Saltar para o conteúdo principal
 
30/06/2015 - 17h09

'As Dúvidas do sr. Darwin' conta a história do homem que mudou a ciência

da Livraria da Folha

Expondo o pensamento científico e os aspectos metódicos e angustiantes da personalidade do naturalista, "As Dúvidas do Sr. Darwin" conta a história do homem que mudou a ciência ao propor a ocorrência da seleção natural.

Divulgação
Narrado de maneira divertida e acessível, livro expõe o pensamento de Darwin e os aspectos angustiantes de sua personalidade
Narrado de maneira acessível, livro expõe o pensamento de Darwin e os aspectos angustiantes de sua personalidade

Neste livro, David Quammen relembra como Darwin, consciente da repercussão que suas ideias causariam na sociedade britânica do século 19, não descansou até encontrar provas e argumentos - e como ele precisou de um empurrãozinho para concluir sua obra, já que estava ameaçado de perder a autoria da ideia para Alfred Russel Wallace.

Nascido em família culta no dia 12 de fevereiro de 1809, em Shewsbury, na Inglaterra, Charles Robert Darwin revolucionou a biologia aos 50 anos, ao publicar "Sobre a Origem das Espécies Através da Seleção Natural ou a Preservação de Raças Favorecidas na Luta pela Vida", ou simplesmente "A Origem das Espécies", como ficou conhecida.

Sua teoria se estendeu pelas ciências humanas e por toda a cultura contemporânea. Hoje, a teoria da evolução ainda é um dos temas mais debatidos entre religiosos e cientistas.

Darwin morreu no dia 19 de abril de 1882, na Inglaterra.

Abaixo, leia um trecho do livro.

*

Nas primeiras semanas de 1837, Charles Darwin era um jovem ocupado que vivia em Londres. Ambicioso, intelectualmente desperto de uma pós-adolescência enfadonha, empolgado pelas oportunidades, vinha redefinindo sua vida. Ainda não reconhecia o enorme alcance da ideia que brotava dentro dele. Em 12 de fevereiro, completou 28 anos.

Desde outubro do ano anterior, Darwin estava de volta da viagem ao redor do mundo a bordo do navio de pesquisa Beagle, contente por pisar terra firme de novo, livre do balanço das ondas. Durante a viagem, originalmente programada para durar apenas dois ou três anos, mas que acabou se estendendo por meia década, ele se transformara drasticamente: de graduado em teologia por Cambridge, sem grande vocação - com uma paixão de cavaleiro pela caça de aves e um entusiasmo de colecionador por besouros raros -, em estudioso sério de geologia e história natural. Até seu pai viúvo, o irascível e obeso dr. Robert Darwin, viu a diferença. O doutor certa vez o repreendera por ser um jovem esportista inepto, que só queria saber de caçar aves e capturar ratos, e disse que ele seria "uma vergonha para si e para toda a sua família". Mas agora a reputação de Charles como viajante científico já chegara à sua casa, e papai estava tranquilo. Ao rever o filho pela primeira vez após a viagem, o dr. Darwin voltou-se para as irmãs de Charles e exclamou: "Ora essa, a forma de sua cabeça está mudada". Se isso não era exato no sentido frenológico, foi ao menos uma metáfora pertinente. A forma de seu pensamento mudara. Logo mudaria ainda mais.

Após breve visita ao pai e às irmãs na casa da família em Shrewsbury (uma cidade de tamanho médio no condado de Shropshire, em Midlands Ocidental), seguida de uma breve estada em Cambridge, perto dos antigos colegas de universidade, Darwin foi para a cidade grande e alugou quartos numa casa na Great Marlborough Street, perto de instituições científicas importantes como a Zoological Society e o British Museum. Ele odiou Londres, com seu smog e alarido dickensianos, mas tinha motivos para tolerá-la. Seus dias eram plenos de atividades que envolviam a colheita científica da viagem no Beagle. A colheita incluía fatos, anotações e ideias, mas também couros de mamíferos, peles de aves, répteis e peixes conservados em salmoura, plantas secas e fósseis. Durante os anos de pesquisas do navio na América do Sul, ele enviara caixotes, garrafas e barris de espécimes daquele continente, e ainda trouxera mais consigo a bordo. A maior parte do material foi enviada a especialistas para identificação e estudo. Ele havia sido um zé-ninguém científico que zarpara no Beagle, como naturalista não oficial (havia outro naturalista, mais oficial embora menos empenhado, até que aquele sujeito abandonou o posto num ataque de ciúme) e acompanhante formal do capitão. Mas Darwin se mostrara bastante competente. Suas coletas produtivas em locais exóticos e as cartas com observações perspicazes valeram-lhe certo renome nos círculos científicos, mesmo antes de chegar em casa. Considerado um pesquisador talentoso e promissor, seus espécimes caíram em boas mãos. Richard Owen, anatomista brilhante do Royal College of Surgeons, concordara em descrever os mamíferos fósseis. George Waterhouse, curador de museu, ficou com as espécies de mamíferos vivas e com os insetos. John Gould, respeitado ornitólogo, se incumbiria das aves. Thomas Bell, um dentista que se tornara professor de zoologia, obteve os répteis. O próprio Darwin começara a escrever um livro. Um grande passo para ele, que refletia um nível de confiança novo em suas próprias observações e ideias. Um livro, vejam só! Sim, porque ele vira coisas que poucas pessoas tinham visto. Coletara impressões e dados, cuidadosamente. Seria um pastiche de narrativa de viagem, perfis culturais, geologia e história natural, baseado no diário de viagem.

O livro por escrever já havia sido comprado por uma editora - graças ao capitão do Beagle, Robert FitzRoy, um homem competente, mas cheio de caprichos, aristocrático e instável. O perfeccionismo de FitzRoy e algumas circunstâncias complicadoras haviam estendido uma viagem de dois anos para quase cinco. Agora o capitão queria um registro em vários volumes das expedições recentes de sua nau, e não hesitou em incluir o livro de Darwin no pacote. O próprio FitzRoy prepararia outro volume, se arrumasse tempo. Darwin pôs mãos à obra e, mobilizado pela perspectiva de se tornar um autor publicado, escrevinhou com empenho. O diário do Beagle foi seu material central, mas ele queria acrescentar um fluxo narrativo, algumas ideias e certo refinamento. Confidenciou a um amigo de Cambridge, William Darwin Fox (por acaso seu primo de segundo grau), a descoberta de que "escrever é um trabalho bem tedioso & difícil". Mas Darwin tinha uma vantagem que facilitava a tarefa: uma boa pensão anual do pai. Não estava pressionado a procurar, ao menos por enquanto, um emprego fixo.

Como viajante de regresso cheio de histórias para contar, além de solteiro cobiçado, Darwin vinha sendo muito solicitado na vida social. Por algum tempo, aquilo foi bom para ele. Charles Lyell, o astro em ascensão dentre os geólogos ingleses, cujo Principles of geology [Princípios de geologia], em três volumes, vinha mudando a forma de pensar sobre as ciências da Terra, o acolhera como um novo amigo e protegido. O inventor Charles Babbage passou a convidá-lo para festas elegantes. O irmão mais velho de Darwin, Erasmus, formado em medicina, mas sem vontade de praticá-la (nem necessidade, graças ao dinheiro do pai), já se radicara como bon vivant na cidade. Ao promover pequenos encontros em sua própria casa na Great Marlborough Street, Erasmus atraiu Charles para um círculo de pessoas brilhantes que incluía a escritora política Harriet Martineau e o rabugento historiador escocês Thomas Carlyle. Leonard Horner, um eminente educador e cientista, tinha uma casa repleta de filhas casadoiras às quais Darwin fazia algumas visitas galantes, mas menos frequentes do que o sr. Horner gostaria. Os cinco anos de Darwin no Beagle haviam sido solitários, apesar das refeições com FitzRoy e da cabine lotada compartilhada com um oficial e um aspirante de marinha, e durante aqueles primeiros meses em Londres ele foi à forra, deleitando-se em conversas espirituosas à mesa de jantar, atenções aduladoras e companhias femininas. Com a recomendação de Lyell, foi eleito para o Athenaeum Club (no mesmo grupo, já que falamos do clima dickensiano, estava o próprio Charles Dickens), e aquele se tornou seu refúgio para jantar sossegado e ler as revistas científicas. Comparecia a reuniões da Zoological Society e da Geological Society, às vezes apresentando ele próprio um pequeno artigo. Nada daquilo o impedia de avançar no seu livro. Ensinara a si disciplina, além de bastante geologia e biologia, a bordo do Beagle.

Poucos dias após fixar residência em Londres, Darwin encontrou-se com John Gould para conversar sobre seus espécimes de aves. Gould chamou a atenção para um bando que Darwin coletara no arquipélago de Galápagos, a quase mil quilômetros de distância da costa oeste da América do Sul, durante a breve parada do navio ali, no final de setembro e em outubro de 1835, a caminho de casa por circunavegação. Todas aquelas aves eram pequenas e acastanhadas, mas tinham bicos de formas e tamanhos diferentes. Darwin as tomara como um sortimento variado de cambaxirras, bicudos, papa-figos e tentilhões, e não se preocupara em classificar de que ilha cada uma procedia. A falta de rotulação havia sido, em retrospecto, um erro frustrante. Mas, como naturalista de campo, com amplos interesses e sem compromisso com nenhuma teoria, naquela viagem ele ainda não sabia exatamente o que vinha procurando. Em janeiro de 1837, quatro meses após o retorno do Beagle, Darwin ouvira Gould apresentar um relatório preliminar sobre o bando cambaxirra-bicudos-papa-figos na reunião da Zoological Society. Havia uma surpresa implícita: segundo Gould, eram todos tentilhões. Bicos grandes e bicos pequenos, bicos afiados e bicos cegos, havia uma dúzia de espécies, intimamente aparentadas, mas distintas, representando algum grupo novo e estranho. Em março, na conversa particular com Darwin, Gould foi mais longe: treze espécies de tentilhões, todas desconhecidas pela ciência. E não apenas isso. No meio de outro bando, que Darwin reconhecera como sabiás-do-campo, Gould encontrou três espécies diferentes. Ao contrário dos tentilhões, os sabiás-do-campo chegaram a Gould com etiquetas da ilha de origem. Por serem menos diversificados, por não estarem tão confusamente misturados na floresta, Darwin fora mais meticuloso ao coletá-los. Havia algo estranho com aqueles sabiás-do-campo, observou Gould. Cada espécie, de acordo com as etiquetas, habitava uma ilha diferente.

Aquilo era uma novidade estranha e empolgante. Uma espécie por ilha, todas novas? Confirmava algo que Darwin murmurara para si mesmo nas anotações ornitológicas feitas enquanto o Beagle ainda singrava o mar. Não é estranho, escrevera, que esses tipos diferentes de aves, distintos mas aparentados, que cumprem papéis semelhantes, vivam separadamente em ilhas tão próximas? Talvez, contrariando o saber consagrado sobre a origem de todas as formas de vida, não passem de variedades derivadas de uma estirpe comum. Talvez não tenham sido criadas no sentido teológico - ou seja, por um ato divino de criação especial para cada tipo. Talvez simplesmente... surgissem. "Se existe o mínimo fundamento para estas observações", contou Darwin a si mesmo, e a mais ninguém, "valerá a pena examinar a Zoologia dos Arquipélagos; pois tais fatos solapariam a estabilidade das espécies."

Estava mais certo do que imaginava. As espécies não eram estáveis, e as ilhas encerravam algumas das melhores pistas.

Mais dados perturbadores chegaram a ele, mais ou menos na mesma época, em relatórios sobre seus outros espécimes. Richard Owen havia identificado uma preguiça terrestre gigante extinta, um tatu gigante extinto e o que ele considerou uma capivara gigante extinta entre os fósseis de Darwin do continente sul-americano. Parecia uma estranha coincidência - se não para Owen, ao menos para Darwin - o fato de que tais formas extintas fossem encontradas nas mesmas áreas geográficas habitadas por versões vivas da preguiça, da capivara e do tatu. John Gould anunciou, na reunião seguinte da Zoological Society, em 14 de março, que o sr. Darwin havia descoberto uma espécie nova de ave não voadora, uma ema pequena - Gould a chamou Rhea darwinii - no sul da Patagônia, adjacente à faixa de distribuição da ema maior, já conhecida. Enquanto isso, Thomas Bell vinha encontrando variações entre as iguanas das diferentes ilhas de Galápagos. E agora Darwin lembrou algo que o vice-governador das ilhas havia lhe contado sobre as tartarugas gigantes: elas também eram distinguíveis, de ilha para ilha, pela forma da carapaça. Darwin reuniu esses fatos e se perguntou: por quê? Por que formas parecidas entre si, vivas ou extintas, eram encontradas agrupadas lado a lado?

Não é possível dizer exatamente quando Charles Darwin se tornou um evolucionista. Ele não revelou seu Eureca! numa carta, num artigo de revista ou numa palestra febril a uma das sociedades. Àquela altura, ele estava cauteloso, inquieto e calado. Tinha razões de sobra. A Inglaterra era um lugar turbulento no final da década de 1830, com uma economia em forte depressão, uma nova Lei dos Pobres substituindo a caridade tradicional por reformatórios sombrios, e um movimento cartista (nome derivado da "People's Charter", uma "Carta de Direitos do Povo", que defendia o aumento do poder da classe trabalhadora) organizando protestos de massa para exigir reformas democráticas. Ideias evolutivas pioneiras sobre a mudança progressiva entre as espécies, sugeridas por zoólogos franceses como Jean-Baptiste Lamarck e Etienne Geoffroy Saint-Hilaire, haviam sido absorvidas por radicais ingleses e escoceses em seus argumentos pró-mudança social progressista, causando um mal-estar aos Whigs que controlavam o Parlamento e aos prelados anglicanos que dirigiam a Igreja nacional, com toda a sua riqueza e demais interesses velados. E o mal-estar deles não podia ser simplesmente ignorado. O cristianismo, conforme interpretado pelos líderes anglicanos, não era apenas a religião predominante da Inglaterra; tratava-se da religião oficial. O país não sofrera nenhuma revolução desde 1688, e o cartismo mais a depressão econômica sinalizavam que uma rebelião poderia ser iminente. Dando seus primeiros passos sobre a fronteira entre tradição e evolução, Darwin se viu ocupando um terreno próximo daquelas linhas de batalha da guerra de classes e religiosa. Ele avançou com cautela. Não anunciou sua apostasia. Mesmo assim, é possível datar aproximadamente o momento de sua conversão intelectual: março de 1837, logo após as conversas com Gould e Owen. As espécies se transformavam umas nas outras. Ele sabia. Só não sabia como.

Meses depois, ele fez outra anotação sobre as características curiosas de seus fósseis sul-americanos e das espécies das ilhas Galápagos: "Esses fatos são a origem (especialmente os últimos) de todos os meus pontos de vista". Mas, por ora, Darwin vinha mantendo tais pontos de vista para si.

*

AS DÚVIDAS DO SR. DARWIN
AUTOR David Quammen
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 23,00 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

-

 
Voltar ao topo da página