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24/03/2015 - 12h48

Em biografia, Lira Neto investia a história de padre Cícero

da Livraria da Folha

A biografia "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão" relata a história de padre Cícero Romão Batista, considerado santo em Juazeiro do Norte (CE) e expulso da Igreja Católica, homem acusado de forjar milagres e explorar a ingenuidade popular.

Cícero Romão Batista nasceu em 24 de março de 1844, no Crato (CE). O sacerdote se envolveu em um complexo jogo de poder e assumiu um papel de destaque em sua região. Ele se tornou uma das figuras mais controversas da história do Brasil.

Escrito pelo jornalista Lira Neto, "Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão" narra a vida e apresenta relatos de milagre, alguns fenômenos nunca explicados pelos médicos.

Abaixo, leia um trecho.

*

É preciso dar um basta à anarquia:
padres vivem amancebados,
lobisomem corre solto no sertão

1844-1870

Divulgação
Capa da biografia de padre acusado de forjar milagre
Capa da biografia de padre acusado de forjar milagre

Mais de 1800 anos após ter sido pregado numa cruz pelos soldados romanos no monte Gólgota, em Jerusalém, Jesus Cristo, o homem em cuja memória se fundou a Igreja que congrega mais de 2 bilhões de fiéis espalhados por todo o mundo, voltou à Terra. Nasceu de novo, na cidade do Crato, interior do Ceará. Cristo retornou na forma de um bebê sertanejo, com traços nitidamente caboclos, mas de cachinhos dourados e olhos azuis. O Menino Jesus redivivo chegou dos céus em meio a uma explosão de luz, com a força de mil sóis, no meio do sertão. Foi trazido por um anjo de asas cintilantes, que na mesma hora levou embora a filhinha recém-nascida de uma católica fervorosa, a cearense Joaquina Vicência Romana, mais conhecida como dona Quinô. De tão intenso, o clarão deixou a mulher temporariamente cega, bem na hora do parto, o que a impediu de perceber a troca das duas crianças. Como sinal de que era um iluminado, o menino santo acabava de regressar ao mundo em um 24 de março, véspera da data em que se celebra a Anunciação de Nossa Senhora, exatos nove meses antes do Natal.

Para muitos dos milhões de peregrinos que chegam hoje a Juazeiro do Norte, essa é a verdadeira história do nascimento do padre Cícero. Ele seria a reencarnação do próprio Cristo. A imaginação coletiva, disseminada de boca em boca e de geração em geração, encarregou- se de atribuir uma origem sagrada, não carnal, ao protetor dos romeiros. Com pequenas variações - às vezes é a própria Virgem, e não um anjo de luz, quem traz nos braços o Cristo menino de volta à Terra - a crença na linhagem divina de Cícero foi igualmente reforçada por uma das mais autênticas expressões da tradição nordestina: os folhetos de cordel. Para os devotos mais enlevados, não há como pôr em dúvida aquilo que dizia o poeta João Mendes de Oliveira, contemporâneo de Cícero e autointitulado "historiador brasileiro e negociante", um dos primeiros a enaltecer o sacerdote em rimas e versos:

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Perante a lei da verdade
não vou dizer nada à toa
Padrinho Cícero é uma pessoa
da Santíssima Trindade.

De acordo com o que está disposto nos livros de batismos da Cúria do Crato, o menino Cícero Romão Batista nasceu naquela cidade cearense no dia 24 de março de 1844. A documentação dos cartórios e das sacristias pode ser mais objetiva do que a narrativa mítica. Mas não é menos sugestiva de significados nem deixa de ser alvo de controvérsias. Há quem aponte, mesmo aí, na letra firme do escrivão, a sombra de uma armadilha histórica: Cícero teria nascido no dia anterior, 23, e posteriormente alterado o próprio batistério para vincular sua origem à data litúrgica da Anunciação. Não há provas, contudo, que corroborem essa acusação específica de mitomania. O que se sabe ao certo é que o filho de dona Quinô e do pequeno comerciante Joaquim Romão Batista nasceu um caboclinho de longas orelhas de abano e, de fato, cabelos aloirados e um surpreendente par de olhos azuis - características que ajudaram a associar sua imagem ao Cristo caucasiano das gravuras de origem medieval, mas que na verdade foram herdadas dos antepassados portugueses da família, tanto do lado materno quanto do paterno.

O pai, Joaquim Romão, era o primogênito de um oficial da cavalaria que lutara ao lado das tropas brasileiras nas guerras dos tempos da Independência. A mãe, dona Quinô, trazia por sua vez a história de batalhas familiares marcadas por suplícios quase bíblicos. Suas seis irmãs, as tias de Cícero - Totonha, Donana, Azia, Teresinha, Tudinha e Vicência -, todas teriam sido defloradas pelo mesmo homem, o coronel José Francisco Pereira Maia, o Mainha, juiz de paz, delegado de polícia e deputado provincial pelo Crato. Só ela, Quinô, teria resistido aos assédios sistemáticos do coronel, um garanhão que se gabava de ter colocado no mundo 82 rebentos, polígamo assumido desde que fora traído pela primeira esposa, uma mulher com fama de adúltera e nome de santa: Clara Angélica do Espírito Santo.

Por trás do balcão da lojinha da família, o pai de Cícero tirava o sustento da casa com a venda de artigos os mais variados, que iam de fechaduras de latão a chapéus para senhoras, de parafusos de ferro a gravatas de seda. Com o dinheiro que pingava no caixa, Joaquim Romão sempre cuidou de proporcionar boa educação ao único varão que o destino lhe concedeu, Cícero, o filho do meio entre as irmãs Maria Angélica, dois anos mais velha, e a caçula Angélica Vicência, cinco anos mais nova.

A tradição oral dá conta de um menino Cícero que construía casinhas de barro para as brincadeiras das irmãs, evitava as típicas estripulias da infância e não se juntava aos demais moleques da rua. Mas que gostava de subir em árvores e de pegar passarinhos, especialmente canários e patativas. Afora isso, vivia enfurnado em uma tenda que armava no quintal de casa, onde ficava sozinho durante horas, silencioso e ensimesmado, como se estivesse a rezar e a conversar com os anjos da guarda. A história da infância de Cícero, tema de inúmeros folhetos de cordel espalhados pelas feiras do sertão, foi sendo construída assim, por meio de relatos posteriores que buscavam abonar o mito e adivinhar indícios de uma hipotética predestinação. Em um velho folheto cuja autoria se perdeu nos desvãos do tempo, A vida e os antigos sermões do padre Cícero Romão Batista, o garoto é idealizado em um desses instantes de devoção prematura:

Ele tinha cinco anos
era bem pequenininho,
à noite a mãe procurou,
não o achou no bercinho,
achou-o nos pés duma imagem
dormindo ajoelhadinho.

*

PADRE CÍCERO (E-BOOK)
AUTOR Lira Neto
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