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24/02/2014 - 14h24

Leia trecho de 'Os Inimigos Íntimos da Democracia'

da Livraria da Folha

Em "Os Inimigos Íntimos da Democracia", Tzvetan Todorov examina sintomas da corrosão do regime democrático no mundo, como o discurso das guerras humanitárias e o uso da palavra "liberdade" por partidos de extrema direita de diversos países da Europa.

Todorov, autor de "Goya à Sombra das Luzes", "A Gramática do Decameron", "A Literatura em Perigo" e "O Medo dos Bárbaros", é professor e pesquisador do Centro de Pesquisa das Artes e da Linguagem e do Centro de Linguagem da Escola de Altos Estudos Sociais. Ele lecionou em universidades dos EUA, como Yale, Harvard, Columbia e Califórnia-Berkeley.

Abaixo, leia um trecho de "Os Inimigos Íntimos da Democracia".

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1. O mal estar na democracia

OS PARADOXOS DA LIBERDADE

Divulgação
Tzvetan Todorov argumenta que há uma corrosão da democracia no mundo contemporâneo
Todorov argumenta que há uma corrosão mundial da democracia

A questão da liberdade irrompeu muito cedo em minha vida. Até os meus 24 anos, eu vivia num país de regime totalitário, a Bulgária comunista. É verdade que a primeira coisa da qual todos se queixavam ao meu redor era a penúria, a dificuldade de obter tanto os produtos básicos quanto os pequenos "extras" que dão sabor à existência, quer se trate de alimento, roupas, objetos de toalete ou de mobiliário. A falta de liberdade, porém, vinha imediatamente depois. Os dirigentes do país exerciam controle sobre incontáveis atividades apoiando-se numa miríade de organizações - profissionais, por bairro, por faixa etária -, assim como no aparelho do partido, na polícia e na polícia política denominada Segurança de Estado. Toda a nossa existência era vigiada, o menor desvio em relação à linha imposta corria o risco de ser denunciado. Isso, evidentemente, incluía todos os domínios que podiam ter relação com os princípios políticos proclamados, desde a literatura e as ciências humanas até as instituições públicas. Mas a eles se acrescentavam aspectos mais neutros da existência, sobre os quais era difícil imaginar, em outras circunstâncias, que pudessem assumir uma significação ideológica: a escolha de um local de residência ou de uma profissão, e até de coisas tão aparentemente fúteis quanto as preferências por esta ou aquela roupa. O uso de uma minissaia, de uma calça muito justa (ou, ao contrário, larga demais) era severamente punido. Na primeira vez, isso podia levar você à delegacia policial e lhe valer uns tapas; em caso de reincidência, a um campo de "reeducação", de onde não se podia ter certeza de sair com vida.

Sofria se dessa ausência de liberdade menos ou mais intensamente, segundo a necessidade que se sentia dela. Eu era então um jovem curioso, morador da capital; estudava letras modernas, preparava me para uma profissão intelectual, de professor ou de escritor. Claro, a palavra "liberdade" era lícita e até valorizada, mas, como os outros ingredientes da propaganda oficial, servia para dissimular - ou preencher - uma ausência: à falta da coisa, tinha se a palavra. Aqueles que desejavam participar da vida pública sem se tornarem servos do dogma viam se levados a praticar uma variante daquela "esquecida arte de escrever" de que fala Leo Strauss, a língua de Esopo: não dizer, mas insinuar - um jogo sutil no qual também se podia sair perdendo. No meu caso, eu era muito sensível à falta de liberdade de expressão, que também corroía aquilo que a fundamenta: a liberdade de pensamento. Eu tinha assistido - em silêncio! - a várias humilhações públicas de pessoas cujo comportamento havia sido considerado excessivamente desviante em relação ao modelo imposto, e esperava conseguir me poupar de tais sessões de "crítica" sem trair minhas convicções.

Ao longo do último ano que passei na Bulgária antes de deixá la, recém-saído da universidade, dei alguns passos tímidos na vida pública, escrevendo para jornais. Sentia me particularmente orgulhoso quando tinha a impressão de haver conseguido contornar a censura onipresente. Por ocasião de uma festa nacional, encarregaram me de preparar uma página dupla em um jornal. Resolvi evocar alguns heróis falecidos da resistência antifascista, que haviam combatido a tirania: personagens de virtudes incontestáveis. O truque consistia em falar do presente sob o pretexto de evocação do passado, em lembrar que é preciso lutar pela liberdade. Este, aliás, foi o título que escolhi para aquelas páginas: "Pela liberdade!". Várias pessoas, me lembro, notaram essa publicação e, compreendendo a alusão ao presente, me felicitaram pela minha esperteza... Tais eram as ridículas vitórias das quais se orgulhava, na época, um jovem autor búlgaro. Em todo caso, a liberdade era para mim o valor mais prezado.

Darei agora um salto de 48 anos à frente, para chegar à Europa de hoje. E para constatar, com uma mescla de perplexidade e inquietação, que a palavra "liberdade" nem sempre é associada a iniciativas que acolhem meu assentimento. De fato, neste início do ano de 2011, o termo parece ter se tornado um nome de marca dos partidos políticos de extrema direita, nacionalistas e xenófobos: Partido da Liberdade, nos Países Baixos, cujo chefe é Geert Wilders; Partido Austríaco da Liberdade, que Jörg Haider dirigiu até sua morte. A Liga do Norte, de Umberto Bossi, apresenta seus candidatos às eleições italianas sob o nome de Liga do Povo da Liberdade, juntando se assim ao Povo da Liberdade de Berlusconi. A onda de reações antimuçulmanas e antiafricanas na Alemanha, consecutiva ao sucesso de um livro assinado por Thilo Sarrazin, levou à criação de um partido inspirado nas ideias deste último; seu nome é Die Freiheit, a liberdade; o programa anuncia: "Lutar contra a islamização rastejante da Europa". Na Ucrânia, desde 1995 existe um partido nacionalista chamado Svoboda, liberdade, que milita contra as influências externas - russa ou ocidental - e contra a presença de estrangeiros. Seu slogan é "A Ucrânia para os ucranianos". Essa prática persiste desde o fim do século XIX, época em que foi fundado o órgão de imprensa do antissemitismo francês, dirigido por Édouard Drumont, e que se chamava La libre parole.

Portanto, num primeiro momento eu tinha acreditado que a liberdade era um dos valores fundamentais da democracia; agora percebo que certo uso da liberdade pode representar um perigo para a democracia. Haveria aí um indício de que, hoje, as ameaças que pesam sobre ela não vêm do exterior, da parte daqueles que se apresentam como seus inimigos, mas sobretudo de dentro, de ideologias, movimentos ou gestos que alegam defender os valores democráticos? Ou de que os valores em questão nem sempre são bons?

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OS INIMIGOS ÍNTIMOS DA DEMOCRACIA
AUTOR Tzvetan Todorov
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 35,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

 
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