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18/06/2015 - 11h58

Biografia de Paul McCartney retrata depressão do músico após fim dos Beatles

da Livraria da Folha

Divulgação
A depressão pelo término dos Beatles é um dos temas abordados neste livro
Depressão pelo término dos Beatles é um dos temas abordados

Nascido em 18 de junho de 1942, em Liverpool, sir Paul McCartney faz aniversário nesta quinta-feira. Para muitos, o McCartney original "morreu" em um acidente de carro no final da década de 1960. Após a tragédia, um sósia - muito talentoso - teria dado continuidade à carreira do músico.

Na biografia "Man on the Run: Paul McCartney nos Anos 1970", Tom Doyle narra um dos períodos menos conhecidos e mais conturbados da vida do músico: a depressão pelo término dos Beatles.

O autor descreve que a única pergunta que atormentava o britânico, então com 27 anos, era se conseguiria reconstruir sua vida e conviver com a responsabilidade de ser um ex-Beatle.

Por meio de registros históricos e entrevistas feitas pessoalmente com o músico, a biografia retrata a década em que McCartney precisou superar o passado, redescobrir seu talento e seguir em frente.

Tom Doyle é jornalista musical, escritor e colaborador da "Q Magazine", revista britânica especializada em música. Já trabalhou para veículos como "The Guardian", "Marie Claire" e "The Times". Ao longo dos anos, publicou entrevistas de perfil com Paul McCartney, Keith Richards, Kate Bush, Elton John, R.E.M., U2, entre outros artistas.

Abaixo, leia um trecho de "Man on the Run: Paul McCartney nos Anos 1970".

*

Na primeira vez que encontrei e entrevistei Paul McCartney, ele, de forma perturbadora, não parava de lançar olhares distraídos para seu relógio.

Entrevistar o músico mais famoso do planeta, alguém que respondeu perguntas de outros jornalistas antes mesmo de você nascer, já é bastante difícil, mas se torna ainda mais desconcertante quando você percebe que não está conseguindo prender a atenção do ex-Beatle e, como diz a velha canção, impedir que sua mente vagueie.

Era segunda-feira, 15 de maio de 2006, e o local era um estúdio fotográfico em Kentish Town, no norte de Londres, onde McCartney estava sendo fotografado pela filha Mary, que tinha os olhos arregalados como os seus. As fotos seriam para uma série de capas da revista Q, que celebraria o vigésimo aniversário da publicação. Eu estava ali para conversar com ele sobre suas experiências nos últimos vinte anos, os acontecimentos e inovações.

Durante a conversa de meia hora, consegui mantê-lo atento o suficiente para falar sobre tudo, desde seu relato como testemunha ocular dos efeitos imediatos do 11 de setembro (parado na pista do aeroporto JFK num jato comercial que de repente não estava indo a lugar algum) até o fato de não conseguir usar iPod porque fones de ouvido o lembravam de trabalho e de estar no estúdio. Depois ele revelou as surpreendentes lacunas em seu conhecimento sobre a história dos Beatles.

- Sou o pior analista do mundo quando o assunto sou eu - justificou de modo brilhante. - Os fãs dos Beatles podem lhe dizer exatamente o que estava acontecendo nos anos 1960 e eu meio que digo: "ah, sim, isso mesmo". Sei que Sgt. Pepper é de 1967. Isso eu sei.

Sob vários aspectos ele se mostrou tão afável, à vontade e disposto quanto eu imaginava que pudesse ser. Quando cheguei, pareceu instantaneamente simpático ao fato de o entrevistador do dia ser escocês (claro, após ter cultivado uma relação de décadas com o país e seu povo), e me
levou à mesa de bufê do estúdio, com sua típica cordialidade, para que eu experimentasse os legumes caramelizados. Ainda assim, sua cabeça estava claramente em outro lugar, e um ar pesado de alguma coisa pairava sobre ele.

Apenas quando mencionou brevemente a segunda esposa, Heather Mills, dizendo seu primeiro nome quase num sussurro e admitindo que ela não gostava muito de sua queda pelos ocasionais "baseados" ("Ela é totalmente contra isso"), é que tive uma suspeita de que os rumores talvez fossem verdadeiros e que o casal estivesse passando por problemas. No dia anterior, um dos tabloides tinha publicado fotos de Paul passeando sozinho na França durante uma folga. Dois dias depois de nossa conversa, seu assessor de imprensa anunciou que o casal se separaria.

Já tendo bastante experiência nesta coisa de entrevista, tinha sido uma espécie de falha de minha parte não ter percebido seu jeito meio distante naquele dia, e agora estava claro o que o incomodava. Mas isso me deixou determinado a tentar atrair toda a sua atenção, a perguntar e dizer coisas que outros jornalistas talvez não ousassem, se e quando nos encontrássemos
novamente. Nos últimos anos, entrevistas impressas com Paul McCartney tendiam a ser um pouco rígidas, com muitos jornalistas intimidados demais - o que é inteiramente compreensível, já que eu mesmo senti um pouco de nervosismo - para lhe perguntar algo além do banal, ou envolvê-lo em um bate-papo animado, ou mesmo apenas tentar dar umas boas risadas com ele.

Da próxima vez, pensei.

-

A próxima vez aconteceu 16 meses mais tarde, quando tive a oportunidade de encontrá-lo em seu refúgio, dois andares acima da recepção da Soho Square, nº 1, na sede da MPL, McCartney Productions Limited. É a zona de conforto de Paul, o lugar que ele geralmente escolhe para ser entrevistado - o recanto escuro, revestido de madeira, no estilo art déco, é o centro de suas operações desde 1975. Nesse ambiente, logo pareceu mais relaxado, mais focado, mais no controle, quase imperturbável, mesmo quando se tratava de falar sobre uma das épocas mais difíceis de sua vida.

Do lado de fora do escritório havia um clima agitado de negociações sendo feitas por sua equipe, reuniões sendo marcadas e compromissos sendo definidos. Não é coincidência, você sente, esse homem é um multimilionário.

Lá dentro, McCartney, sentado num sofá, estava cercado por pinturas originais de Willem de Kooning e iluminado por trás pela luz neon da sua jukebox Wurlitzer, que continha os velhos discos de rock'n'roll de 45 rotações que eram seus textos sagrados quando adolescente. Enquanto conversávamos, ele comia lentamente um sanduíche de queijo e picles, cuja metade que sobrara ele me ofereceu repetidas vezes durante a entrevista. Pareceu decepcionado com o fato de eu realmente não estar com vontade de comer.

- Vamos lá - ofereceu-me pela terceira vez. Eu cedi e comi um pedaço.

- Então este queijo é vegetariano, certo? - perguntei.

- É apenas queijo - disse ele, dando de ombros para sua fama de ativista dos direitos dos animais e ignorando o fato de eu estar surpreso por ele não defender queijos sem quimosina.

De perto, considerando a absoluta intensidade de seu passado, McCartney tinha envelhecido muito bem. Apenas uma ruga em volta dos lábios e as bochechas ligeiramente caídas denunciavam sua idade, com seus cabelos mais bem pintados agora do que quando estava na casa dos 50 anos, em que - sendo ele apenas um homem simples - se suspeitava de que pintasse os cabelos sozinho. Seus olhos castanhos brilhavam com um tom esverdeado sob determinada luz. Parecia em forma, mas reclamou de estar com uma barriguinha.

- Você não tem barriga - eu disse.

- Estou encolhendo porque tem um jornalista aqui - ele sorriu. Suas bochechas se avolumaram quando riu e os anos saíram de seu rosto, trazendo de volta o Beatle espirituoso do passado.

A maioria das pessoas, com base nos filmes dos Beatles e nas incontáveis entrevistas para a TV, tem alguma ideia de como Paul McCartney fala. Cara a cara, contudo, seu tom é mais objetivo, mais scouse, sua fala pontuada por palavrões adoravelmente proferidos.

Mas entrevistar McCartney é meio como garimpar ouro. Ele pode ser escorregadio como um político, esquivando-se com habilidade de uma pergunta e às vezes fazendo-o voltar a ela três vezes antes de realmente respondê-la. Em outros momentos, começa a desviar para velhas histórias sobre as quais você já ouviu ou leu dezenas de vezes. Nesses momentos, você é obrigado a interrompê-lo para tentar guiá-lo cuidadosamente a um terreno menos familiar.

*

MAN ON THE RUN: PAUL MCCARTNEY NOS ANOS 1970
AUTOR Tom Doyle
EDITORA LeYa
QUANTO R$ 39,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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