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23/04/2014 - 12h35

'Medida por Medida', de Shakespeare, debate a corrupção e o abuso de poder

da Livraria da Folha

"Medida por Medida", uma peça de William Shakespeare com quatro séculos de existência, debate a corrupção, a justiça e o abuso de poder.

Considerado como o maior autor de língua inglesa e um dos mais influentes do mundo, Shakespeare é autor de "Hamlet", "Romeu e Julieta", "Otelo", "A Megera Domada", "Ricardo III", "O Rei Lear" e "MacBeth". Ele escreveu 38 peças, 154 sonetos e uma diversidade de poemas. Shakespeare nasceu em 23 de abril de 1564.

O espanhol Miguel de Cervantes Saavedra e o inglês William Shakespeare morreram no mesmo dia, em 23 de abril de 1616. Separados apenas geograficamente, a data é tida como a coincidência mais triste da literatura mundial.

A edição traz apresentação de Ivo Barroso e tradução de Beatriz Viégas-Faria. Abaixo, leia um trecho.

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Divulgação
Shakespeare aborda conceitos de justiça, corrupção, abuso do poder e castidade
Shakespeare aborda conceitos de justiça, corrupção e abuso do poder

PRIMEIRO ATO

Cena I
Entram o Duque, Éscalo, Lordes.

Duque - Éscalo.

Escalo - Milorde.

Duque - Eu mesmo lhe informar quais as propriedades inerentes ao governo pareceria em mim um gesto afetado de fala e de discurso, posto que sou obrigado a reconhecer que o seu conhecimento do assunto é superior às limitações de quaisquer conselhos que lhe possa oferecer a minha capacidade. Assim é que nada mais resta a fazer: agora é deixar que a sua aptidão natural se apoie na autoridade de seu cargo, e que uma com a outra possam se equilibrar. O senhor tem plena ciência da natureza do nosso povo, das leis e dos costumes instituídos de nossa cidade e também dos termos segundo os quais fazemos justiça, pois o senhor, mais que qualquer outra pessoa, nisso amealhou experiência teórica e prática. Eis aqui o nosso documento de procuração, e desses itens não desejamos que o senhor se desvie. - Chame até aqui, ou melhor, peça a Ângelo que venha à nossa presença.

[Sai um Lorde.]

Que personificação de nós o senhor pensa que ele vai apresentar? Como o senhor deve estar sabendo, foi com especiais cuidados de nossa alma que elegemos Ângelo para suprir nossa ausência, para tomar emprestado de nós o poder de aterrorizar, para vestir-se com a indumentária de nossos melhores sentimentos; e para colocar à disposição da regência dele todo o aparato do nosso próprio governo. O que o senhor pensa disso?

Escalo - Se existe alguém em Viena que seja merecedor de levar nos ombros tão largas honras e benesses, esse alguém é Lorde Ângelo.

Entra Ângelo.

Duque - Veja, aí vem ele.

Ângelo - Sempre atendendo às ordens de Vossa Graça, chego para saber o que deseja.

Duque - Ângelo, tem uma espécie de indício na tua vida que, para um observador, revela, põe a nu tua história. Tua pessoa e tuas qualidades não te pertencem; não a ponto de poderes desperdiçar tua pessoa aperfeiçoando tuas virtudes ou desperdiçar tuas virtudes aperfeiçoando tua pessoa. Os céus nos usam assim como nós usamos as tochas: não as acendemos para que se iluminem a si mesmas. Se as nossas virtudes não emanassem de nós, seria o mesmo que se não as tivéssemos. O espírito não se deixa afetar por finas emoções senão em prol de finas causas. Do mesmo modo, a Natureza não empresta nem mesmo a menor partícula de talento se não for para, como uma deusa frugal, reivindicar para si mesma a glória devida aos credores: os agradecimentos e os juros. Mas por que estou espichando meu discurso para quem saberia falar melhor que eu sobre governar em meu lugar? Calma, Ângelo, me ouve: em nossa ausência, que sejas tu o nosso substituto em todos os aspectos. A morte e a misericórdia passam a viver na tua fala e no teu coração. O velho Éscalo, embora seja o primeiro a ser levado em consideração, é teu segundo. Recebes agora o teu mandato.

Ângelo - Mas, generoso milorde, deixemos que seja posto à prova o metal de que sou feito antes que nele se grave a estampa de figura tão nobre e tão grandiosa.

Duque - Nenhum subterfúgio será aceito. Chegamos ao seu nome por meio de uma escolha ponderada e amadurecida; portanto, receba agora as honras a que você tem direito. Nossa pressa em partir é de natureza de tal modo urgente que tem prioridade sobre todo o resto e deixa em segundo plano questões que nos demandam atenção. Escreveremos para você a fim de dar notícias tão logo o tempo e nossos afazeres o permitam, e ficarei atento ao que acontece aqui com você. Que tudo corra bem. Agora eu o deixo entregue ao auspicioso exercício de seu mandato.

Ângelo - Peço permissão, milorde, para acompanhá-lo um pedaço do caminho.

Duque - Minha pressa não me permite aceitar. E também você não precisa, em consideração a mim, ter qualquer dúvida ou hesitação. A sua liberdade de ação é igual à minha no que tange a aplicar ou abrandar a lei: faça o que lhe parecer bom à sua alma. Me dê a mão; estou saindo em segredo. Amo o meu povo, mas não gosto de me apresentar aos olhos do público. Embora sejam bons, não me agradam o aplauso estrepitoso e os veementes gritos de "Salve!", e penso que não têm muito discernimento os que se prestam a demonstrações dessa natureza. Mais uma vez: que tudo corra bem.

Ângelo - Que os céus concedam proteção a vossos propósitos.

Éscalo - Que o senhor viaje e retorne são e salvo e feliz.

Duque - Obrigado aos dois. Adeus.

[Sai.]

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MEDIDA POR MEDIDA
AUTOR William Shakespeare
EDITORA L&PM Pocket
QUANTO R$ 13,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

 
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