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06/04/2015 - 10h29

Culpar a Inglaterra pela Guerra do Paraguai é um erro histórico, diz autor

da Livraria da Folha

O historiador Alfredo da Mota Menezes, doutor em história da América Latina e especialista no tema, contraria a principal tese sobre a origem da Guerra do Paraguai, ideia que culpa o imperialismo inglês pelo conflito, e responsabiliza os países sul-americanos.

Divulgação
Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado da América do Sul
Guerra do Paraguai foi o maior conflito armado da América do Sul

A teoria de que a grande potência britânica manipulou Brasil e Argentina foi divulgada por décadas nos livros didáticos. Em "A Guerra É Nossa: A Inglaterra Não Provocou a Guerra do Paraguai", Menezes examina o episódio por outro ângulo para encontrar os motivos que desencadearam o confronto.

Fundamentado em dados e informações documentais, o historiador defende que conflitos internos dos quatro países envolvidos –Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai– explicam as motivações. O livro procura reescrever uma página da história dos países da América Latina.

Maior conflito internacional da América do Sul, a Guerra do Paraguai, também chamada de Guerra da Tríplice Aliança e Grande Guerra, no Paraguai, começou em 1864 e terminou há 145 anos, em 1870. Estima-se que 20% da população paraguaia morreu por causa da guerra.

Abaixo, leia trecho de "A Guerra É Nossa".

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Introdução

Os motivos da Guerra do Paraguai apontados nos livros brasileiros de História passam por três diferentes períodos. Num primeiro momento, que vai do fim da guerra até meados da década de 1950, os livros dão ênfase ao heroísmo nacional. Ressaltam, ainda, que Francisco Solano Lopez, presidente do Paraguai na época da guerra, era megalômano e, sem motivos, atacou o Brasil. Esse período é também dominado pelos feitos e fatos militares.

O excesso de ufanismo e a culpa atribuída a Solano Lopez desfiguram, porém, os reais motivos que levam à guerra. A ressalva aparece no livro de Hélio Lobo de 1914 que caminha em direção oposta aos publicados naquele período. É uma fonte de informação que, se usada, talvez ajudasse a modificar tantas interpretações sobre aspectos anteriores à guerra.

Desde a década de 1960 a história passou a ser contada de outra forma: o capitalismo e o expansionismo inglês teriam sido os culpados pelo conflito. Argumentava-se que o Paraguai estava criando um modelo de desenvolvimento autônomo na região e isso desagradava os interesses britânicos.

Nesse período, o Paraguai é ainda descrito como um país sem analfabetos e onde todos tinham terras para trabalhar. Possuía telégrafo, estaleiro, correios, fundição e tudo construído com recursos próprios. Caminhava para ser supridor futuro de bens industriais na região. Uma ação que os ingleses não iriam permitir. Daí que, para proteger seus interesses comerciais e financeiros, aquele país manipulou o Brasil, a Argentina e o Uruguai para destruir o desenvolvimento autônomo da nação guarani.

Uma terceira corrente historiográfica, mais recente, defende que a guerra não teria relação alguma com a Inglaterra. Fatores locais teriam levado os países ao conflito.

Mesmo com uma revisão histórica em andamento, porém, a tese de que foi a Inglaterra a mentora da guerra não desaparece do imaginário popular nacional e regional e também de livros escolares. Continua sendo a aceitação mais em voga. Até a denominação da guerra segue essas tendências. Foi Guerra do Paraguai, depois Guerra contra o Paraguai, ainda Guerra com o Paraguai e até Guerra do Brasil. Cada momento da interpretação sobre o conflito na Bacia do Prata, dependendo de cada enfoque, dava um nome que parecia mais adequado.

Existem documentários em vídeos, como os de Júlio Fernández Baraibar e Sylvio Back, que também dão ênfase à interpretação de que a Inglaterra foi a vilã regional. Não se encontram vídeos que defendam um ponto de vista contrário à tese mais aceita sobre o conflito.

A intenção deste livro é trazer dados e informações que mostrem que os ingleses não criaram o maior confronto armado da América do Sul. Essa ideia é ainda forte no nosso continente e se buscam mais dados e fatos para provar o contrário. Em trabalhos anteriores, o autor já tratara de parte dos antecedentes da Guerra do Paraguai. Agora, com mais informações e pesquisa ampliada, a tentativa exclusiva é entender se os ingleses foram mesmo os mentores da guerra.

Será dada atenção à ação dos ingleses na região do Prata, seja nos despachos diplomáticos de seus representantes em Buenos Aires e Montevidéu para o Foreign Office, seja nas correspondências de Londres para eles. São dezenas de informações atravessando o Atlântico numa e noutra direção e que serão escarafunchadas para se entender se houve ou não uma maquinação externa para levar Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai a uma guerra.

Além disso, para ver se existiu ou não essa ação inglesa, se vai a outras fontes para tentar encontrar informações que comprovassem esse ponto de vista. Pesquisas foram feitas em publicações e documentos divulgados do Uruguai e do Paraguai. No Arquivo Histórico do Itamaraty há informações dos representantes diplomáticos brasileiros em Montevidéu e Buenos Aires e, principalmente, todos os passos da missão de José Antonio Saraiva ao Uruguai.

Buscam-se informações ainda nos Anais da Câmara dos Deputados e do Senado no Brasil entre 1860 e 1864, também na Memória Legislativa do Rio Grande do Sul e na imprensa do período. Os pronunciamentos no parlamento brasileiro, incitando o governo imperial a defender os interesses dos gaúchos no Uruguai, reproduzidos nos jornais daquele país, provocam os ânimos na região do Prata. O problema dos gaúchos no país vizinho foi determinante para levar o Brasil a invadir o Uruguai. A guerra veio na sequência. Também foi importante a participação da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul com a pressão exercida sobre o governo imperial para garantir vidas e posses dos brasileiros no Uruguai.

Levou-se ao Rio de Janeiro, em março de 1864, um documento com demandas daquela província brasileira e, como diziam parlamentares e a imprensa, se não fossem atendidas poderiam provocar uma reação do Rio Grande do Sul contra o governo imperial. O Uruguai estava em guerra civil e não tinha como atender as reclamações brasileiras. O Brasil preferiu enfrentar o país vizinho ao mau humor dos gaúchos. A situação era tão confusa que brasileiros no Uruguai já estavam em armas na guerra civil ao lado do Partido Colorado contra o Partido Blanco que controlava o governo do país.

Assuntos como esse, combinados com outros tratados em capítulos do livro, são muito mais apetitosos para se trabalhar do que o mito que se criou de que a Inglaterra manipulou três países para destruir um suposto desenvolvimento autônomo do Paraguai.

Os ingleses estavam informados de praticamente tudo que acontecia na Bacia do Prata através de seus representantes em Buenos Aires (Edward Thornton) e em Montevidéu (William G. Lettsom). Os despachos diplomáticos mostram o olhar inglês sobre os acontecimentos naquele trepidante momento regional, os quais serão trabalhados em dois específicos capítulos deste livro.

É possível ainda identificar uma atuação descuidada da diplomacia brasileira em Assunção antes do conflito. Não perceber que o Paraguai de Solano Lopez era diferente de antes, não ligar para os preparativos militares que se fazia ali ou dar pouca importância ao trabalho de aproximação entre o Uruguai e o Paraguai, foram erros de avaliação da diplomacia nacional que merecem reparos.

A maior parte da esquerda latino-americana aceitava o ponto de vista de que fora a Inglaterra a mentora da Guerra do Paraguai. No capítulo final trabalha-se com alguns motivos que possam ter levado a essa aceitação. A hipótese aventada é que tenha havido uma ligação entre o caso norte americano na América Latina no período da Guerra Fria com o entre Inglaterra e Paraguai no século XIX. Ou que as duas potências tenham sufocado o desenvolvimento autônomo de um caso e do outro.

Também nas universidades e entre muitos jornalistas e intelectuais endossava-se a tese de que a Inglaterra manipulou três países para destruir o modelo econômico autônomo do Paraguai. Espalhou-se a teoria depois pelas escolas com livros didáticos que defendiam a mesma opinião. Quando um nome do porte intelectual de Eric Hobsbawm diz que a guerra estava dentro do quadro de expansão do capitalismo inglês pelo mundo ou que Gunder Frank também interpreta o conflito como algo semelhante, isso empurra mais gente a aceitar a tese conhecida.

A guerra teria um motivo: defender os interesses do capitalismo inglês. O seu imperialismo determinava o caminho, não restava nada a fazer aos países periféricos. Tudo estaria subordinado, numa repetição antiga do recente "fim da história", aos ditames do capitalismo hegemônico inglês.

Contudo, eventos na Bacia do Prata levam ao mais longo e destruidor confronto armado da América do Sul. A guerra é nossa. Este livro não trata do desenrolar (ou qualquer outro aspecto) da guerra. A busca é somente pelos antecedentes históricos regionais que levaram àquele conflito que teve de um lado Argentina, Brasil e Uruguai contra o Paraguai, entre 1864 e 1870. A tese aqui esposada é: a Inglaterra não provocou a Guerra do Paraguai.

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A GUERRA É NOSSA
AUTOR Alfredo da Mota Menezes
EDITORA Contexto
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* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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