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07/08/2013 - 14h15

Leia trecho de 'Isso É Arte?'

da Livraria da Folha

Escrito pelo editor da BBC Will Gompertz, "Isso É Arte?" apresenta mais de 150 anos de arte moderna, do impressionismo até os dias de hoje. O autor conta a história por trás das obras-primas e a trajetória dos artistas mais relevantes do período.

Abaixo, leia um trecho.

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Divulgação
Imagem do livro "Isso É Arte?" (Zahar, 2013)
Imagem do livro "Isso É Arte?" (Zahar, 2013)

Em 1972, a Tate Gallery em Londres comprou uma escultura chamada Equivalente VIII, de Carl Andre, um artista minimalista norte-americano. Feita em 1966, ela consiste em 120 tijolos refratários que, quando dispostos segundo as instruções do artista, podem ser configurados em oito diferentes padrões, todos de idêntico volume. Quando a Tate expôs a obra em meados dos anos 1970, apresentou-a na forma de um retângulo com dois tijolos de profundidade.

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Fique sabendo as histórias por trás das obras-primas e conheça os artistas
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Os tijolos nada tinham de especial; poderiam ter sido comprados por qualquer pessoa por alguns centavos cada um. A Tate Gallery pagou mais de 2 mil libras por eles. A imprensa britânica teve um ataque coletivo de fúria. "Desperdiçar o dinheiro da nação com uma pilha de tijolos!", esbravejaram os jornais. Até a The Burlington Magazine, um periódico de arte intelectualizado, perguntou: "Será que a Tate enlouqueceu?" Por que, quis saber uma publicação, a Tate havia esbanjado precioso dinheiro público com algo que "poderia ter ocorrido a qualquer pedreiro?".

Cerca de trinta anos mais tarde a Tate usou mais uma vez o dinheiro dos contribuintes britânicos para adquirir uma obra de arte incomum. Dessa vez, escolheu comprar uma fila de pessoas. Na verdade, não foi bem assim. A galeria não comprou as pessoas em si mesmas, isso é ilegal hoje em dia, mas de fato comprou a fila. Ou, mais precisamente, um pedaço de papel no qual o artista eslovaco Roman Ondák havia escrito instruções para uma obra de arte performática que envolvia a contratação de um punhado de atores para formar uma fila. Ele especificava num pedaço de papel que os atores deveriam formar uma fila ordenada em frente ao vão de uma porta trancada ou bloqueada. Uma vez em posição - ou "instalados", no linguajar artístico -, todos deveriam ficar voltados para a porta e assumir um ar de paciente expectativa. A ideia era que sua presença intrigaria e atrairia transeuntes, que poderiam entrar na fila (o que, em minha experiência, eles faziam frequentemente) ou talvez caminhar ao lado dela, inspecionando perplexos e de sobrancelhas cerradas, querendo saber o que estariam perdendo.

É uma ideia divertida, mas isso é arte? Se um pedreiro poderia ter pensado no Equivalente VIII, o arremedo de fila de Ondák poderia então ser considerado a expressão mais esdrúxula do gênero da idiotice. A mídia iria certamente enlouquecer.

No entanto, não se ouviu sequer um murmúrio: nenhuma crítica, nenhuma indignação, nem mesmo uma série de manchetes zombeteiras da parte dos membros mais espirituosos da imprensa sensacionalista - nada. A única cobertura que a aquisição recebeu veio na forma de um par de linhas aprovadoras nos jornais de elite com maiores pretensões artísticas. O que aconteceu então durante esses trinta anos? O que mudou? Por que a arte moderna e contemporânea deixou de ser amplamente vista como uma piada sem graça para se tornar algo respeitado e reverenciado no mundo todo?

Dinheiro tem alguma coisa a ver com isso. Enormes somas desaguaram no mundo das artes no curso das últimas décadas. Fundos públicos foram disponibilizados de modo generoso para o embelezamento de velhos museus e a construção de novos. A queda do comunismo e a desregulamentação dos mercados levaram à globalização e à emergência de uma riquíssima classe internacional, sendo a arte o investimento seguro preferido dos que enriqueceram recentemente. Enquanto bolsas de valores foram a pique e bancos quebraram, o valor da arte moderna continuou subindo, assim como o número de pessoas que entrava no mercado. Alguns anos atrás, a Sotheby's ficaria muito feliz se tivesse arrematantes de três países diferentes num de seus grandes leilões de arte moderna. Hoje esse número está bem acima de quarenta, incluindo novos colecionadores abastados da China, da Índia e da América do Sul. Isso significa que a economia de mercado básica entrou em jogo: é um caso de oferta e demanda, com a última excedendo em muito a primeira. O valor de obras muito admiradas de artistas mortos (e portanto improdutivos) - como Picasso, Warhol, Pollock e Giacometti - continua subindo como um elevador.

O preço está sendo empurrado para cima por banqueiros recém-estabelecidos e oligarcas obscuros, cidades provincianas ambiciosas e países orientados para o turismo desejosos de "fazer um Bilbao" - isto é, transformar sua reputação e ganhar maior proeminência encomendando uma galeria de arte que chame a atenção. Todos eles descobriram que comprar uma mansão ou construir um museu de arte equipado com a mais avançada tecnologia é a parte fácil; enchê-lo com alguma arte minimamente decente que vá impressionar os visitantes é bem mais difícil. E isso porque ela não existe em abundância por aí.

E se não há nenhuma arte moderna "clássica" de alta qualidade disponível, a melhor alternativa é a arte moderna contemporânea (a obra de artistas vivos). Aqui, mais uma vez, os preços elevaram-se de maneira inexorável para aqueles considerados de primeira linha, como o artista pop norte-americano Jeff Koons.

Koons ficou famoso depois de produzir Puppy (1992), um gigantesco filhote de cachorro incrustado com flores, bem como por seus numerosos personagens de desenho animado que parecem ter sido feitos com balões de papel-alumínio. Em meados dos anos 1990, era possível comprar uma obra de Koons por algumas centenas de milhares de dólares. Em 2010, suas esculturas cor de bala eram vendidas por milhões. Ele havia se tornado uma marca, sua arte tão instantaneamente reconhecível pelos bem-informados quanto a logomarca da Nike. Koons é um dos vários artistas vivos que se tornaram muito ricos num espaço de tempo curtíssimo graças a esse boom das belas-artes

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"Isso É Arte?"
Autor: Will Gompertz
Editora: Zahar
Páginas: 446
Quanto: R$ 49,90 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques. Não cumulativo com outras promoções da Livraria da Folha. Em caso de alteração, prevalece o valor apresentado na página do produto.

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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