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20/06/2013 - 10h18

Em livro, repórter conta como telefonema anônimo frustrou a Operação Condor

da Livraria da Folha

Divulgação
A repercussão do caso constrangeu Montevidéu e Brasília
No anos 70, a repercussão do caso constrangeu Montevidéu e Brasília

Planejada e montada na década de 1970, a Operação Condor reuniu militares de seis países da América do Sul --Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai-- em uma ação conjunta para por fim em grupos que se opunham às ditaduras.

Jornalista narra luta contra a ditadura em três países

Fundada durante o governo de Augusto Pinochet, a Condor não se limitava aos territórios nacionais na busca de seus opositores.

Em 1978, um telefonema anônimo levou o repórter Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo J.B. Scalco a testemunhar a ação de militares uruguaios e policiais brasileiros no sequestro dos uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Diaz.

Cunha conta como a história iniciou e se desenvolveu no livro "Operação Condor: O Sequestro dos Uruguaios". Abaixo, leia um trecho.

Atenção: o texto reproduzido abaixo mantém a ortografia original do livro e não está atualizado de acordo com as regras do Novo Acordo Ortográfico. Conheça o livro "Escrevendo pela Nova Ortografia".

*

O TELEFONEMA

Porto Alegre, novembro de 1978

As pernas tremem, bambas.

Não desabo no chão porque estou sentado no banco da frente do Chevette. O cano escuro da pistola a um palmo da minha testa é a imagem que ainda gira solta dentro da minha cabeça. Não tenho idéia melhor.

- Vamos embora, Scalco!

Amolecido como eu, Scalco tenta se desculpar enquanto liga o motor.

- Minha perna está mole. Vou ter que fazer força pra engatar a primeira e sair daqui.

- Toca em frente, cara - insisto. - A minha perna também está travada. Ain-da bem que não estou dirigindo, Scalco. Não tenho o hábito de encarar uma pistola assim, tão de perto...

- Nem eu, chefe!

O carro arranca lenta, suavemente, tentando preservar o silêncio da rua cheia de árvores, vazia de gente. A chuva mansa que cai naquela tarde cinzenta de primavera em Porto Alegre deixa o dia ainda mais sonolento. Do outro lado da rua, um Passat creme sem placas continua estacionado com um homem ao volante. Ele nos segue com os olhos. Quatro quadras adiante, antes de dobrar à direita na avenida Praia de Belas, Scalco confere pelo espelho retrovisor antes de responder minha pergunta.

- O Passat continua parado, ninguém nos segue.

A rua Botafogo fica para trás, sonolenta e monótona. Nada parecia perturbar sua tranqüilidade de final de tarde, véspera de fim de semana. Ainda assim a tremedeira não passa.

Chego a pensar em perguntar ao Scalco como é que ele consegue imprimir força suficiente na perna para pressionar o acelerador. Não faço a pergunta, com medo de parecer ainda mais ridículo naquela circunstância.

Diabos, o que estava acontecendo? No curto trajeto de volta para a sucursal, eu procurava organizar o caos dentro de minha cabeça. Tentava cavar respostas, mas só brotavam novas perguntas.

Por que a visita ao apartamento da Botafogo, os dedos nervosos nas armas engatilhadas, o medo nos olhos, os minutos de terror?

Por que a liberdade inesperada, a sensação de alívio, a impressão de culpa e a tentação de fugir?

Fugir de quê? Fugir pra quê?

Eu sabia que teria uma sexta-feira agitada, normalmente agitada, mas nada parecido com aquilo.

Diabos, eu estava com medo, tremia.

Por quê?

*

Aquela sexta-feira, 17 de novembro de 1978, amanheceu com água caindo sobre Porto Alegre e votos jorrando das urnas.

Dois dias antes, o país fazia fila para votar nas eleições que renovaram a Câmara dos Deputados e um terço do Senado. Os jornais da manhã exibiam o sorriso plástico do presidente do partido governista, Francelino Pereira, emoldurando seu anúncio de que "a ARENA está vencendo no país inteiro, em termos gerais".

A matemática oficial, em termos, estava certa. O governo ganhava em 12 dos 22 Estados brasileiros, mas o partido da oposição, o MDB, esmagava a ARENA nos grandes centros urbanos e nas regiões de maior concentração eleitoral. Os números permitiam que um e outro, usando raciocínios diferentes, alardeasse a mesma vitória.

No Rio Grande do Sul, um fiel reduto oposicionista até nos anos mais duros da ditadura militar, a contagem dos votos não admitia dúvidas: a oposição ganhava, mantendo a maioria na Assembléia Legislativa e derrotando os três candidatos arenistas com seu candidato único ao Senado, Pedro Simon, presidente estadual do MDB.Na sexta-feira, em sua casa no litoral gaúcho, Simon, impedido duas vezes de conquistar o governo estadual por força de cassações de mandatos parlamentares e casuísmos eleitorais, já podia falar sem constrangimentos de sua vitória: naquele momento, 58% dos votos apurados eram dele.

Para dedicar a vitória ao povo pela "capacidade de resistência", o novo senador gaúcho começou a receber a imprensa, vestido ainda de pijama e chambre azul, empunhando seu inseparável cachimbo e amparado na mesa ao lado por um exemplar da obra A justiça no mundo, edição do Vaticano. Dois emissários meus reforçavam o grupo da imprensa na entrevista do senador eleito: o repórter Pedro Maciel e o fotógrafo Ricardo Chaves, da sucursal da revista Veja em Porto Alegre, que eu chefiava havia seis anos.

Assim, cortado pela metade, o efetivo da sucursal ficava reduzido a mim e a Dedé, a repórter Adélia Porto da Silva. As nossas preocupações previam uma sexta-feira limitada às paredes da simpática casa térrea onde se alojava a sucursal, na Vieira de Castro, uma rua arborizada e tranqüila do bairro Santana. Uma recepcionista ocupava o hall de entrada, que convergia para um corredor que levava às duas primeiras salas, repartidas entre o departamento comercial e a área administrativa.

A partir dali começava o mundo mais trepidante e ruidoso da redação. Um pouco mais adiante, o corredor curto e estreito se abria para dois ambientes. À direita, a minha sala: a mesa sempre forrada de jornais, com o telefone e a parruda Olivetti Línea 88 ao lado, atrás de duas cadeiras e defronte a um armário com a coleção da revista Vejae alguns arquivos de reportagens. À esquerda, do outro lado do corredor, a sala barulhenta do Tota, o Aristóteles Azevedo, o veloz teletipista que passava o dia picotando em fita as matérias que eram enviadas pelo telex à sede da Editora Abril, em São Paulo.

Ao fim do corredor, a sala ampla da redação, onde se alinhavam meia dúzia
de mesas dos repórteres e fotógrafos que integravam as revistas da Abril no Sul
- Veja, Placar, Exame e Quatro Rodas, entre as principais. Em um cavalete, junto à parede, os principais jornais da cidade e do centro do país. O aparelho de TV estava sempre ligado, sem som, para não abafar o rádio que se alternava entre os noticio-sos das duas principais emissoras da capital, a Guaíba e a Gaúcha.

Tudo sob o olhar vigilante e a organização rígida da minha secretária, Loraine, uma loira alta e vistosa que singrava aqueles mares agitados com a serena autoridade da Sétima Frota americana. O janelão dos fundos escancarava o pequeno pátio, de onde vinha o ar fresco do jardim, que renovava os pulmões, e a imagem da churrasqueira, que reforçava a gula.

Nesse mar ruidoso, especialmente em uma sexta-feira de fechamento, Dedé e eu nos dividíamos entre o telefone, o telex, a máquina de escrever, o rádio e o aparelho de TV - que naquele dia, para desespero geral, pareciam rugir simultaneamente.

À medida que a apuração avançava e os números se cruzavam no ar, era preciso transmitir imediatamente o que nos interessava para a redação central da revista, em São Paulo, onde se preparava a reportagem de capa da semana que fechava naquela madrugada.

No final da manhã, Loraine entra na minha sala e faz sinal para interromper a conversa ao telefone. Tapo o bocal com a mão.

- Fala, secreta...

- Tem um homem no telefone querendo falar contigo. Um castelhano. Não disse quem é - avisa.

- Pô, eu estou com a redação de São Paulo na linha. Não posso atender agora - digo, com certa irritação.

Retomo minha conversa com o editor da revista sobre o andamento das eleições. Minutos depois desligo e volto a batucar minha Olivetti velha de guerra. Cesso o tlec-tlec na lauda para atender outra vez o telefone. É a secretária de novo, desta vez ligando pelo ramal da sala logo ali ao lado, certamente para não ver minha cara feia.

- Chefe, ligação de São Paulo pra ti.

- Da revista? - imagino.

- Não. É aquele sujeito de novo, o castelhano.

- Em dia de fechamento, só falo com a revista, Loriley - lembrei, apelando para o apelido carinhoso que podia amenizar minha bronca. Mas ela insistiu:

- O cara parece nervoso...

- Droga! Passa, então... - concedi, com a idéia de me livrar logo daquele incômodo. - Alô!

- Hola!

- foi a resposta do outro lado. Minha saudação virou uma pergunta.

- Alô???

- Periodista Luiz Cláudio Cunha?

Lembrei do alerta da secretária. Era o castelhano. O próprio. Entramos em sintonia falando o espanhol.

- Sí. Quién habla? - O homem ignorou minha questão e entrou direto no assunto que lhe interessava, sem me dar espaço para interromper seu recado.

O tom de voz era apressado, traindo certa urgência, certamente ansiedade.

- Hola! Una pareja y dos niños uruguayos que viven en Porto Alegre están desaparecidos hace una semana. Los nombres son Lilián Celiberti de Casariego y Universindo Rodríguez Díaz, y los niños se llaman Camilo y Francesca. Hola?... Me escuchas?...

- Sí, claro. Estoy anotando todo... - disse, enquanto rabiscava em uma folha de papel. - Y la dirección?

- La dirección es Calle Botafogo, número 621, habitación 110, bloque 3. Por favor, necesitamos que alguien vea lo que pasa.

Tentei descartar aquela missão inesperada. Bom momento, pensei, para um maluco qualquer ligar na hora mais inconveniente para um jornalista: o horário de fechamento da edição. Arrisquei:

- Che, no es posible que estas personas hubiesen viajado, algo así, normal?...

- No, nosotros lo sabríamos... - insistiu o homem. Tentei cercar a informação pelo outro lado:

- Cuál es el significado de "desaparecidos"? - Detenidos - respondeu ele, secamente, sem dar detalhes.

- Pero... quién está hablando? - avancei, tentando descobrir quem eram "nosotros". - Como es su nombre?

- Estoy llamando desde San Pablo- disse, sem responder minha pergunta.

Desligou, sem nem se despedir. O sujeito não parecia mal-educado.

Só nervoso.

*

"Operação Condor: O Sequestro dos Uruguaios"
Autor: Luiz Claudio Cunha
Editora: L&PM Editores
Páginas: 472
Quanto: R$ 41,65 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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