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19/12/2013 - 17h30

Leia trecho de 'O Morro dos Ventos Uivantes', de Emily Brontë

da Livraria da Folha

Publicado em 1847 sob o pseudônimo de Ellis Bell, único romance de Emily Jane Brontë, "O Morro dos Ventos Uivantes", veio à público um ano antes de sua morte, aos 30 anos, vítima da tuberculose, no dia 19 de dezembro de 1848.

Na época, a história de amor narrada pelo livro não foi bem recebida. Anos mais tarde, passou a ser reconhecida como obra-prima da literatura inglesa. O título ganhou notoriedade entre os jovens leitores ao ser citado pela personagem Bella, protagonista da saga "Crepúsculo", como uma de suas leituras preferidas.

Abaixo, leia um trecho de "O Morro dos Ventos Uivantes".

*

Capítulo I

Divulgação
Clássico da literatura mundial ganha versão de bolso da LP&M
Clássico da literatura mundial, obra ganha versão de bolso da L&PM

1801 - ACABO DE VOLTAR de uma visita ao meu senhorio - o vizinho solitário que há de causar-me inquietação. A paisagem sem dúvida é bela! Em toda a Inglaterra, não acredito que eu pudesse ter encontrado outra situação tão afastada dos rumores da sociedade. O verdadeiro Paraíso dos Misantropos - e eu e o sr. Heathcliff formamos um par muito conveniente para dividir a desolação entre nós. Que sujeito extraordinário! Mal podia imaginar o quanto meu coração acalentou-se quando vislumbrei seus olhos negros recolherem-se cheios de suspeita por sob as sobrancelhas enquanto eu chegava a cavalo, e quando seus dedos, com uma certeza ciumenta, abrigaram-se ainda mais fundo no colete enquanto eu anunciava o meu nome.

- Sr. Heathcliff? - perguntei.

Um aceno de cabeça foi a resposta.

- Sr. Lockwood, o novo inquilino, senhor... tenho a honra de visitá-lo o mais depressa possível após a minha chegada para manifestar a esperança de que eu não o tenha perturbado com a minha insistência em pedir a ocupação da Granja da Cruz do Tordo; ainda ontem ouvi dizer que o senhor acha...

- A Granja da Cruz do Tordo é minha propriedade, senhor - disse ele, interrompendo-me com uma careta. - Eu não permitiria que ninguém me perturbasse, se estivesse em meu poder evitar... vamos, entre!

Este "entre" foi pronunciado por entre os dentes e expressava o mesmo sentimento de "Vá para o Diacho!". Nem mesmo o portão por cima do qual se inclinava evidenciou um movimento condizente com as palavras; e acho que foi esta circunstância que me levou a aceitar o convite: fiquei interessado naquele homem que parecia ainda mais reservado do que eu.

Quando viu o peito do meu cavalo a roçar a barreira, afastou a mão para desacorrentá-lo e então, de cenho franzido, conduziu-me pela estrada, dizendo enquanto adentrávamos o pátio:

- Joseph, pegue o cavalo do sr. Lockwood; e traga-nos vinho.

"Eis aqui toda a equipe de serviçais" foi a reflexão sugerida por esta ordem composta. "Não espanta que as ervas daninhas estejam crescendo entre as pedras e o gado seja o único responsável por aparar a grama."

Joseph era um homem idoso, ou, melhor dizendo, velho: muito velho, talvez, embora vigoroso e robusto.

- Deus nos ajude! - exclamou em um sussurro de irritação solitária ao tomar o meu cavalo: enquanto lançava-me um olhar tão azedo que tive a bondade de conjecturar que estivesse invocando a ajuda divina para digerir o jantar, e que a piedosa exclamação nada teria a ver com a minha chegada repentina.

"Morro dos Ventos Uivantes" é o nome da morada do sr. Heathcliff; uma denominação tipicamente provinciana que descreve o tumulto atmosférico a que a construção se vê exposta durante as tempestades. De fato, lá no alto deve haver rajadas puras e revigorantes a qualquer hora: chegamos a imaginar a força do vento norte soprando para além do precipício graças a uns poucos abetos retorcidos nas imediações da casa; e por uma cerca de espinheiros magros, todos estendendo os galhos na mesma direção, como que pedindo esmolas ao sol. Por sorte, o arquiteto teve o cuidado de planejar uma construção robusta; as estreitas janelas alojam-se fundo nas paredes, e os cantos são protegidos por enormes projeções de pedra.

Antes de cruzar o umbral, detive-me a fim de admirar um entalhe grotesco que se alastrava por toda a fachada, e em especial ao redor da porta de entrada, acima da qual, em meio a uma selvageria de grifos em ruínas e garotinhos desavergonhados, percebi a data "1500" e o nome "Hareton Earnsha". Eu haveria tecido comentários e feito perguntas ao carrancudo proprietário sobre a história da casa, mas a atitude que assumiu à porta parecia exigir uma entrada imediata ou uma partida definitiva, e não quis agravar-lhe ainda mais a impaciência antes de explorar os aposentos internos.

Um degrau conduziu-nos à sala de estar da família, sem nenhum vestíbulo ou corredor de passagem: chamam-na de "a casa" com grande deferência. Em geral a casa inclui cozinha e sala de visitas, mas creio que no Morro dos Ventos Uivantes a cozinha está obrigada a esconder-se em alguma outra parte: pelo menos ouvi uma balbúrdia de vozes e o tilintar de utensílios culinários vindos do interior; e não percebi nenhum indício de grelhados, fervuras ou assados ao redor da enorme lareira; tampouco o lustre de panelas de cobre e escorredores de estanho nas paredes. Uma das extremidades, a bem dizer, refletia de maneira esplêndida tanto a luz como o calor de imensas filas de pratos de estanho intercalados com jarras e canecos de prata, que avultavam, fileira atrás de fileira, em uma enorme estante de carvalho que se erguia até o teto. Esta nunca tivera revestimento algum: toda a sua anatomia expunha-se aos olhares inquiridores, salvo no ponto em que uma gamela de madeira, com bolos de aveia e cortes de gado, cordeiro e presunto, a escondia. Acima da lareira havia uma miscelânea de velhas armas infandas e, à guisa de ornamento, três latas pintadas com grande espalhafato dispostas ao longo do consolo. O piso era de pedra lisa e regular: as cadeiras, estruturas primitivas, de espaldar alto, pintadas de verde: com uma ou duas, negras e pesadas, espreitando à sombra. Em um arco sob a estante repousava uma enorme cadela perdigueira de pelo castanho, cercada por uma ninhada de filhotes; e outros cães ocupavam outros recessos.

As instalações e a mobília não tinham nada de extraordinário, uma vez que pertenciam a um prosaico fazendeiro do Norte, de semblante decidido e braços e pernas robustos que se evidenciavam ainda mais em calças curtas e perneiras. Um indivíduo como este, sentado na poltrona, com um caneco de cerveja espumando na mesa redonda à frente, pode ser encontrado em qualquer direção em um raio de oito ou dez quilômetros pelas montanhas por alguém que chegue na hora certa após o almoço. Mas o sr. Heathcliff apresenta-se como um profundo contraste à sua morada e ao seu modo de vida. No aspecto, é um cigano de tez escura; nos modos e na maneira de vestir, um gentil-homem - ou melhor, tem do gentil-homem tanto quanto muitos outros proprietários rurais: um pouco desleixado, talvez, mas parecendo à vontade na incúria, graças à figura empertigada e graciosa - e um tanto rabugento - é possível que certas pessoas suspeitem de um certo orgulho rústico - porém uma nota simpática em meu âmago diz-me que não é nada parecido; eu sei, por instinto, que essa reserva tem origem em uma aversão a demonstrações efusivas de sentimento - a manifestações de gentileza recíproca. Ele ama e odeia, sempre às escondidas, e considera uma espécie de impertinência ser amado ou odiado de volta - Não, estou indo rápido demais - Confiro-lhe os meus próprios atributos com excessiva prodigalidade. O sr. Heathcliff pode ter razões totalmente diferentes daquelas que me movem para manter a mão afastada ao encontrar um futuro conhecido. Gosto de pensar que a minha constituição beira o peculiar: minha querida mãe costumava dizer que eu jamais teria uma casa confortável, e no verão passado já me provei perfeitamente indigno de uma.

Enquanto aproveitava um mês de tempo bom no litoral, vi-me em companhia de uma criatura fascinante, uma verdadeira deusa aos meus olhos, desde que não prestasse atenção em mim. Eu nunca "declarei o meu amor" em termos vocais; mas, se existe uma linguagem do olhar, até o mais reles idiota teria percebido que eu estava perdidamente apaixonado: ela me compreendeu, ao menos, e me retribuiu com um olhar - o mais doce de todos os olhares imagináveis - e o que fiz? Enrubesço ao confessar - escondi-me com indiferença dentro de mim mesmo, como um caracol, e a cada novo olhar eu me escondia mais fundo e com indiferença ainda maior; até que, no fim, a pobre criatura inocente foi levada a duvidar de suas próprias impressões e, tomada pela dor do suposto engano, persuadiu a mãe a ir embora.

Graças a este curioso traço de caráter, impingiram-me a reputação de desalmado; só eu sei com quanta injustiça.

Sentei-me na extremidade da lareira oposta àquela em cuja direção o meu senhorio avançava e preenchi o intervalo de silêncio tentando afagar a mãe canina, que havia deixado os rebentos e aproximava-se esfomeada das minhas pernas, com os lábios arreganhados e os dentes brancos salivando à espera de um bocado.

Meu afago motivou um longo rosnado gutural.

- É melhor deixar a cadela em paz - resmungou o sr. Heathcliff, em uníssono, pondo fim a quaisquer demonstrações ulteriores de afeto com uma batida do pé. - Ela não está acostumada a esses melindres... não é uma cadela de estimação.

Logo, enquanto andava a passos largos em direção a uma porta lateral, gritou mais uma vez.

- Joseph!

Joseph balbuciou alguma coisa incompreensível nas profundezas do porão, mas não fez menção de subir; então o patrão submergiu a fim de encontrá-lo, deixando-me vis-à-vis com a cadela arruaceira e dois ovelheiros sinistros e desgrenhados que também se revezavam na observação ciumenta de cada movimento meu.

Pouco desejoso de experimentar aquelas presas, permaneci imóvel - mas, imaginando que os cães fossem incapazes de compreender insultos tácitos, por algum infortúnio entreguei-me a piscadelas e caretas destinadas ao trio, e alguma expressão fisionômica irritou a madame a tal ponto que de repente tomou-se de fúria e pulou em meus joelhos. Joguei-a para trás e apressei-me em pôr a mesa entre nós. O procedimento chamou a atenção de toda a matilha. Meia dúzia de amigos quadrúpedes, dos mais variados tamanhos e idades, saíram de covis escuros em direção ao centro comum. Senti que os meus calcanhares e as abas do meu casaco estariam particularmente vulneráveis aos ataques; e, afastando os combatentes maiores da melhor forma possível com o atiçador, fui obrigado a pedir, em voz alta, a ajuda de alguns serviçais para restabelecer a paz.

O sr. Heathcliff e o criado subiram os degraus do porão com uma cólera indiferente. Acho que não se moveram um segundo mais depressa do que o normal, embora a lareira estivesse reduzida a uma verdadeira tormenta de preocupação e de latidos.

Por sorte, alguém na cozinha demonstrou maior presteza; uma valente dama de mangas arregaçadas, com os braços nus e o rosto esbraseado, irrompeu em meio a nós brandindo uma frigideira; e aplicou a arma, e também a língua, com tanta determinação que a tempestade dissipou-se em um passe de mágica, e apenas ela permanecia lá, arfando como o mar após um vento forte, quando o patrão entrou em cena.

- Que diabos está acontecendo? - perguntou, encarando-me de uma forma que mal pude aguentar depois do tratamento inamistoso.

- Que diabos, eu também me pergunto! - balbuciei. - A vara de porcos endemoniados não poderia ter pior disposição do que os seus cães, senhor. Seria mais fácil receber os visitantes com uma matilha de tigres!

- Eles não mexem com os hóspedes que não tocam em nada - respondeu o sr. Heathcliff, pondo a garrafa à minha frente e restaurando a mesa ao lugar de origem. - Os cães fazem bem em manterem-se atentos. Aceita um cálice de vinho?

- Não, obrigado.

- O senhor não levou nenhuma mordida?

- Se eu tivesse levado, sem dúvida teria marcado o atacante com o meu sinete.

O semblante de Heathcliff relaxou em um sorriso.

- Vamos, vamos - disse ele -, o senhor está muito agitado, sr. Lockwood. Tome, beba um pouco de vinho. Os hóspedes são tão raros aqui nesta casa que sou obrigado a reconhecer que eu e os cães mal sabemos como recebê-los. À sua saúde!

Fiz uma mesura e retribuí o brinde; comecei a perceber que seria uma tolice ficar amuado por conta das travessuras de um bando de vira-latas: além do mais, não me agradava a ideia de entreter ainda mais o sujeito às minhas custas, pois seu humor predispunha-se a tanto.

*

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES
AUTOR Emily Brontë
EDITORA L&PM
QUANTO R$ 17 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

 
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