais: chega a fazer um pedido oficial de casamento a uma jovem holandesa, Mathilde Trampedach - sem resultado... Em 2 de maio de 1878, Nietzsche pede afastamento, por razões de saúde, de suas funções na Universidade da Basileia; é-lhe concedida uma pensão anual de três mil francos.

Em 1878-1879 surge a primeira parte de Humano, demasiado humano (a segunda parte se chama O viajante e sua sombra). Para Nietzsche, agora é o regime da vida errante, pontuada pelos acessos da doença e cercada pela solidão.

Aurora é concluída em janeiro de 1881. Nietzsche adota o hábito de passar longas temporadas em Sils-Maria, em Engadine. Nesta época formula o conceito do Eterno Retorno, ao mesmo tempo em que descobre a obra de Spinoza e se encanta com a música de Carmen. A gaia ciência é escrita entre 1881 e 1882. No final de março de 1882, durante uma viagem a Roma, Nietzsche conhece uma jovem russa, Lou Andréas-Salomé, e se apaixona por ela. Segue-se um imbróglio sentimental, desagradável e cruel, devido às intrigas de sua irmã Elisabeth, ciumenta e hipócrita, e à atitude ambígua de Paul Rée, que aliás acaba sendo o escolhido de Lou. Ao final desse drama, Nietzsche está rompido com sua família e mais solitário do que nunca. Passa um inverno terrível em Gênova e depois em Rapallo, mas uma fulgurante recuperação de suas forças lhe permite escrever em dez dias, em Sils-Maria, a primeira parte de Assim falou Zaratustra, e concluirá a obra em 1884-1885.

Às humilhações provocadas pelas dificuldades com os editores somam-se as recusas de suas tentativas de se reintegrar à Universidade (uma candidatura em Leipzig resulta em fracasso) e as preocupações causadas pelo noivado e, depois, pelo casamento de Elisabeth com o agitador antissemita B. Förster. Mesmo assim, sucedem-se as obras em ritmo acelerado. Em 1886, Além do bem e do mal; em 1887, Genealogia da Moral; em 1888, O caso Wagner, Crepúsculo dos ídolos, O anticristo, Nietzsche contra Wagner, Ecce homo (este último ensaio será publicado apenas em 1908).

A glória aponta no horizonte. Sinal precursor: em 1888, na Universidade de Copenhague, G. Brandes dedica uma série de conferências à filosofia de Nietzsche, mas em 3 de janeiro de 1889, em Turim, na praça Carlo Alberto, Nietzsche se afunda na loucura. Levado de volta à família, vive onze anos mergulhado na demência. Morre em Weimar em 25 de agosto de 1900: no próprio limiar desse século do niilismo que teve em Nietzsche seu lúcido arauto e, por antecipação, seu heroico adversário.

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"Nietzsche"
Autor: Jean Granier
Editora: L&PM
Páginas: 128
Quanto: R$ 14 *
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Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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