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28/08/2013 - 10h30

Leia trecho de 'Confiança e Medo na Cidade', de Zygmunt Bauman

da Livraria da Folha

Em "Confiança e Medo na Cidade", o sociólogo Zygmunt Bauman investiga como as grandes cidades se transformaram em um território dominado pela insegurança e reflete sobre as possibilidades de se recuperar a dimensão comunitária do espaço público.

Entre outros títulos, Bauman, professor emérito das universidades de Varsóvia e de Leeds, é autor de "Danos Colaterais: Desigualdades Sociais numa Era Global", "Modernidade Líquida", "O Mal-Estar da Pós-Modernidade", "Isto Não É um Diário" e "Capitalismo Parasitário".

Abaixo, leia a introdução do livro escrita por Mauro Magatti, diretor do departamento de sociologia da Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão.

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Bauman e o destino das cidades globais

Divulgação
Para Bauman, deveriamos recuperar a dimensão comunitária do espaço público
Para Bauman, dimensão comunitária do espaço público se perdeu

Conhecido como um autor capaz de chegar ao essencial em poucas páginas, Bauman não desmente a fama. Nos breves ensaios aqui reunidos, ele apresenta uma leitura perspicaz da situação em que se encontram as "cidades globais".

Em substância, o sociólogo polonês traça, nas páginas deste livro, as linhas fundamentais daquilo que se pode considerar a dinâmica básica em torno da qual giram as principais cidades do mundo. Uma espécie de destino que parece indicar o futuro.

É possível resumir em poucas palavras os elementos centrais de seu raciocínio: as cidades globais entraram numa nova fase histórica, inaugurada no fim do século XX. Por diversas razões, essas áreas são o epicentro das transformações em curso e, como tal, constituem observatórios particularmente importantes para compreender tudo o que está acontecendo.

Em síntese, a transformação nasce dos efeitos produzidos por um duplo movimento: por um lado, é nas grandes áreas urbanas que se concentram as funções mais avança-das do capitalismo, que tem se reacomodado segundo uma lógica de rede, cujos núcleos estruturais são justamente os centros globais. Por outro, as cidades tornam-se objeto de novos e intensos fluxos de população e de uma profunda redistribuição da renda: seja nos bairros nobres, com a formação de uma elite global móvel e altamente profissionalizada, seja nos bairros populares, com a ampliação dos cinturões periféricos, onde se junta uma enorme quantidade de populações deserdadas. Em suma, a cidade socialdemocrata que se afirmou no segundo pós-guerra torna-se ameaçada em suas fundações, pois o tecido social é submetido a intensas pressões que produzem uma verticalização crescente: os ricos tendem a se tornar ainda mais ricos, desfrutando as oportunidades disponibilizadas pela ampliação dos mercados, enquanto os mais pobres afundam na miséria, destituídos de sistemas de proteção social.

O efeito desse duplo movimento é evidente na vida cotidiana de quem mora na cidade contemporânea: enquanto os bairros centrais são valorizados e tornam-se objeto de grandes investimentos urbanísticos, outras áreas são corroídas pela degradação e tornam-se marginais. Quem possui recursos econômicos ou tem condições de deslocar-se tenta se defender criando verdadeiros enclaves, nos quais a proteção é garantida por empresas privadas de segurança, ou transferindo-se para áreas mais tranqüilas e nobres. Os mais pobres (ou seja, aqueles que são obrigados a permanecer onde estão) são forçados, ao contrário, a suportar as conseqüências mais negativas das mudanças. Isso só pode gerar um crescente e difuso sentimento de medo.

Dilacerada por essa tensão, a classe média corre o risco de acabar vítima de um processo que não controla e não conhece, e de perder o bem-estar conquistado no decorrer das últimas décadas.

Se essa é a dinâmica estrutural a que estão sujeitas as cidades, não surpreende que alguns especulem com o medo, transformando-o na base de uma política de controle e repressão. A curto prazo, o jogo parece funcionar: a ação repressiva e as reivindicações comunitárias servem apenas para tornar mais suportável uma transformação que se processa fundamentalmente fora de qualquer controle.

A questão é: será possível fugir desse destino? Será possível, na situação atual, percorrer outro caminho?

Não se trata aqui de dar resposta a uma pergunta tão complexa e que há de nos acompanhar ainda por muitos anos. Diante das mudanças com as quais nos confronta- mos, seria ingênuo pensar numa resposta imediata. Para reconstruir equilíbrios socialmente aceitáveis, precisamos de tempo, paciência e empenho.

A maneira mais proveitosa de utilizar o modelo teórico que Bauman traça em seus ensaios é empregá-lo sobretudo para analisar a especificidade dos casos concretos e, em seguida, tentar intervir sobre eles. Tendo em mira esses objetivos, é interessante fazer referência a um caso particular - o da cidade de Milão.

A capital da Lombardia é, a justo título, uma cidade global, embora não pareça se dar conta disso. Inserida nas grandes redes mundiais, Milão é um dos centros mais importantes do continente europeu e constitui um núcleo estratégico em relação a inúmeras áreas de atividade: da pesquisa às finanças, do setor terciário avançado à inovação.

Tradicionalmente, Milão é uma daquelas cidades que se distinguem por um grau relativamente alto de integração social, pelo menos quando comparada a cidades semelhantes. Mas não lhe faltam problemas. Nos últimos anos, os índices de pobreza aumentaram de modo constante e algumas áreas periféricas começaram a sofrer um processo evidente de degradação. Da mesma forma, sabemos que crescem os processos de marginalização dos mais pobres (desempregados por longos períodos, psicologicamente fragilizados, sem-teto), ao mesmo tempo que a integração dos extracomunitários* torna-se um processo muito difícil, cada vez mais árduo, em razão de um clima cultural que esconde cada vez menos a impaciência e o estorvo.

Desse ponto de vista, Milão está diante de uma encruzilhada: ou resolve conservar, renovando-a, a própria tradição, para continuar a ser uma cidade capaz de integrar os diversos grupos sociais e de fazer dessa integração um fator de desenvolvimento, ou terá de se conformar em reforçar as dinâmicas estruturais a que Bauman se refere, para transformar-se numa cidade dividida. Em outras palavras: Milão pode tentar ser um laboratório da construção de uma via original rumo à globalidade, recriando as condições de confiança e respeito recíproco, ou pode se limitar a seguir o caminho da fragmentação e do medo que tantas cidades já começaram a percorrer.

Uma das qualidades das reflexões que Bauman tem nos oferecido ao longo de todos esses anos - e que veremos confirmadas nas páginas que se seguem - é a capacidade de jamais fechar o discurso, deixando sempre aberto o campo das possibilidades. Creio que, nesse sentido, Bauman é efetivamente um autor pós-moderno. As cidades globais têm um destino: pelo menos enquanto não se limitarem a pensar apenas em si mesmas e em seu futuro. Mas é justamente a lógica do pensamento de Bauman que nos leva a compreender que não existem determinismos na vida social. Isso se os atores sociais enfrentarem a realidade e exercitarem até o fim sua capacidade de ação - que é, afinal, a capacidade de modificar o curso dos acontecimentos a partir de novos investimentos nas relações e nos víncu-los, entendidos como elementos essenciais na construção de um novo capital social. Não de modo ingênuo, mas segundo uma reflexão contínua e séria sobre as condições do próprio agir.

Mauro Magatti

* Indivíduos originários de países que não fazem parte da União Europeia. (N.T.)

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CONFIANÇA E MEDO NA CIDADE
AUTOR Zygmunt Bauman
EDITORA Zahar
QUANTO R$ 29,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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