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17/09/2014 - 14h15

Leia trecho de 'Lutas de Castas', do livro 'Uma Nova História do Poder'

da Livraria da Folha

Em "Uma Nova História do Poder", o historiador David Priestland examina o embate e as alianças que determinam os valores e os rumos das nações. O autor se fundamenta na ideia de que três grupos disputam a supremacia em todas as sociedades: os comerciantes, os sábios e os guerreiros.

Nascido na Inglaterra, Priestland também assina "A Bandeira Vermelha", lançado em 2012 pela editora LeYa. O título narra a história de uma ideologia que se apresentou de diversas formas ao longo do tempo e quase se transformou em uma charada teórica.

Abaixo, leia trecho de "Uma Nova História do Poder".

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Lutas de castas

Divulgação
"Uma Nova História do Poder" apresenta uma anatomia dos momentos de crise
"Uma Nova História do Poder" traz uma anatomia das crises mundiais

Muitos turistas britânicos, fugindo do triste clima do seu país para os céus mais amenos do Mediterrâneo, talvez conheçam um pouco a região em torno da cidade de Cambrai, no norte da França. Seus campos, planos como pradarias, com plantações de milho e trigo, têm pouco para atrair o interesse dos que passam em alta velocidade pelas estradas rumo às paisagens mais dramáticas do sul. No entanto, por volta do ano 1000, esse cenário era digno de atenção, um lugar assustador e perigoso. Pois, tal como muitas terras do enfraquecido Sacro Império Romano-Germânico, Cambrai estava à mercê de bandos de guerreiros que atacavam a cavalo. Na ausência de uma autoridade central, esses bandidos cavaleiros lutavam contra os vizinhos e saqueavam os campos, protegidos por suas cidadelas fortificadas. Particularmente violento foi Walter de Lens, chefe do castelo de Cambrai, um cavaleiro belicoso e brutal, decidido a impor sua vontade e a de seu senhor, o conde de Flanders.

Quem poderia restaurar a ordem nessa região caótica? Dois séculos antes, Carlos Magno e seus sucessores tinham conseguido impor seu controle sobre uma vasta faixa da Europa, construindo uma burocracia rudimentar e firmado sua imagem (com a ajuda da Igreja) como representantes de Deus e, ao mesmo tempo, herdeiros de Roma. Mas desde aquela época o Império havia se fragmentado, e o domínio de seus sucessores, os reis da França, alcançava, no máximo, uma estreita área em torno de Paris. Em grande parte do norte da
França, os cavaleiros lutavam pela primazia. Um pouco como os chefes da Máfia hoje, esses "chefões" lutavam em batalhas com seus rivais disputando territórios, assistidos por suas "famílias", tanto as de parentesco como uma rede mais ampla de guerreiros. Analfabetos com muito orgulho, esses bandos de cavaleiros viviam segundo valores heroicos, bélicos.

Mas, enquanto os cavaleiros podiam exercer com ânimo sua vocação guerreira, para as demais pessoas a vida se tornou insuportavelmente penosa. A agricultura e o comércio sofriam, e até os nobres e reis descobriram que os constantes tumultos prejudicavam demais seus interesses. Na ausência de um rei poderoso, porém, quem poderia acabar com essa violência?

Pode parecer estranho para nós, mas naquele momento a única esperança real estava nas mãos da Igreja. O bispo local, Gerard, tal como muitos outros prelados, descendia de uma família aristocrática, e a Igreja explorava os camponeses, assim como faziam os cavaleiros. Mas, ao contrário dos cavaleiros, tinha um interesse especial em promover a paz, pois não possuía Forças Armadas próprias. O poder da Igreja era moral, e não militar, e sua principal arma era a ameaça do fogo do inferno por toda a eternidade por violar o quinto mandamento - "Não matarás".

Por volta de 1024, Gerard tinha convencido muita gente, inclusive o conde
de Flandres, de que o domínio irrestrito dos cavaleiros guerreiros estava destruindo a sociedade. Em um grande encontro na cidade de Douai, onde cada lado culpava o outro pelo caos e pela violência generalizada, Gerard, Walter de Lens e o conde chegaram a um acordo: a "paz de Deus" vigoraria desde quarta-feira à noite até segunda-feira de manhã, e durante esse período os ataques e saques seriam suspensos, e apenas os homens do rei seriam autorizados a empunhar armas. Os que desafiassem esse toque de recolher seriam excomungados pela Igreja, ou confinados a um mosteiro para expiação dos crimes. Gerard justificou esse tratado apelando para uma nova visão da sociedade; e ao fazer isso enunciou, pela primeira vez, uma ideia que seria fundamental no pensamento europeu posterior.

"Desde o início", declarou, "a humanidade foi dividida em três partes [...] homens de oração, agricultores e homens de guerra", e cada um deles tinha seu próprio dever particular - orar, trabalhar e lutar. Assim, Gerard aceitou que a guerra poderia ser legítima: os guerreiros eram necessários para defender os homens de oração e os do trabalho. Contudo, insistia ele, a sociedade só poderia tornar-se rica e justa se os cavaleiros aceitassem um contrato social implícito. Eles deveriam proteger os camponeses, e não saqueá-los; tinham de obedecer ao rei, e não desafiá-lo. O rei, por sua vez, precisava ouvir o conselho dos sábios-sacerdotes. Era uma máquina militar moral perfeita: os homens da violência, com as mãos banhadas em sangue, só podiam ser purificados pelas orações dos santos, e apenas quando estivessem puros sua vitória seria garantida.

[...]

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UMA NOVA HISTÓRIA DO PODER
AUTOR David Priestland
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 47,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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