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11/02/2014 - 17h03

Crime em Florianópolis inspira romance policial; leia trecho

da Livraria da Folha

Inspirado por um crime e pelos livros de Raymond Chandler, Marco Antonio Zanfra parte de um caso de que aconteceu em Florianópolis no fim da década de 1990 para escrever "As Covas Gêmeas".

Ouça entrevista com o autor

Zanfra trabalhou como repórter policial por mais de 15 anos. "As Covas Gêmeas" pode virar filme. A história deve chegar aos cinemas pelas mãos do cineasta Zeca Nunes Pires, com apoio técnico de Tânia Lamarca.

Abaixo, leia trechos do livro.

*

Resolvi, nem sei por que, ir ao enterro de Maycon. Tem uma área do cemitério de Coqueiros, nos fundos, à direita, na parte que se debruça sobre a via Expressa, onde não tem jeito de os mortos descansarem em paz. O excesso de tumbas acabou por bloquear as passagens e não há como se chegar de um ponto a outro desse trecho sem transitar desrespeitosamente sobre lajes, lápides, vasos e jardineiras. A sepultura do garoto ficaria nessa área.

Divulgação
Livro narra a trajetória de personagens envolvidos em um crime misterioso
Em livro, autor narra um crime misterioso em Florianópolis

Maycon tinha muitos amigos. Esperava um enterro com dois ou três gatos pingados, principalmente por causa do tempo ruim, mais contei mais de trinta. Especialmente crianças. Crianças descoloridas, esquálidas e tristes, numa romaria silenciosa em torno do caixão de madeira compensada.

Cheguei ao cemitério quase na hora da saída do velório e não encontrei a mãe de Maycon. Explicaram-me que ela havia-se antecipado e ido conversar com os funcionários que abriam a cova para o filho. Além de algumas recomendações, ela certamente não queria ter de escalar túmulos e pisar em despojos como mais uma no meio de uma quase multidão. Ela vestia um luto desbotado. Um vestido que devia ter sido negro, mas foi perdendo a cor a cada enterro. Parecia consolada. Os cabelos presos atrás, num amarfanhado de fios, davam-lhe um ar resignado. Os lábios levemente pintados e o rosto com uma pincelada de pó mostravam uma mulher de certa forma bonita.

Ao me ver, ela fez um gesto com a cabeça, apontando para o chão: - Achei melhor prevenir. Não dá para saber se vai ter vaga quando o outro aparecer... Não entendi, a princípio. Mas bastou olhar para o chão abaixo dela, onde três homens trabalhavam enlameados para compreender: estavam sendo abertas duas covas, lado a lado. Uma que deveria ser ocupada em breve por Maycon; a outra, na visão da mãe, desde já reservada a Marlon. - Aos gêmeos, as covas gêmeas... - ela falou, e eu juro que faltou muito pouco para que aquele seu ar resignado não se esboroasse em lágrimas. Demorei a ter uma reação. Demorei a encontrar algo a dizer. Achei que qualquer coisa que eu falasse iria soar como palavras ao vento, como você dizer a alguém que está morrendo de câncer que tudo vai ficar bem. Mas alguma coisa em mim - e poderia ser simplesmente uma postura compassiva - queria dizer àquela mulher que as coisas não iriam acabar assim. As coisas não podiam acabar assim.

A única coisa que eu fiz foi tocar seu braço nu, arrepiado pelo frio, e balançar a cabeça, com cara de idiota: - Essa cova vai acabar ficando vazia... Eu vou fazer o possível para localizar seu outro filho e trazê-lo de volta. - Você promete? - ela perguntou, e um rápido lampejo, como um flash fotográfico, brilhou em seu rosto. Sem outra opção, acabei prometendo.

-

Ao ultrapassar a porta do necrotério, é como se a gente estivesse entrando em outra dimensão: o burburinho da rua e da sala de recepção cessam repentinamente, como se o silêncio da morte fosse mais denso e isolasse com um manto de lã de vidro o mundo exterior. Eu estava usando sapatos com solado de borracha, mas ouvia nitidamente meus passos no corredor. Na sala de necropsia, a mesa era ocupada por um homem branco, de barba, corpo peludo, com um nada discreto buraco de bala no meio da testa. O cadáver ainda não havia sido aberto e a mesa de espera estava vaga; portanto, o menino encontrado na cloaca provavelmente acabara de ser necropsiado e estava em alguma das oito geladeiras. Só não entendi por que os prováveis familiares não tinham sido chamados para reconhecimento, se o corpo já havia sido liberado. Afundei mais um pouco no ambiente e cheguei à sala dos médicos. O legista de plantão era o velho Fontana, companheiro de copo e dono de um sarcasmo mortal, sem qualquer trocadilho com sua atividade. Fontana estava debruçado sobre a prancheta, com a folha de relatório em branco, mas não escrevia nada. As mãos estavam sobre as pernas, que tinham sido puxadas para baixo da cadeira. Os olhos fixos no papel, com os óculos de lentes grossas, ele parecia procurar alguma entrelinha no papel em branco. Não pareceu perceber minha entrada.

Dei duas pancadinhas no batente da porta, leves o bastante para não assustá-lo, mas audíveis o suficiente para despertá-lo se por acaso ele tivesse adormecido. Ele ergueu a cabeça, olhou-me com os olhos cansados por cima dos óculos e deu um sorriso que mal mexeu na estrutura do bigode. - Grande Marlowe! - ele suspirou, e voltou novamente os olhos para o papel em branco. Aproximei-me, puxei uma cadeira e me sentei de frente para ele, fazendo um barulho que soou exagerado para o ambiente. - Você me parece desanimado - provoquei. - Eu estou velho, - disse - não tenho mais aquela disposição para encarar os grandes desafios. Por isso, estou me sentindo impotente: porque sei que estou diante de um grande desafio e não tenho a menor disposição de encará-lo. Eu não fazia a mínima ideia do que ele estava falando. Por isso, fiquei calado e deixei que ele continuasse. - Eu queria ter de novo meus trinta e poucos anos... Eu era idealista, cheio de energia. Perspicaz, minha mente vivia sintonizada. Você se lembra daquele cara que matou os tios e a gente conseguiu pegá-lo por causa daquela gotinha de sangue na gola da camisa? E numa época em que ainda nem existia exame de DNA? Concordei com a cabeça, mas senti que minha expressão começava a ficar carregada de preocupação. Onde diabos ele queria chegar? - Naquele tempo eu me entusiasmava com qualquer coisa - Fontana continuou. - Desvendar um crime era um desafio que me dava prazer, embora essa nem fosse a minha obrigação. E hoje, pouco mais de vinte anos depois, o que eu sou? Um velho burocrata, que vive de abrir cadáveres do púbis ao esterno, coletando amostras de vísceras, medindo a extensão de hematomas subdurais e descrevendo ferimentos pérfuro-contusos. Tudo sempre igual, burocraticamente.

-

Perdi alguns instantes na dúvida entre ir ou não ir, e quando me decidi dei uma ligeira olhada para trás, na direção do banco onde a irmã de Sinésio costumava fazer plantão, e foi nesse momento que eu a vi. Do outro lado, distante, vindo pela Visconde de Ouro Preto, ela parecia mais desgrenhada e suja do que da outra vez. Carregava uma sacola de papel, dessas usadas antigamente pelas lojas de roupas para o transporte das compras. Caminhava pela calçada do lado esquerdo da rua, vagarosamente, às vezes dando a impressão de que iria parar. Fiz meia volta e recomecei a atravessar a praça. Fiz o caminho inverso a passos largos, para ver se minha chegada coincidia com a dela, mas a distância parecia maior do que quando fiz o caminho de ida. Do outro lado, a mais de cem metros de mim, a mulher parou para atravessar a rua. Olhou para os dois sentidos da Visconde de Ouro Preto, segurou a sacolinha de papel com as duas mãos e começou a travessia, da maneira menos lógica possível: de uma quina do cruzamento ao vértice diametralmente oposto, como se estivesse atravessando duas ruas ao mesmo tempo. Mas só mais tarde eu me dei conta de que ela estava fazendo uma travessia doida, talvez digna do grau de compreensão de seu cérebro. Só mais tarde também eu notei que aquele Corcel branco sem os faróis deu a partida no momento em que ela começava a fazer sua travessia louca. Demorei para perceber as coisas e, apesar de saber que nada poderia ter feito para evitar, culpei a lentidão de meu raciocínio pelo que aconteceu

A irmã de Sinésio estava exatamente no centro do quadrado imaginário formado pelo cruzamento das duas ruas quando o Corcel a atingiu. Eu não percebi que ela seria atropelada: só o barulho da pancada e o som do que parecia um galho de árvore raspando na lataria por baixo do carro é que me fizeram juntar as várias cenas e compreender finalmente o enredo. O bluft ruidoso das rodas do Corcel esmagando os ossos dela foi o sinal que faltava para fechar o circuito. O para-choque do veículo atingiu a mulher na altura das coxas e a jogou para baixo, passando por cima dela como um cortador de grama. Só ouvi o barulho de lataria e rodas contra o corpo mole; não ouvi um gemido ou um lamento ou um grito, mas ela ainda estava viva quando consegui me aproximar. Os olhos da mendiga oscilavam numa órbita curta, mantendo o céu nublado como zênite. Parece que queriam olhar para vários pontos simultaneamente, tentando capturar o máximo de vida num curto espaço de tempo. Ela continuava sem soltar um gemido e sua perna esquerda fazia pequenos movimentos convulsivos, como se estivesse concentrando a agonia de todo o resto do corpo. Um filete de sangue que saía pelo canto da boca transformou-se numa golfada vigorosa, com uma cor vermelha brilhante, paradoxalmente viva. O movimento de seus olhos foi ficando mais lento, sua respiração mais agitada e a perna com espasmos mais intercalados, mas ela continuava respirando quando uma ambulância saiu do quartel do Corpo de Bombeiros, a menos de trinta metros do cruzamento, para socorrê-la. Eles não levaram mais do que um minuto para instalar o imobilizador ortopédico e transferi-la para a maca, mas aí eu já tinha dúvidas se seu coração ainda batia. Enquanto seguia com os olhos a ambulância que descia gritando a Durval Melquíades de Souza, em direção ao Hospital Celso Ramos, percebi que apertava com força nas mãos a sacola de papel onde estavam as tralhas da irmã de Sinésio.

-

Ele balançou novamente a cabeça e se afastou de costas, sem fixar os olhos em mim mais do que três segundos. Meu principal descuido foi não achar estranho que, enquanto falava comigo, ele vagueava os olhos pelo salão - afinal, o que há de errado em um garçom olhar seguidamente para sua clientela, na hipótese de alguém querer fazer um pedido?

Um segundo descuido, mais primário, foi esquecer momentaneamente do espelho, até então mantido como principal referência de observação sobre tudo o que acontecia além das minhas costas. E o terceiro descuido não foi propriamente um descuido, mas falta de sensibilidade: não consegui entender que a celeridade com que Débora vinha vindo em minha direção, a expressão transtornada de seu rosto e as duas mãos colocadas repentinamente na cabeça significavam que algo de muito errado estava para acontecer.

De maneira que eu percebi isso da forma mais dolorida possível: meu choque de realidade começou com um trompaço na orelha esquerda, que me arremessou sobre o balcão, a boca batendo violentamente contra meu próprio copo. Senti o vidro quebrando-se de encontro aos meus dentes e o lábio superior partindo-se em dois, seguindo-se do contato com o gelado do uísque e a ardência do álcool.

Não tive tempo de pensar na integridade dos meus dentes, porque o cara que me bateu lançou-se pesadamente sobre minhas costas e me amarrou com os braços, tentando, ao que parece, enfiar-me pelo ralo da pia. Eu tentava escapar por instinto, porque ainda não havia assimilado totalmente o que estava acontecendo. E foi quase totalmente por instinto que eu escorreguei meu braço direito sob o peso do agressor, tateei por trás do balcão e empunhei a primeira garrafa que encontrei. Foi também instintivamente que eu tracei um arco com a garrafa na mão em direção à minha retaguarda e atingi meu oponente. Não foi um golpe forte o suficiente para derrubá-lo, mas eficiente para fazê-lo soltar-me e cambalear para trás.

Levei menos de dois segundos para esquadrinhar a cara do brutamontes, descobrir onde o havia atingido, virar-me novamente para o balcão, apanhar uma segunda garrafa e, desta vez, sim, acertá-lo como ele merecia. O ruído de seu corpo batendo no chão foi semelhante ao do Corcel passando por cima do corpo de Altina. Caído, como massa inerte e desconjuntada, deu para ver como ele era grande.

Mas eu nem pude admirar muito a minha obra, recuperar o fôlego ou tentar conter o sangue que brotava de minha boca: o grandalhão não estava sozinho. Mal tentei respirar fundo e um capanga surgiu por trás de duas prostitutas que assistiam à cena com cara de horror. Era baixinho, mas muito forte, com físico de carregador de sacaria no cais do porto; logo depois dele, vinha um mulato alto e magro, com bigodinho fino, e eu juro que não reparei nesses dois durante todo o tempo em que me mantive alerta. Eles vinham cheios de razão e eu não tive outra alternativa: a Beretta dourada brilhou na luz fraca do Avarandado quando eu a enfiei no meio dos olhos do baixinho.

Houve um oooh! geral e os murmúrios cessaram. Só não se fez silêncio absoluto porque a maldita vitrola continuava despejando a maldita música sertaneja através de seu maldito alto-falante.

Débora veio chegando devagar, parecendo uma cadela que acabara de ser chutada. Veio vacilante, mostrando um pano na mão e fazendo gestos de que pretendia limpar o sangue que eu nem sentia mais se estava saindo ou não. Fiz que sim com a cabeça e deixei que ela se aproximasse, mas não afastei o cano da Beretta da cara trêmula do estivador.

E é só disso que eu me lembro.

-

Quinze minutos depois, meio tonto por ficar seguindo com o olhar as estrias feitas na terra pelo arado, voltei ao casebre. Decididamente, não havia ninguém ali. Sobre a casa vizinha, eu ainda não tinha absoluta certeza de estar deserta, mas resolvi arriscar.

Um cão sonolento cruzou a rua no mesmo momento que eu, em sentido contrário. Chacoalhou a cabeça para espantar as moscas e abanou o rabo amistosamente para mim, como um desconhecido que nos cumprimenta na rua por hábito. Tinha a aparência de quem estava suportando um calor de trinta e cinco graus, embora a temperatura naquela manhã fosse agradável. Ao longe, em direção ao pequeno oásis no meio da terra arada, um bando de pássaros em formação gritou alvoroçado. Tirando o cão modorrento e a esquadrilha barulhenta, o resto do mundo estava em silêncio. Mas dizem que os momentos que antecederam a destruição de Pompeia também pareciam estagnados, em suspenso.

Destorci cuidadosamente o arame que, preso a uma argola metálica que antes deveria servir de gancho a um cadeado, segurava a velha porta em contato com o batente. Foi um trabalho lento, porque procurei usar apenas uma das mãos: a outra mantinha-se crispada o mais perto possível da pistola, ainda enfiada na cintura, já que não seria conveniente mantê-la ostensivamente à vista de quem passasse pela rua. Depois de desatar a última volta do arame, dei uma derradeira sondada ao redor, para garantir que continuava solitário em minha atividade, respirei fundo, empunhei a arma e empurrei suavemente a porta. Um rangido profundo e grave acompanhou o primeiro passeio cuidadoso de meus olhos pelo interior da tapera.

A luz do sol filtrava-se pelas inúmeras frestas no telhado e deixava o ambiente interno parcialmente claro. Por isso, o susto: vi rapidamente que, apesar do aspecto de casa abandonada, havia alguém lá dentro. Alguém dormia num colchonete esparramado no canto esquerdo oposto à porta. E dormia profundamente, porque não despertou com o barulho produzido pela minha invasão.

Fiquei alguns instantes sem saber o que fazer: voltar de costas pelo caminho que começara a trilhar, pisando os mesmos passos e fingindo que nem estivera lá, ou chutar o balde, enquadrar o desconhecido e mostrar claramente quem eu era e o que estava buscando? Rapidamente, antes que me arrependesse, optei pela segunda alternativa: engatilhei a pistola, retesei o braço e cobri os metros que me separavam do colchonete andando de lado, vagarosamente como um caranguejo preguiçoso. Eu tomava o máximo cuidado para não fazer barulho, para não ser surpreendido antes de surpreendê-lo, mas estava com os sentidos tão aguçados que poderia ouvir os olhos dele abrindo-se.

Com o cano da arma quase encostando em sua orelha e os olhos fixos em sua cabeça, cutuquei-o com o bico do sapato, mas ele não reagiu. Repeti o chacoalhão, com mais força, usando o lado de fora do pé, mas ele continuou inerte. Sem tirar os olhos de sua cabeça e sem mover um milímetro da mira da pistola, joguei uma e depois a outra perna por sobre o colchonete e fiquei de frente para o desconhecido que dormia. Só então percebi por que ele não acordara: seus dois olhos estavam abertos, um pedaço da língua insinuava-se por entre os lábios crispados, e a ponta de uma corda de náilon emergia debaixo do cobertor, depois de cumprir duas voltas ao redor de seu pescoço.

Ele não devia ter mais do que quinze anos...

-

Foi um golpe só contra a janela, e o barulho foi melhor do que eu esperava. Talvez tenha sido apenas uma reação do ar frio do lado de fora contra o ar quente de dentro da sala, mas foi como uma explosão de estilhaços de vidro, como se duzentos copos quebrassem-se ao mesmo tempo, numa sinfonia de efeitos especiais capaz de assustar até os frequentadores do Bar do Alemão.

O melhor veio depois, quando o informante meteu sua cara de parvo porta adentro e eu desferi o golpe calculado: do bigode para cima, valia tudo. O choque do cortador contra a cabeça dele fez um barulho semelhante ao de um ovo espatifando-se no chão e ele caiu para trás com estrondo, sem direito a tentar levantar-se: do jeito que caiu, ficou.

Ainda um pouco trêmulo pela dose de adrenalina no sangue, despenquei escada abaixo saltando de quatro em quatro degraus. Eu não sabia quanto tempo tinha até a chegada do delegado, ou dos capangas de Ambrósio. Qualquer segundo, portanto, podia ser a diferença entre cair ou não no alçapão.

Passei rapidamente pela sala do plantão, mas não encontrei a Beretta: o policial deve tê-la guardado num lugar mais seguro, ou até mesmo levado com ele. Tudo bem, eu não teria tempo de procurá-la! A partir dali eu teria de resolver o que fazer: voltar para casa, buscar uma outra arma, continuar na mão limpa... O detalhe é que eu precisava resolver isso fora dali, caso contrário não adiantaria nada fazer planos. De que serviria o planejamento se eu estivesse preso? Ou morto?

Meu tempo entre o golpe no bigodudo e a passagem pela sala do plantão não passou de trinta segundos. Ótimo: era o suficiente para escapar sem que alguém visse sequer meu vulto esgueirando-se na escuridão. Pelos meus cálculos, eu teria tempo suficiente para estar a pelo menos um quilômetro da delegacia antes que qualquer um dos indesejáveis visitantes chegasse.

Mas calculei mal: assim que abri a porta para a liberdade, alguma coisa pesada acertou-me na nuca e senti uma espécie de choque elétrico percorrer toda minha espinha e chicotear no cóccix. Com a força do impacto, fui obrigado a experimentar com a boca o gosto do mato que brotava no cercadinho de tijolos onde deveria existir um jardim.

-

Eu estava, em essência, na mesma situação que me obrigara a me meter naquele matagal: eu não tinha saída e por isso tinha de arriscar. Corria o risco de ser recapturado se o dia clareasse, mas talvez nem visse o dia clarear se prosseguisse. Qual risco era maior? Em que circunstância eu deveria apostar?

Aquele ferimento ardia! Eu estava paralisado, mas o sangue, não! Deviam estar jorrando pelo menos vinte litros por segundo. Pensei em arrancar a camisola e amarrá-lo em volta da perna, numa espécie de torniquete para deter a hemorragia, mas como fazer isso? Eu parecia um cão sarnento prestes a morrer: parado nas quatro patas, esperando a última bombada do coração, com os olhos mortiços olhando para nada. A diferença era que eu ainda olhava para alguma coisa: a escuridão.

Abandonei a ideia do torniquete também por outro motivo: não me agradaria ser encontrado morto nu, com um pedaço de pano amarrado na coxa. Como ficaria o patrimônio moral que demorei anos para erigir?

O diabo é que a escuridão persistia. Eu sabia da relatividade do tempo, de como as coisas acontecem mais rapidamente quando estão sendo prazerosas, mas eu devia estar pelo menos dezesseis horas parado no meio daquele matagal, praticamente seco de sangue, cercado de animais daninhos, quase desmaiando, e nada de o dia nascer!

Quase desmaiando... Foi ruim ter pensado nisto, porque só então me ocorreria que eu não teria resistência física para permanecer muito tempo consciente. Eu estava sedado, e provavelmente a droga estava em evolução dentro de meu organismo, porque cada vez mais eu sentia vontade de parar e esperar a morte chegar. E estava ferido, profundamente ferido. Estava perdendo muito sangue. E todos sabemos o que acontece quando alguém perde muito sangue. Eu já chegara a pensar mais de uma vez que meu atestado de óbito poderia acusar choque hipovolêmico como causa de minha morte, se acaso um dia eu morresse, mas nunca me ocorrera que poderia ser naquelas circunstâncias...

*

AS COVAS GÊMEAS
AUTOR Marco Antonio Zanfra
EDITORA Brasiliense
QUANTO R$ 42,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

 
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