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26/03/2015 - 11h38

Filho de alcoólatra, Beethoven passou por infância 'tenebrosa', diz biógrafo

da Livraria da Folha

Antes de se tornar um dos compositores mais influentes da música ocidental, Ludwig van Beethoven passou por uma infância que o biógrafo Bernard Fauconnier classifica como tenebrosa. Segundo ele, o músico "parece zombar abertamente dos supostos determinismos da genética e da hereditariedade".

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No livro "Beethoven", Fauconnier conta como o filho de um músico alcoólatra e de uma mãe tuberculosa encontrou na música uma maneira de escapar da miséria e entrar para a história.

Beethoven morreu em Viena, no dia 26 de março de 1827. Abaixo, leia um trecho da biografia.

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Uma infância tenebrosa

Divulgação
Beethoven parece zombar dos supostos determinismos da genética
Beethoven parece zombar dos determinismos da genética

O personagem de Ludwig van Beethoven parece zombar abertamente dos supostos determinismos da genética e da hereditariedade. Esse filho de um cantor alcoólatra e de uma mãe tuberculosa, cercado de irmãos ineptos e às vezes maldosos, mais tarde de um sobrinho decepcionante para seus critérios exigentes que beiravam a tirania, esse homem sofrido de caráter indomável só tinha uma solução para escapar aos vícios do seu meio: ser um gênio.

Isso vinha a calhar: o romantismo nascido das Luzes e da Revolução Francesa estava se apropriando da palavra para seu uso próprio: gênio, herói, é a mesma coisa. Beethoven não tarda a perceber onde está sua chance. Seus dons são evidentes, sua vontade inabalável, e ele logo crê no seu destino, como os heróis de Schiller ou de Goethe, como os "grandes homens" cujos modelos encontrará na obra Vidas paralelas, de Plutarco...

As condições nas quais aprende música poderiam tê-lo desestimulado para sempre; o papel de macaquinho amestrado ou de menino prodígio que o pai decide fazê-lo desempenhar na esteira de Mozart teria sido o melhor meio de lhe cortar as asas se ele não tivesse sabido afirmar, pela força da vontade e a conjuntura de circunstâncias felizes, sua têmpera excepcional, sua personalidade poderosa, mistura de brutalidade e de melancolia, de delicadeza sensível e de ambição desmedida.

Beethoven não pode viver fora do desejo devorador de criar, de oferecer aos homens, a si mesmo, a seus ideais de liberdade, talvez mesmo à ideia muito pessoal que faz de Deus, uma obra inusitada, nova, que perturba e surpreende. Ele é daqueles raros artistas essenciais que não deixam sua arte no estado em que a encontraram. Em música, há um antes e um depois de Beethoven, como em pintura há um antes e um depois de Cézanne... O jovem compositor segue ainda as pegadas de Mozart e de Haydn, alguns de seus mestres. Já o homem amadurecido está totalmente noutra parte, impõe composições de uma ousadia e de uma força que às vezes chocarão seus contemporâneos e o afastarão do público, embora sua popularidade permaneça intacta. O "último Beethoven" deixa obras testamentárias de uma profundidade assombrosa, inesgotável, que preparam, anunciam, indicam o caminho da música para os dois séculos seguintes. Pois ainda não se disse tudo sobre Beethoven, nem sobre sua vida, às vezes enigmática, nem sobre sua obra, visionária, profética, e no entanto tão próxima de nós.

O governo atual do arcebispado de Colônia e do bispado de Munster é sem dúvida o mais esclarecido e o mais ativo de todos os governos eclesiásticos com que conta a Alemanha. O Ministério da Corte de Bonn é dos melhores. Criar ótimos estabelecimentos educativos, encorajar a agricultura e a indústria, extirpar toda espécie de monastério, esses eram os mais notáveis empreendimentos do gabinete de Bonn.

Nessa pequena cidade, as ideias da Aufklãrung são acolhidas com benevolência, e as artes, sobretudo o teatro e a ópera, gozam de uma predileção particular. Apesar de um meio familiar pouco propício, toda a infância de Beethoven se banhará nessa atmosfera liberal e esclarecida: é nela que se fundam essencialmente seus ideais estéticos e humanos. Os homens são mais filhos de seu tempo do que de seus pais.

A família, justamente. O avô de Beethoven, também com o prenome Ludwig, instalou-se em Bonn em 1734, vindo de Flandres. Estudou música em Mechelen, passou um tempo em Leuven e em Liège, antes de ser contratado na corte de Bonn e de casar com Maria-Josepha Poll. O nome Beethoven, de uma sonoridade grandiosa e sombria, agora ligado para sempre a algumas das mais belas páginas de música jamais escritas, significa simplesmente, em flamengo, "campo de beterrabas".

Acontece que o talento salta uma geração. Ludwig, o avô, é um homem notável, unanimemente respeitado em Bonn. É a alma da vida musical da cidade e administra com tato um pequeno comércio de vinhos que lhe garante um confortável suplemento de renda, sendo seu cargo de músico na corte pouco lucrativo. Do casamento com Maria-Josepha nascem três filhos, dos quais só um sobreviverá, Johann, pai de Ludwig. Sabemos que o jovem Ludwig terá uma grande afeição pela memória desse avô, que morre quando o menino tem apenas três anos de idade. Wegeler, melhor amigo de Ludwig e seu primeiro biógrafo confiável, escreve:

A impressão precoce que recebeu dele foi sempre forte em Ludwig, que gostava de falar do avô a seus amigos de infância. [...] Esse avô era um homem baixo, robusto, com olhos muito vivos. Era muito estimado como artista.

Quanto a Johann... Poucos pais de "grandes homens" têm uma reputação tão execrável como a desse músico sem talento, desse pai descrito seguidamente como um monstro, pelo menos como um bêbado irresponsável, o que parece verídico. Ele teve a quem puxar: a própria mãe de Johann, Maria-Josepha, era uma alcoólatra conhecida e morrerá num asilo de Colônia depois de violentas crises de delirium tremens. Formado em música pelo pai, Johann começa a vida de modo razoável. Em 1767, apesar da oposição feroz de Ludwig, o velho, ao que ele chama um casamento desigual, desposa Maria Magdalena Keverich, filha de um cozinheiro-chefe do Eleitor de Trier, já viúva aos vinte e um anos de um camareiro do mesmo Eleitor, com quem casara aos dezesseis. O velho Ludwig explode: uma filha de cozinheiro, que vergonha! Mas Johann está decidido: é uma das raras manifestações de vontade numa vida que vai se decompor lamentavelmente em bebedeiras nas tavernas. Ludwig recusa-se a assistir às bodas. Depois, como tem bom coração, acaba concedendo ao jovem casal uma bênção tardia, até porque Maria Magdalena é uma pessoa estimável, doce, generosa, paciente, e profundamente melancólica. Outros testemunhos afirmam que ela às vezes podia demonstrar um mau caráter e se enfurecer facilmente. Suas palavras em geral são tingidas de amargura. Assim, numa carta à sua amiga Cecilia Fischer, ela defende a vida de solteiro, fonte de uma existência tranquila, agradável e confortável, enquanto, a seu ver, o casamento traz poucas alegrias e muitos dissabores.

Essa ascendência pouco lisonjeira naturalmente suscitou suspeitas sobre a identidade do pai de Beethoven. "De ovo ruim, ave ruim", diz um provérbio medieval. Como pode um gênio ter nascido de genitores tão medíocres? Mais tarde, quando Beethoven for célebre, correrá o boato de que ele seria filho natural do rei da Prússia, Frederico II, que, como se sabe, adorava música. É de se perguntar que milagre teria feito o rei da Prússia deter-se um dia em Bonn para fecundar a doce e modesta Maria Magdalena. Mas assim são as lendas. A tais insinuações, parece que Beethoven respondeu sempre de maneira evasiva, como que lisonjeado por lhe atribuírem uma origem real, embora o democrata dentro dele chiasse. Alguns meses antes da sua morte, em 7 de outubro de 1826, ele dirige a seu amigo Wegeler estas linhas pelo menos ambíguas:

Você diz que em certos lugares me tomam como filho natural do falecido rei da Prússia; já me falaram disso há muito tempo. Estabeleci uma regra de nunca escrever nada sobre mim, mesmo para responder ao que escrevem a meu respeito.

Do casamento de Johann e Maria Magdalena nascerão sete filhos. Três chegarão à idade adulta. Ludwig é o segundo filho do casal: o primeiro morreu no ano anterior, aos quatro dias de vida. Chamava-se igualmente Ludwig. Durante a infância, teria Beethoven tido a impressão de ser o "substituto" de um irmão morto? Sabemos que distúrbios afetivos duradouros tal situação pode ocasionar.

Os detalhes que evocam sua infância são raros. A imagem mais constante, corroborada por alguns testemunhos, especialmente do padeiro Fischer, é a de um garoto agitado, não muito asseado, brincando às margens do Reno ou nos jardins do castelo de Bonn com seus irmãos, sob a vigilância distraída de alguma criada. Ludwig vai pouco à escola: o pai afirma que ele não aprende nada lá e tem outras ambições para o filho. Dessa educação imperfeita e lacunar, Ludwig conservará sequelas pela vida inteira: ortografia deficiente, aritmética limitada, não indo muito além da capacidade de fazer adições... Ele sabe o suficiente de latim para compreender os textos sobre os quais irá compor música, e seu conhecimento do francês progredirá ao longo dos anos até se tornar aceitável, apesar de uma sintaxe vacilante. Mas uma questão permanece: como esse matemático sofrível pôde adquirir tamanho domínio nessa arte tão matemática que é a música? O poder técnico e a inspiração de Beethoven, em suas composições, nunca foram barrados pelas exigências da gramática musical, nem se submeteram simplesmente aos imperativos das regras clássicas: a vida toda, ele jamais deixou de trabalhar para aprofundar a ciência da sua arte, mas sempre fez isso ao sabor de necessidades ditadas por seus projetos.

Há duas gerações os Beethoven vivem de suas atividades musicais. Johann, que aprendeu música com o pai, completou sua formação de cantor na capela do Eleitor. Músico da corte aos dezesseis anos, seus talentos certamente não se igualam aos do pai, a quem não sucede como mestre de capela, e esse tropeço inicial o encaminha a ser o personagem fracassado que em breve se entregará à bebida.

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BEETHOVEN
AUTOR Bernard Fauconnier
EDITORA L&PM
QUANTO R$ 17,50 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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