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03/03/2015 - 20h30

Leia trecho de 'Linchamentos: A Justiça Popular no Brasil'

da Livraria da Folha

Escrito pelo sociólogo José de Souza Martins, "Linchamentos: A Justiça Popular no Brasil" busca as raízes profundas do justiçamento de rua no Brasil, um verdadeiro ritual de loucura coletiva.

Mestre, doutor e livre-docente em sociologia pela USP, José de Souza Martins assina, entre outros títulos, "Fronteira", "A Aparição do Demônio na Fábrica", "O Cativeiro da Terra" "Uma Sociologia da Vida Cotidiana" e "A Política do Brasil".

Abaixo, leia trecho de "Linchamentos: A Justiça Popular no Brasil".

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Divulgação
O Brasil está entre os países que mais lincham no mundo
O Brasil está entre os países que mais lincham no mundo, diz autor

Os dados que recolhi e examinei nesta pesquisa evidenciam que, nos últimos 60 anos, cerca de um milhão de brasileiros já participou de, pelo menos, um ato de linchamento ou de uma tentativa de linchamento. Em face do volume de casos ainda não incorporados ao banco de dados, eu me arriscaria a dizer que esse número pode chegar a um milhão e meio de participantes disseminados por quase todo o país. Esse número de participantes mostra que a crescente frequência dessas ocorrências já pode ser o resultado de um efeito multiplicador, o que se nota em municípios e bairros em que tendo ocorrido um linchamento, com facilidade ocorre outro. O veto da censura da consciência social ao justiçamento praticado pela multidão foi aparentemente levantado e sua prática está sendo incorporada como um fato natural na vida rotineira da sociedade, a justiça da rua disputando autoridade com a justiça dos tribunais. Esse número também confirma que o linchamento é hoje um componente da realidade social e vem perdendo sua eventual caracterização como fato anômalo e excepcional.

Nos cerca de 60 anos abrangidos pelos 2.028 casos que compõem o material desta pesquisa, 2.579 pessoas foram alcançadas por linchamentos consumados e tentativas de linchamento. Nestas, apenas 1.150 (44,6%) foram salvas, em mais de 90% dos casos pela polícia. Outras 1.221 (47,3%) foram de fato capturadas pela turba e alcançadas fisicamente nas agressões - feridas ou mortas -, espancadas, atacadas a pauladas, pedradas, pontapés e socos, nessa ordem e nessa progressão, até os casos extremos de extração dos olhos, castração, extirpação das orelhas e cremação da vítima ainda viva. Desse grupo, 64% (782) foram mortas (30,3% do total de vítimas) e 36% (439) foram feridas (17% do total de vítimas), salvando-se estas graças à chegada da polícia, que interrompeu o processo de sua execução. Ainda no conjunto dos linchamentos e tentativas, 8,1% das vítimas conseguiram escapar por seus próprios meios.

Os ensaios reunidos neste livro foram escritos, aos poucos, ao longo do tempo da própria pesquisa de que resultam. Constituem o preâmbulo de outro livro, ainda em preparo, de análise sistemática dos dados colhidos, com ênfase na dimensão propriamente ritual dos linchamentos. Foi um modo de organizar e interpretar provisoriamente, passo a passo, os dados que iam se acumulando, para definir as conexões de sentido dos casos que, ao se avolumarem e se diversificarem, acrescentavam novos e significativos elos à complexa trama de componentes dos linchamentos. Desse modo, o que era, inicialmente, apenas um tema de pesquisa exploratória, foi se encorpando como objeto de conhecimento ao longo de mais de 30 anos de observações e registros.

A ideia, neste momento, não é apenas expor resultados da investigação sobre um problema social, mas expor a arquitetura de uma pesquisa, a nervura do processo investigativo e a sequência de seus resultados parciais e acumulativos. É, também, a de expor o método da pesquisa, os passos do trabalho investigativo, como descrição progressiva e interpretativa, numa dinâmica de investigação-explicação-investigação. Um modo diferente do convencional no trato de questões sociais. Cada momento aparece no texto em sua inteireza provisória. Cada momento do processo não concluído já permite análise e interpretação. Mesmo que seja para correção, reformulação e atualização nos passos posteriores. São insights que foram dando andamento à pesquisa, preparando seus desdobramentos, multiplicando os campos de registro e de observação das ocorrências.

Estes textos não formam necessariamente uma sequência e nem sempre há coincidência nos números neles contidos, pois resultam de diferentes etapas de apuração dos dados. Onde coube, atualizei os dados numéricos, deixando de fazê-lo apenas em relação a temas e momentos em que há uma dimensão monográfica no episódio ou no momento analisado. Às vezes a linha da análise pediu que fossem preferencialmente adotados os números apurados até aquele momento. São os de quando a pesquisa chegou a um patamar de consistência suficiente para uma interpretação de meio de caminho que permitisse formular seus passos seguintes. Em cada um, o importante é o desvendamento progressivo das conexões de sentido da realidade observada. São os dados suficientes para tanto naquele momento considerado. São mantidos assim para destacar um aspecto importante do artesanato intelectual na Sociologia que é o da dinâmica da própria pesquisa e as decisivas conclusões parciais e, eventualmente, provisórias. É esse um meio de refinar os dados e preparar o estudo final sobre o tema. O conjunto dos capítulos tem uma inteireza própria e peculiar na medida em que se completam não como sequência explanativa, mas como conjunto de prospecções investigativas que se articulam. Há, portanto, neste livro o adicional de uma contribuição pedagógica não só em relação à observação sociológica, mas também ao modo de fazer a observação sociológica sobre um tema insólito como esse.

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LINCHAMENTOS: A JUSTIÇA POPULAR NO BRASIL
AUTOR José de Souza Martins
EDITORA Contexto
QUANTO R$ 33,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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