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09/06/2015 - 17h12

'Pensadores Modernos' traz ensaios de Mann sobre Freud, Nietzsche e Schopenhauer

da Livraria da Folha

Ganhador do Nobel de Literatura de 1929, Thomas Mann (1875-1955) não se restringiu à ficção. O autor de "A Montanha Mágica" também escreveu ensaios sobre política, literatura, psicologia e filosofia.

Divulgação
Livro traz uma carta de Freud a Mann sobre o seu romance "José e seus Irmãos"
Livro traz uma carta de Freud a Mann sobre "José e seus Irmãos"

Em "Pensadores Modernos", Mann estabelece uma conexão entre o pensamento de Nietzsche, Wagner e Schopenhauer e a psicanálise de Freud. "Minha relação com a psicanálise é tão complexa quanto ela merece", escreve Mann.

"Pode-se com todo o direito ver na psicanálise, esse notável rebento do espírito científico-cultural, algo de grande e admirável, uma descoberta inovadora, um avanço radical do conhecimento, uma ampliação surpreendente, sensacional, do saber a respeito do homem".

"O Escritor e sua Missão" inaugura "Thomas Mann: Escritos & Ensaios", série criada pela editora Zahar para divulgar no Brasil os textos não ficcionais do autor. "Discursos Contra Hitler" e "Travessia Marítimas com Dom Quixote" são os outros títulos da coleção.

Abaixo, leia trecho de "Pensadores Modernos". A tradução é de Márcio Suzuki.

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O lugar de Freud na história
do espírito moderno

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SE ME PERGUNTASSEM qual das contribuições ousadas e inovadoras de Sigmund Freud para o conhecimento do homem me causou mais forte impressão, e qual dos seus escritos literários me vem primeiro à mente quando se menciona o seu nome, eu diria, sem pestanejar, o tratado em quatro partes Totem e tabu, no décimo volume de suas Obras completas. É improvável, aliás, que eu esteja sozinho nessa escolha, pois por mais que, diante da fama mundial hoje alcançada pelo conjunto da obra desse grande investigador, pareça uma declaração quase comovente de modéstia científica que ele acredite ter de diferenciar esses estudos do restante da sua obra, atribuindo-lhes excepcionalmente uma "pretensão de alcançar o interesse de um círculo maior de pessoas cultas", é certo no entanto que eles constituem - num sentido relativo e exigente - o mais popular de seus escritos, e isso porque, por seus objetivos e conhecimentos, ele vai bem além da esfera médica, adentrando as ciências do espírito em geral e abrindo para o leitor que se ocupa com a questão do homem perspectivas enormes e iluminadoras sobre o passado da alma, profundezas do mundo primitivo na história arcaica e na pré-história moral, social e mítico-religiosa da humanidade.

A extraordinária atração que a obra provoca pode ser explicada de diversas maneiras. Antes de tudo, ela é, sem dúvida, de todos os trabalhos de Freud aquele que se situa mais alto em termos puramente artísticos, obra de mestre pela construção e pela forma literária, tendo afinidades com todos os grandes exemplos do ensaísmo alemão, entre os quais figura. Isso não é de admirar e, no entanto, tem algo de misterioso. Pois justamente na alta legibilidade dessa obra, que se eleva da esfera clínica a uma visão ampla e audaciosa da esfera daquilo que interessa ao humano em geral, manifesta-se a lei humana da forma, a solidariedade metafísica existente entre humanidade e forma, que domina e determina o mundo da poesia e da "bela" literatura. É o mundo das coisas que não se expressam, a não ser que sejam bem expressas - o mundo dos poetas e dos escritores. Essa composição faz, sem dúvida, parte dele; ela não é uma obra científica rotineira, trabalho pesado, mas um pedaço da literatura mundial.

Freud a denomina "tentativa de aplicação dos pontos de vista e resultados da psicanálise a problemas não esclarecidos da psicologia dos povos". A visão clínica é mantida, e deve-se dizer que em grande medida ela se confirma esplendidamente. Desde Nietzsche temos uma noção do valor da doença para o conhecimento e desenvolvimento da vida em geral; em investigações da mais ousada perspicácia e de um ímpeto profundo, o psicólogo da neurose nos leva a compreender esses nexos, essas relações entre neurose e humanidade, de um jeito diversificado e preciso, e se, por um lado, seu escrito significa que a teoria da neurose conseguiu iluminar e compreender psicologicamente o que foi a humanidade primitiva e antiga, os fundamentos últimos de toda a vida da civilização, por outro lado ele concebe o tipo do neurótico como um tipo arcaico, no sentido do subtítulo do tratado, que diz modestamente: "Algumas concordâncias entre a vida psíquica dos selvagens e a dos neuróticos." Mas como, no significado paleontológico e pré-histórico da palavra, vida "selvagem" significa sem dúvida vida primitiva, essa "aplicação" dos resultados psicanalíticos à história da humanidade consiste, portanto, numa transferência e projeção da famosa "psicologia profunda" do plano clínico individual para o tempo e para seus imensos intervalos - o que proporciona ainda uma interpretação mais ampla da peculiar força de atração dessa genial obra rapsódica. Ela é um exemplo espantoso de união entre expansão e concentração, já que contém in nuce o sistema teórico inteiro da psicanálise, com todos os seus elementos: psicologia dos sonhos, concepção do complexo de Édipo, conceito de ambivalência, teoria do recalque e da transformação dos impulsos- e muito ainda restaria por enumerar -, representando ao mesmo tempo o empreendimento literário espiritualmente mais vasto que já foi feito sob o ponto de vista médico.

Além de parecer inútil, não haveria espaço aqui para fazer uma recapitulação, mesmo que por alto, da sequência de ideias desse grande ensaio. Mas peço permissão para inserir uma observação e constatação que me ocorreu ao relê-lo, em louvor a Freud e em reconhecimento do lugar que ele ocupa particularmente na história do espírito alemão.

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PENSADORES MODERNOS
AUTOR Thomas Mann
EDITORA Zahar
QUANTO R$ 49,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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