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19/04/2014 - 16h00

Livro reúne contos de Lygia Fagundes Telles

da Livraria da Folha

Lalo de Almeida/Folha Imagem
Autora Lygia Fagundes Telles
Lygia Fagundes Telles nasceu em 19 de abril de 1923, em São Paulo

Nascida em São Paulo no dia 19 de abril de 1923, Lygia Fagundes Telles é considerada pela crítica uma das mais importantes escritoras brasileiras. Publicou seu primeiro livro de contos, "Porão e Sobrado", ainda na adolescência. O primeiro romance, "Ciranda de Pedra", foi lançado em 1954.

Monte sua estante com obras de Lygia Fagundes Telles

Estudou direito e educação física. Entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1985. 20 anos depois recebeu o Prêmio Camões, o mais importante da literatura de língua portuguesa.

"Pomba Enamorada e Outros Contos" reúne "Antes do Baile Verde", "A Caçada", "O Jardim Selvagem", "Natal na Barca", "A Ceia", "Venha Ver o Pôr-do-Sol", "As Pérolas", "O Menino", "As Formigas", "Tigrela", "Herbarium", "Pomba Enamorada ou Uma História de Amor", "Lua Crescente em Amsterdã", "A Estrutura da Bolha de Sabão", "História de Passarinho" e "Dolly".

Abaixo, leia um trecho do exemplar.

*

ANTES DO BAILE VERDE

Divulgação
Com "Antes do Baile Verde", tornou-se uma das contistas mais expressivas do Brasil
Contos leem-se as transformações que afetaram a classe média

O rancho azul e branco desfilava com seus passistas vestidos à Luís XV e sua porta-estandarte de peruca prateada em forma de pirâmide, os cachos desabados na testa, a cauda do vestido de cetim arrastando-se enxovalhada pelo asfalto. O negro do bumbo fez uma profunda reverência diante das duas mulheres debruçadas na janela e prosseguiu com seu chapéu de três bicos, fazendo rodar a capa encharcada de suor.

- Ele gostou de você - disse a jovem, voltando- se para a mulher que ainda aplaudia. - O cumprimento foi na sua direção, viu que chique?

A preta deu uma risadinha.

- Meu homem é mil vezes mais bonito, pelo menos na minha opinião. E já deve estar chegando, ficou de me pegar às dez na esquina. Se me atraso, ele começa a encher a caveira e pronto, não sai mais nada.

A jovem tomou-a pelo braço e arrastou-a até a mesa-de-cabeceira. O quarto estava revolvido como se um ladrão tivesse passado por ali e despejado caixas e gavetas.

- Estou atrasadíssima, Lu! Essa fantasia é fogo... Tenha paciência, mas você vai me ajudar um pouquinho.

- Mas você ainda não acabou?

Sentando-se na cama, a jovem abriu sobre os joelhos o saiote verde. Usava biquíni e meias rendadas também verdes.

- Acabei o quê! falta pregar tudo isso ainda, olha aí... Fui inventar um raio de pierrete dificílima! A preta aproximou-se, alisando com as mãos o quimono de seda brilhante. Espetado na carapinha trazia um crisântemo de papel crepom vermelho.

Sentou-se ao lado da moça.

- O Raimundo já deve estar chegando, ele fica uma onça se me atraso. A gente vai ver os ranchos, hoje quero ver todos.

- Tem tempo, sossega - atalhou a jovem. Afastou os cabelos que lhe caíam nos olhos. Levantou o abajur que tombou na mesinha. - Não sei como fui me atrasar desse jeito.

- Mas não posso perder o desfile, viu, Tatisa? Tudo, menos perder o desfile!

- E quem está dizendo que você vai perder?

A mulher enfiou o dedo no pote de cola e baixou-o de leve nas lantejoulas do pires. Em seguida, levou o dedo até o saiote e ali deixou as lantejoulas formando uma constelação desordenada.
Colheu uma lantejoula que escapara e delicadamente tocou com ela na cola. Depositou-a no saiote, fixando-a com pequenos movimentos circulares.

- Mas se tiver que pregar as lantejoulas em todo o saiote...

- Já começou a queixação? Achei que dava tempo e agora não posso largar a coisa pela metade, vê se entende! Você ajudando vai num instante, já me pintei, olha aí, que tal minha cara? Você nem disse nada, sua bruxa! Hein?... Que tal?

- Ficou bonito, Tatisa. Com o cabelo assim verde, você está parecendo uma alcachofra, tão gozado. Não gosto é desse verde na unha, fica esquisito.

Num movimento brusco, a jovem levantou a cabeça para respirar melhor. Passou o dorso da mão na face afogueada.

- Mas as unhas é que dão a nota, sua tonta. É um baile verde, as fantasias têm que ser verdes, tudo verde. Mas não precisa ficar me olhando, vamos, não pare, pode falar, mas vá trabalhando. Falta mais da metade, Lu!

- Estou sem óculos, não enxergo direito sem os óculos.

- Não faz mal - disse a jovem, limpando no lençol o excesso de cola que lhe escorreu pelo dedo.

- Vá grudando de qualquer jeito que lá dentro ninguém vai reparar, vai ter gente à beça. O que está me endoidando é este calor, não agüento mais, tenho a impressão de que estou me derretendo, você não sente? Calor bárbaro!

A mulher tentou prender o crisântemo que resvalara para o pescoço. Franziu a testa e baixou o tom de voz.

- Estive lá.

- E daí?

- Ele está morrendo.

Um carro passou na rua, buzinando freneticamente. Alguns meninos puseram-se a cantar aos gritos, o compasso marcado pelas batidas numa frigideira: A coroa do rei não é de ouro nem de prata...

- Parece que estou num forno - gemeu a jovem, dilatando as narinas porejadas de suor. - Se soubesse, teria inventado uma fantasia mais leve.

- Mais leve do que isso? Você está quase nua, Tatisa. Eu ia com a minha havaiana, mas só porque aparece um pedaço da coxa o Raimundo implica. Imagine você então...

Com a ponta da unha, Tatisa colheu uma lantejoula que se enredara na renda da meia. Deixou- a cair na pequena constelação que ia armando na barra do saiote e ficou raspando pensativamente um pingo ressequido de cola que lhe caíra no joelho. Vagava o olhar pelos objetos, sem fixar-se em nenhum. Falou num tom sombrio:

- Você acha, Lu?

- Acha o quê?

- Que ele está morrendo?

- Ah, está sim. Conheço bem isso, já vi um monte de gente morrer, agora já sei como é. Ele não passa desta noite.

- Mas você já se enganou uma vez, lembra? Disse que ele ia morrer, que estava nas últimas... E no dia seguinte ele já pedia leite, radiante.

- Radiante? - espantou-se a empregada. Fechou num muxoxo os lábios pintados de vermelho- violeta. - E depois, eu não disse não senhora que ele ia morrer, eu disse que ele estava ruim, foi o que eu disse. Mas hoje é diferente, Tatisa. Espiei da porta, nem precisei entrar para ver que ele está morrendo.

- Mas quando fui lá ele estava dormindo tão calmo, Lu.

- Aquilo não é sono. É outra coisa.

Afastando bruscamente o saiote aberto nos joelhos, a jovem levantou-se. Foi até a mesa, pegou a garrafa de uísque e procurou um copo em meio da desordem dos frascos e caixas. Achou-o debaixo da esponja de arminho. Soprou o fundo cheio de pó-de-arroz e bebeu em largos goles, apertando os maxilares. Respirou de boca aberta. Dirigiu- se à preta.

- Quer?

- Tomei muita cerveja, se misturo dá ânsia.

A jovem despejou mais uísque no copo.

- Minha pintura não está derretendo? Veja se o verde dos olhos não borrou... Nunca transpirei tanto, sinto o sangue ferver.

- Você está bebendo demais. E nessa correria... Também não sei por que essa invenção de saiote bordado, as lantejoulas vão se desgrudar todas no aperto. E o pior é que não posso caprichar, com o pensamento no Raimundo lá na esquina...

- Você é chata, não, Lu? Mil vezes fica repetindo a mesma coisa, taque-taque-taque-taque! Esse cara não pode esperar um pouco?

A mulher não respondeu. Ouvia com expressão deliciada a música de um bloco que passava já longínquo. Cantarolou em falsete: Acabou chorando... acabou chorando...

Texto baseado em informações fornecidas pela editora/distribuidora da obra.

 
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