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14/07/2015 - 11h17

Conheça o livro 'Pergunte ao Pó', de John Fante, uma das influências de Bukowski

da Livraria da Folha

Divulgação
Livro conta a história de ítalo-americano vivendo uma vida de aspirante a escritor em Los Angeles
Livro de John Fante conta a história de ítalo-americano vivendo uma vida de aspirante a escritor em Los Angeles

"Pergunte ao Pó", de John Fante, traz como protagonista Arturo Bandini, um ítalo-americano vivendo uma vida de aspirante a escritor em Los Angeles, nos Estados Unidos. Faminto por sucesso, ele mora em um hotel barato e sofre um duro golpe de realidade na pobreza. Ao conhecer uma garçonete local, ele entra em uma relação de amor e ódio com ela que, aos poucos, faz com que ele migre para os domínios da loucura.

"Tomei o livro emprestado, levei-o ao meu quarto, subi à minha cama e o li, e sabia muito antes de terminar que aqui estava um homem que havia desenvolvido uma maneira peculiar de escrever. O livro era 'Pergunte ao Pó' e o autor era John Fante. Ele se tornaria uma influência no meu modo de escrever para a vida toda", escreveu Charles Bukowski.

John Fante nasceu no Colorado, nos Estados Unidos, em 1909. Frequentou a Universidade do Colorado e a Long Beach City College. Em 1929, começou a escrever e publicou seu primeiro conto em "The American Mercury" em 1932. Seu primeiro romance, "Espere a Primavera, Bandini", foi publicado em 1938. No ano seguinte, "Pergunte ao Pó" chegou às livrarias. O autor, que também assinou roteiros de cinema, morreu em maio de 1983.

Abaixo, leia trecho de "Pergunte ao Pó".

*

Uma noite, eu estava sentado na cama do meu quarto de hotel, em Bunker Hill, bem no meio de Los Angeles. Era uma noite importante na minha vida, porque eu precisava tomar uma decisão quanto ao hotel. Ou eu pagava ou eu saía: era o que dizia o bilhete, o bilhete que a senhoria havia colocado debaixo da minha porta. Um grande problema, que merecia atenção aguda. Eu o resolvi apagando a luz e indo para a cama.

De manhã, acordei e decidi que devia fazer mais exercício físico, e comecei imediatamente. Fiz vários exercícios de flexão. Escovei os dentes, senti gosto de sangue, vi pontos rosados na escova de dentes, lembrei-me da propaganda e decidi sair para tomar café.

Fui ao restaurante aonde sempre costumava ir, sentei-me na banqueta diante do longo balcão e pedi café. Tinha um gosto muito parecido ao de café, mas não valia o níquel. Sentado ali, fumei uns dois cigarros, li as súmulas dos resultados dos jogos da Liga Americana. Escrupulosamente evitei as súmulas dos resultados dos jogos da Liga Nacional, e notei com satisfação que Joe DiMaggio ainda era um motivo de glória para a gente italiana, porque liderava a liga como batedor.

Um grande taco, aquele Joe DiMaggio. Saí do restaurante, parei diante de um arremessador imaginário e completei o circuito das bases saltando por cima da cerca. Desci a rua então na direção de Angel's Flight, pensando no que fazer daquele dia. Mas nada havia a fazer, por isso decidi caminhar pela cidade.

Desci a Olive Street passando por um prédio de apartamentos velho e encardido que ainda estava úmido como um mataborrão do nevoeiro da noite passada, e pensei em meus amigos Ethie e Carl, que eram de Detroit e haviam vivido lá, e lembreime da noite em que Carl bateu em Ethie porque ela ia ter um bebê e ele não queria. Mas tiveram o bebê e a coisa ficou por isso mesmo. E lembrei-me do interior daquele apartamento, como cheirava a camundongos e pó, e das velhas que ficavam sentadas no saguão, nas tardes quentes, e da velha com as pernas bonitas. Havia ainda o ascensorista, um homem alquebrado de Milwaukee, que parecia escarnecer toda vez que você pedia o seu andar, como se fosse um tremendo idiota por escolher aquele determinado andar, o ascensorista que sempre tinha uma bandeja de sanduí- ches no elevador e uma revista de histórias policiais.

Desci a ladeira então na Olive Street, passando pelas horrí- veis casas com vigamento de madeira recendendo a histórias de assassinatos, e depois da Olive Street até o Philarmonic Auditorium, e lembrei-me de ter ido lá com Helen para ouvir o Coral dos Cossacos do Don, e de como fiquei aborrecido e tivemos uma briga por causa disto, e lembrei do que Helen vestia naquele dia... um vestido branco, que me falava ao pau quando eu tocava nele. Oh, aquela Helen... mas não aqui.

E assim cheguei à esquina da Quinta com Olive, onde os grandes bondes mastigavam os ouvidos da gente com o seu barulho e o cheiro de gasolina fazia a visão das palmeiras parecer triste e o pavimento negro ainda molhado do nevoeiro da noite anterior.

E agora eu estava em frente ao Biltmore Hotel, caminhando ao longo da fileira de táxis amarelos, com todos os taxistas dormindo, exceto o que estava perto da porta principal, e pensei nestes sujeitos e no conhecimento que têm dos lugares, e lembrei-me da vez em que Ross e eu conseguimos um endereço com um deles, como ele deu um olhar de soslaio devasso e nos levou a Temple Street, de todos os lugares, e quem encontramos lá senão duas muito pouco atraentes, e Ross seguiu em frente, mas eu fiquei sentado na sala de estar e botei o fonógrafo para tocar e me senti assustado e solitário.

Eu estava passando pelo porteiro no Biltmore e o detestei de imediato, com seus alamares amarelos, seu metro e oitenta de altura e toda aquela dignidade, e então um automóvel preto se aproximou do meio-fio e um homem desceu. Parecia rico; e então saiu uma mulher e era bonita, sua pele era de uma raposa-prateada e era uma canção através da calçada e entrando pelas portas de vaivém, e pensei "puxa rapaz que tal um pouco daquilo, apenas um dia e uma noite daquilo", e ela era um sonho enquanto continuei caminhando, seu perfume ainda no ar úmido da manhã.

Aí um montão de tempo se passou quando parei diante da vitrine de uma tabacaria e fiquei olhando, e o mundo inteiro se apagou exceto aquela vitrine, e fiquei ali e fumei todos os cachimbos e me vi como um grande autor com aquele alinhado italiano de urze-branca e uma bengala desembarcando de um grande carro preto e ela estava lá também, orgulhosa como o diabo de mim, a dama da pele de raposa-prateada. Nos registramos no hotel, tomamos coquetéis e dançamos um pouco, tomamos outro coquetel e recitei alguns versos do sânscrito, e o mundo era tão maravilhoso porque a cada dois minutos uma deslumbrante olhava para mim, o grande autor, e eu não podia deixar de autografar o seu menu, e a garota da raposa-prateada ficava morrendo de ciúmes.

Los Angeles, dê-me um pouco de você! Los Angeles, venha a mim do jeito que eu vim a você, meus pés sobre suas ruas, bela cidade que adorei tanto, triste flor na areia, bela cidade.
Um dia e outro dia e o dia anterior e a biblioteca com os grandões nas estantes, o velho Dreiser e o velho Mencken, todos os garotões ali, fui visitá-los, Olá Dreiser, Olá Mencken, Olá, olá: existe um lugar para mim também, e começa com B, na estante do B, Arturo Bandini, abram caminho para Arturo Bandini, o espaço para o seu livro, e eu me sentava à mesa e simplesmente ficava olhando para o lugar onde meu livro estaria, bem ali perto de Arnold Bennett; não era grande coisa aquele Arnold Bennett, mas eu estaria ali como que para valorizar os bês, o velho Arturo Bandini, um dos garotões, até que aparecesse uma garota, um odor de perfume através da sala da ficção, um estalido de saltos altos para quebrar a monotonia da minha fama. Dia de gala, sonho de gala!

Mas a senhoria, a senhoria de cabelos brancos continuava escrevendo aqueles bilhetes: era de Bridgeport, Connecticut, seu marido morrera e ela estava totalmente sozinha no mundo e não confiava em ninguém, não podia se dar ao luxo, ela me disse, e disse que eu teria de pagar. Estava crescendo como a dívida nacional, eu teria de pagar ou sair, cada centavo - cinco semanas de atraso, vinte dólares, e se não pagasse ela prenderia minhas malas; só que eu não tinha malas, eu só tinha uma valise e era de papelão sem nem sequer uma alça, porque a alça estava ao redor da minha barriga segurando minhas calças, e não era grande coisa, porque não sobrava muito das minhas calças.

[...]

*

PERGUNTE AO PÓ
AUTOR John Fante
EDITORA José Olympio Editora
QUANTO R$ 29,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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