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25/03/2015 - 16h40

Leila Diniz foi abandonada pelas feministas e considerada nociva à sociedade

da Livraria da Folha

Nascida no dia 25 de março de 1945, em Niterói, Rio de Janeiro, Leila Diniz contribuiu para uma revolução do comportamento feminino no Brasil. Abandonada pelas feministas, ela foi tachada de alienada pela esquerda e de vagabunda pela direita.

Divulgação
Abandonada pelas feministas, afastada da TV e condenada como "nociva à sociedade"
Leila ajudou a dar início a uma revolução dos costumes femininos

Em 1965, ela foi protagonista da primeira produção de novela da Globo e participou de comédias de Domingos Oliveira e dos filmes de Nelson Pereira dos Santos.

Numa entrevista ao "Pasquim", em 1969, escandalizou a sociedade e o governo militar pelos palavrões e suas ideias sobre sexo e comportamento. Sua foto grávida, de 1971, mostrando a barriga na praia causou polêmica na época.

Ela morreu em um acidente aéreo, em 14 de julho de 1972, aos 27 anos, quando voltava da Austrália.

Na biografia "Leila Diniz", Joaquim Ferreira dos Santos narra a trajetória meteórica e fascinante de uma brasileira que viveu em liberdade, movida pela convicção de ser feliz.

A edição traz caderno de fotos e cronologia com os principais acontecimentos do período no Brasil e no mundo. Abaixo, leia um trecho.

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Nasce uma estrela carioca e ela está em sua primeira exibição pública, aos três anos de idade - na santa inocência de quem desconhece que a cena décadas mais tarde abriria sua biografa -, sapateando em cima do banco do bonde no trajeto entre Copacabana e o Tabuleiro da Baiana. Era o Carnaval de 1948, e a família Roque Diniz estava toda a caráter, fantasiada com os disparates apropriados ao momo da cidade. O pai, Newton Diniz, militante comunista que acabara de sair da prisão do general-presidente Eurico Gaspar Dutra, empunhava um pandeiro. Ao mesmo tempo que saudava a liberdade, ele dava o ritmo para que a filha caçula, Leila Roque Diniz, evoluísse com graça no primeiro show público de que a família tem lembrança no currículo da futura atriz.

O bonde 13 tinha saído do bar Vinte, em Ipanema, atravessado toda a Visconde de Pirajá e apanhado no ponto da Francisco Sá o bloco dos Roque Diniz, moradores na Bulhões de Carvalho. O bonde era um baile de Carnaval sobre rodas. Na traseira, onde não havia bancos, vinham os batuqueiros, quase todos negões parrudos fantasiados de mulher ou de bebê chorão. Eli Roque Diniz, a irmã mais velha, adorava o trajeto longo do bonde. Ele em seguida passaria pela Nossa Senhora de Copacabana, entraria no túnel do Leme, pegaria a Marquês de Abrantes, cruzaria o Catete e chegaria ao Tabuleiro da Baiana, no largo da Carioca, tudo isso sob a maior batucada. Levava-se cerca de meia hora, tempo suficiente para ver pela janela, sentir nos ouvidos e perceber pelos arrepios na pele que estavam todos no paraíso da graça carioca. O Rio da Zona Sul, vestido de capital federal, sem explosão imobiliária, é charme puro na ante-sala dos anos dourados. A população carioca aproximava-se de, incríveis!, 2 milhões de pessoas.

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ORG XMIT: 414001_0.tif A atriz Leila Diniz em cena "Todas as Mulheres do Mundo", de Domingos Oliveira. (Divulgação)
Leila Diniz em cena de "Todas as Mulheres do Mundo"

O país vive seu pós-guerra com o estilo chocho de Dutra. Ele fechara os cassinos havia dois anos, mas pôs no ar uma Constituição nova. Não chegava a ser uma democracia, mas não era a ditadura de Vargas sob o Estado Novo.

Depois de dois anos em atividade, o Partido Comunista voltara a ser clandestino em 1947. Dercy Gonçalves mata de rir nas revistas da praça Tiradentes com Tem gato na tuba. Nas chanchadas da Atlântida, Oscarito é rei com E o mundo se diverte. Respirava-se melhor.

Na Zona Sul, a classe média ainda não disputava espaço com vizinhos favelados e fanava sem tensões pelas ruas. O Rio deixava de lado seu desenho imperial, fechado em torno do Centro, e começava a descobrir sua vocação praieira.

No Carnaval que no momento se está pulando, borrifando-se lança-perfume para todo lado, os maiores sucessos são "É com esse que eu vou", de Pedro Caetano, "Falta um zero no meu ordenado", de Ary Barroso e Benedito Lacerda, "A mulata é a tal", de João de Barro e Antonio Almeida - mais a marchinha que a pequena heroína canta em cima do banco do bonde, segundo a delicada memória de sua irmã mais velha.

A socióloga Eli, conhecida como Baby, também sambista em cima do banco, cantarolando o samba gravado por Aracy de Almeida, conta:

Eu me lembro que a Leila estava muito feliz com aquela bagunça, linda, cantando o "Não me diga adeus". Ela era bem pequena e nesse Carnaval estava fantasiada de baiana. Eu me lembro dela com um jeito assim de Carmen Miranda. Não que ela estivesse imitando. Era aquela coisa com as mãos, assim, dançando. Sei que juntou gente em volta e tudo se passou como se fosse um espetáculo, papai com o pandeiro, a gente cantando e a Leila dançando. Foi uma cena marcante, a primeira que eu me lembro da Leila numa encenação artística.

Nasce uma estrela que vinte anos depois voltaria a se vestir como a mesma Carmen Miranda, brincaria de revirar as mãos e adotaria o teatro rebolado como uma das facetas mais típicas de sua revolucionária exposição pública de alegria. Fazia muito barulho no bonde. Caso contrário daria para ouvir um bando de anjos que levantam as asas na grande escadaria da vida e, reproduzindo a cena clássica das revistas musicais, todos juntos gritam o "oba" de praxe.
Respeitável público, o espetáculo começava.

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LEILA DINIZ
AUTOR Joaquim Ferreira dos Santos
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 39,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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