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14/05/2014 - 14h15

Livro examina as decisões que fizeram o Eixo perder a 2ª Guerra

da Livraria da Folha

"22 Dias: As Decisões que Mudaram o Rumo da Segunda Guerra Mundial" reconstrói os eventos que fizeram o Eixo, aparentemente imbatível, ser derrotado no maior conflito da história. Escrito por David Downing, o livro mistura relatos de soldados comuns com as estratégias das figuras políticas e militares mais importantes. O autor dedica um capítulo a cada dia desse período decisivo.

Consequência de interesses econômicos, conflitos ideológicos e um frágil equilíbrio diplomático que se estendia desde o fim da Primeira Guerra (1914-18), o confronto entre o Eixo -Alemanha, Itália e Japão- e os Aliados -liderados por Inglaterra, União Soviética e Estados Unidos- levou morte e destruição para quase todas as partes do planeta.

Abaixo, leia um trecho.

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Divulgação
Esses 22 dias selaram o destino da Segunda Guerra Mundial
Segundo o autor, 22 dias selaram o destino da Segunda Guerra Mundial

O tenente Kurt Gruman, da 87ª Divisão de Infantaria alemã, aproveitava outro claro dia de sol no campo a noroeste de Moscou. A miríade de arbustos e árvores cobertos de gelo e neve cintilante era "quase um conto de fadas", subvertido apenas pelo "amargo troar dos canhões" a distância. Durante o dia, ele e os camaradas conseguiam aguentar, mas à noite o frio começava a torturá-los.

A temperatura na região de Moscou caíra repentinamente por volta de 7 de novembro e parecia provável que sofresse mais quedas acentuadas de tantos em tantos dias. Agora o movimento de veículos era possível na estrada e fora dela, mas só por um período limitado; a neve pesada de dezembro se mostraria uma desvantagem tão grande para a mobilidade quanto a lama do final do outono. E, em todos os outros aspectos, a chegada do inverno era má notícia para os alemães. O Exército deles não fora equipado para operar naquelas temperaturas. Armas, tanques e caminhões e até os trens, todos se esforçavam para funcionar, enquanto os soldados ainda vestiam gandolas de brim e botas de sola de aço que deixavam o frio passar. O fardamento de inverno estava supostamente a caminho, mas ninguém parecia saber quando chegaria. As geladuras rapidamente se tornaram comuns e começaram a circular histórias de sentinelas noturnas alemãs encontradas congeladas com a chegada da manhã.

O frio era quase o mesmo na sombria floresta da Prússia Oriental, quase mil quilômetros a oeste, mas os dois complexos especialmente construídos e ocupados pelo Führer, pelo seu séquito imediato e pelos que supostamente comandavam a campanha russa estavam bem aquecidos, e uma avaliação fiel das condições no campo de batalha exigiria imaginação ou boa vontade para escutar. Nenhuma das duas qualidades era muito visível em meados de novembro de 1941, quer no Wolfsschanze, quer no quartel-general do vizinho OKH (Oberkommando des Heeres, o Alto-Comando do Exército). Nos mapas na parede e na mesa, Moscou parecia irresistivelmente próxima, a apenas 80 quilômetros da linha de frente alemã, um tipo de distância que os panzers devorariam em dois ou três dias alguns meses antes. Percebia-se que as condições de novembro eram mais difíceis do que as de julho, mas o ímpeto da Operação Tufão em outubro rumo a Moscou fora retardado por problemas de suprimento e pela lama, não pelos russos. Agora que o terreno estava firme outra vez, sem dúvida seria possível um avanço de 80 quilômetros.

Hitler tomara a sua decisão e o OKH a transformara em um plano operacional. Em 12 de novembro, o general Franz Halder, chefe do estado-maior geral, embarcara no seu trem pessoal em Angerburg e viajara durante a noite até Orsha, onde o marechal de campo Fedor von Bock, comandante do Grupo de Exércitos Centro, mantinha o seu quartel-general. Os chefes de estado-maior de todos os exércitos e grupos de exércitos alemães na frente oriental tinham sido convocados para a conferência, realizada naquele dia em um desvio ao lado da estação da cidade. Muitos foram com esperança de debater a sensatez de uma nova ofensiva em 1941, mas se desapontaram. Os comentários e as perguntas foram bem-vindos, mas a decisão já fora tomada.

A apresentação de Halder foi pouco convincente. Ele enfatizou os pontos fracos do inimigo e supôs a falta de reservas, mas ele e a plateia sabiam, infelizmente, que as informações reais que tinham sobre os movimentos de tropas soviéticas a leste não iam muito além de Moscou. Halder também ignorou ou encobriu as dificuldades de suprimento e a falta de reservas do seu Exército. Quando o oficial de comando da Intendência protestou que os exércitos de Von Bock não poderiam ser providos a uma distância tão grande quanto a de Moscou, Halder aceitou os cálculos, mas insistiu que o OKH não gostaria "de ficar no caminho caso Bock ache que pode ter sucesso".

Acontece que Von Bock era o único aliado poderoso de Halder naquela reunião. Os chefes de estado-maior escutaram com incredulidade os avanços mínimo e máximo que Hitler e o OKH exigiam agora nas esperadas seis semanas da janela de oportunidade que haveria entre a lama e a neve funda. A linha máxima ia de Vologda a Stalingrado e passava por Gorki, 400 quilômetros além de Moscou; a mínima, menos ambiciosa mas ainda impressionante, ficava 170 quilômetros além da capital soviética.

Os chefes deram a sua opinião. Os Grupos de Exércitos Norte e Sul se opunham a qualquer nova ofensiva. O general Hans von Greiffenberg, chefe do estado-maior de Von Bock, recusou-se lealmente a excluir a possibilidade de avanço, mas foi veemente ao destacar as dificuldades. Os chefes de estado-maior dos três exércitos de infantaria e dos três grupos panzer que compunham o Grupo de Exércitos Centro despejaram o seu desdém pelos objetivos propostos. O mês não era maio e eles não combatiam na França, disse a Halder um oficial exasperado.

Não fez diferença. Halder distribuiu as ordens por escrito e a conferência terminou. Em 15 de novembro, a ala esquerda do Grupo de Exércitos Centro começaria o seu avanço, com a infantaria do 9º Exército do general Adolf Strauss se dirigindo para o leste para proteger o flanco esquerdo do 3º Grupo Panzer do general Georg-Hans Reinhardt que avançaria rumo a Klin e ao reservatório do Volga. Mais ao sul, o 4º Grupo Panzer do general Erich Hoepner atacaria o 30º Exército do general Konstantin Rokossovski nos dois lados da estrada de Volokolamsk que ia para Moscou. Na ala direita, as tropas alemãs precisavam de mais tempo de preparação, mas o 2º Exército e o 2º Exército Panzer estariam em movimento até 17 de novembro, o primeiro protegendo o flanco direito do segundo para dar a volta por trás de Moscou até o pretendido encontro com Reinhardt. Quase exatamente a oeste da capital soviética, o 4º Exército manteria a posição, imobilizando as tropas soviéticas que o enfrentavam enquanto os grupos panzer causassem o caos na sua retaguarda. Antes dera certo, e Halder e Von Bock se agarraram aos precedentes - talvez não por acreditarem que daria certo de novo, mas por ser horrível demais pensar nas alternativas.

Naquela manhã de 17 de novembro, as pontas de lança blindadas do 3º e do 4º Grupos Panzer abriram várias brechas nas linhas defensivas confiadas aos 30º e 16º Exércitos soviéticos. O general Gueorgui Jukov, no comando geral dos exércitos que defendiam Moscou, ordenara aos subordinados que fizessem ataques de sondagem às divisões de infantaria alemãs que os panzers tinham ultrapassado, na esperança de encontrar algum ponto vulnerável, qualquer coisa que retardasse a maré alemã que se acumulava. Uma dessas missões foi atribuída à 44ª Divisão de Cavalaria Mongol, que acabara de chegar de Tashkent, na Ásia Central.

O ponto escolhido para o ataque de sondagem foi um setor da frente cerca de 25 quilômetros ao norte de Volokolamsk, mantido pela 116ª Divisão de Infantaria alemã, com unidades de vanguarda espalhadas pela leve elevação que se estendia a leste das aldeias de Mussino e Partenkovo. Três baterias de artilharia estavam desdobradas entre elas.

O amanhecer estava bem enevoado, mas o sol logo dissipou a neblina e, às nove da manhã, os soldados alemães tinham visão clara do quilômetro e meio de campo polvilhado de neve que jazia à frente deles.

Por volta das dez horas, um observador avançado avistou cavaleiros do Exército Vermelho na floresta mais adiante, e as unidades de infantaria e artilharia alemãs ficaram alertas. Uma hora e meia depois, quatro tanques leves T-26 surgiram das árvores e avançaram lentamente pelo campo. Os alemães, acreditando que era apenas sondagem, não atiraram.

Depois de mais vinte minutos, uma grande tropa de cavalaria começou a sair da floresta, formando longas fileiras do outro lado do campo.

"Foi uma vista indescritivelmente bela", recordou mais tarde um soldado alemão, "aquela paisagem clara e ensolarada de inverno, estribo com estribo, curvados sobre o corpo dos cavalos e com sabres faiscantes nas mãos, o regimento de cavalaria veio em carga total pelo campo. Foi como se a era dos ataques mongóis tivesse voltado".

Outros alemães ficaram mais espantados do que extasiados: "Não dava para acreditar que o inimigo pretendia nos atacar através daquele terreno amplo que jazia aberto como um campo de parada diante de nós."

Mas atacou. Os artilheiros abriram fogo com os seus obuseiros de 105 milímetros e logo encontraram o alvo. Homens e cavalos explodiram em pedaços, espalhando sangue e carne rompida por sobre a neve branca. Cavalos em pânico corriam enlouquecidos pelo campo coberto de fumaça, os cavaleiros descartados eram presas fáceis das metralhadoras alemãs. Os que puderam deram meia-volta e fugiram.

De acordo com o segundo soldado alemão "era impossível imaginar que, depois da aniquilação dos primeiros esquadrões, aquela visão de pesadelo se repetiria". Mas se repetiu. A cavalaria soviética voltou a se formar para um segundo ataque, dessa vez apoiado por dois obuseiros de 76,2 milímetros com tração animal. Não fez diferença. Trezentas e cinquenta granadas de 105 milímetros caíram rasgando sobre armas e cavaleiros, forçando os sobreviventes a voltar ao abrigo das árvores. Centenas de soldados do Exército Vermelho morreram e nenhum alemão sofreu um arranhão sequer. Poucas vitórias, nessa ou em qualquer outra guerra, foram tão completas.

Ainda assim, naquela noite, amontoados para se aquecerem em qualquer abrigo que encontrassem, os soldados alemães perto de Mussino devem ter feito uns aos outros algumas perguntas profundamente incômodas. Que tipo de inimigo atacava em campo aberto brandindo espadas contra metralhadoras e obuseiros? Estúpidos? Ou dispostos a sacrificar vidas e mais vidas de um suprimento que parecia inexaurível? E se assim fosse, como vencer um inimigo desses? E o que aconteceria se chegasse o dia em que ele é que tivesse as melhores armas?

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22 DIAS
AUTOR David Downing
EDITORA Objetiva
QUANTO R$ 43,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

 
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