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26/07/2015 - 09h46

No aniversário de Mick Jagger, conheça biografia do líder dos The Rolling Stones

da Livraria da Folha

Divulgação
Philip Norman refaz os passos de Jagger e mostra como ele se tornou um showman sedutor, escandaloso e milionário
Philip Norman refaz os passos de Jagger e mostra como ele se tornou um showman sedutor, escandaloso e milionário

Mick Jagger é um dos astros da música que mais encarnou o ideal de sexo, drogas e rock'n'roll. Nesta biografia do líder dos Rolling Stones, Philip Norman refaz os passos da consagração do cantor e mostra como ele se tornou um showman sedutor, escandaloso e milionário.

A partir de uma pesquisa detalhada e diversas entrevistas, Norman reconstitui a infância de Mick, o início da carreira do grupo - quando os Rolling Stones rivalizavam com os Beatles - e acompanha cronologicamente a evolução da banda, revelando bastidores da criação de clássicos como "Satisfaction", "Brown Sugar" e "Start me Up".

A biografia também repassa os episódios turbulentos da carreira do astro e seu grupo, como a morte de Brian Jones, a relação de amor e ódio com Keith Richards, a prisão e o processo por porte de drogas em 1967 e o trágico concerto de Altamont, nos Estados Unidos, em 1969, quando um membro da plateia foi esfaqueado até a morte pelos Hell's Angels, enquanto Mick Jagger cantava "Sympathy for the Devil".

Abaixo, leia um trecho da biografia.

Baz Ratner/Reuters
Keith Richards, Mick Jagger e Ronnie Wood em apresentação no Hayarkon Park, em Israel, em junho de 2014
Keith Richards, Mick Jagger e Ronnie Wood em apresentação no Hayarkon Park, em Israel, em junho de 2014

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Meio século antes, quando os Rolling Stones disputavam cabeça a cabeça com os Beatles, uma das principais perguntas que costumavam ser feitas ao jovem Mick Jagger na eterna busca de algo esclarecedor ou interessante sobre sua pessoa era: será que ele achava que continuaria cantando "Satisfaction" aos trinta anos de idade?

Naquele inocente início dos anos 1960, a música pop era exclusiva dos jovens e imaginava-se que estava inteiramente nas garras da inconstância da juventude. Esperava-se que mesmo os empreendimentos mais bem-sucedidos - até os Beatles - passassem no máximo alguns meses no topo antes de serem atropelados por novos prediletos. Naquela época, ninguém adivinhava quantas daquelas aparentemente efêmeras canções ainda seriam ouvidas e tocadas pela vida afora, nem quantos daqueles cantores e bandas descartáveis ainda exerceriam seu ofício como idosos, recebidos com a mesma dedicação fanática enquanto ainda conseguissem cambalear pelo palco.

Em termos de longevidade, os Stones deixam todos os concorrentes para trás. Os Beatles mal duraram três anos como atração internacional ao vivo, e apenas nove ao todo (se descontarmos os dois anos que passaram envolvidos num acrimonioso rompimento). Outras bandas importantes dos anos 1960, como Led Zeppelin, Pink Floyd e The Who, quando não foram fraturadas por álcool ou drogas, se separaram com o passar do tempo, depois se reuniram, com o tédio terminal do antigo repertório e com seus integrantes mitigados pelas grandes propostas financeiras. Somente os Stones, outrora considerados os mais instáveis de todos, continuaram rolando de década a década, de um século a outro; fustigados pela morte sensacional de um dos integrantes e amargas demissões de outros dois (além de políticas internas que impressionariam os Médici); deixando para trás gerações de esposas e amantes; sobrevivendo a dois empresários, nove primeiros-ministros da Inglaterra e um igual número de presidentes dos Estados Unidos; inatingíveis pela mudança das tendências musicais, de políticas de gênero e questões sociais; como sexagenários de alguma forma mantendo ainda o mesmo vapor sulfúrico de pecado e rebelião que tinham aos vinte anos. Os Beatles têm um charme eterno; os Stones nunca deixaram de ser cortantes.

Ao longo das décadas desde o seu apogeu, a essência da música pop pouco mudou. Cada nova geração de músicos toca os mesmos acordes na mesma ordem, adotando a mesma linguagem de amor, desejo e perda; cada nova geração de fãs procura o mesmo tipo de ídolo masculino com o mesmo tipo de apelo sensual, o mesmo repertório de gestos, atitudes e manifestações de elegância.

A noção de uma "banda" de rock - um conjunto de jovens músicos gozando de fama, riqueza e oportunidades sexuais jamais sonhadas por suas contrapartes históricas em regimentos militares ou minas de carvão - já estava bem estabelecida na época em que os Stones começaram, e não mudou uma vírgula desde então. Continua sendo verdade que embora a indústria pop seja principalmente ilusão, exploração e tendências, ainda que três décadas de rap pareçam ter aniquilado qualquer necessidade de originalidade lírica ou melódica, os verdadeiros talentos continuarão a surgir e sempre resistirão. Desde sucessos evocativos como "Jumpin' Jack Flash" ou "Street fighting man" aos primeiros temas obscuros como "Off the hook" ou "Play with fire" e as versões cover R&B anteriores, a música dos Stones continua soando fresca e cortante como se tivesse sido gravada ontem.

Eles continuam como exemplos para qualquer banda de sucesso - os mesmos garotos rebeldes, refestelando-se de forma indelicada num sofá sob rajadas de flashes, as mesmas velhas perguntas sendo gritadas por repórteres e as mesmas respostas jocosas devolvidas. O tipo de turnê que eles desenvolveram nos anos 1960 ainda é o que todos querem: jatinhos particulares, limusines, os entourages, as tietes, quartos de hotel destruídos. Por mais que esteja bem documentado o quanto isso se torna monótono e destrói a alma, nem o brilhante relato de Christopher Guest da estupidez de uma superbanda viajando em This is Spinal Tap consegue destruir a mística de "cair na estrada", o eterno apelo do "sexo, drogas e rock'n'roll". Porém, por mais que esses jovens discípulos tentem, jamais poderiam reproduzir a picada aberta pelos Stones no mundo mais inocente de quarenta e tantos anos atrás, nem atingir níveis comparáveis de arrogância, libertinagem, histeria, paranoia, violência, vandalismo e alegria maldosa.

Acima de todos, Mick Jagger, em qualquer idade, foi inimitável. Foi Jagger quem, mais do que qualquer outro, inventou o conceito de "estrela" do rock, em oposição a mero cantor de uma banda - uma figura destacada de seus parceiros músicos (uma grande inovação naqueles dias de grupos unificados como os Beatles, Hollies, Searchers e outros) que primeiro desencadeou, depois invadiu e controlou uma miríade de fantasias de grandes multidões. Keith Richards, outra figura de proa nos Stones, é um guitarrista original e talentoso, além de o mais improvável sobrevivente do mundo do rock, mas pertence à tradição de trovador, que se estende até Blind Lemon Jefferson e Django Reinhardt, Noel Gallagher e Pete Doherty. Jagger, por outro lado, fundou uma nova espécie, criando assim uma nova linguagem que nunca poderia ser melhorada. Entre seus rivais no mundo do rock, só Jim Morrison dos Doors encontrou um jeito diferente de cantar em um microfone, aninhando-o ternamente, como um passarinho assustado, e não o agitando no estilo de Jagger, como um falo. Desde os anos 1970, muitas outras bandas talentosas surgiram, com muitos seguidores internacionais e proeminentes intérpretes - Freddie Mercury do Queen, Holly Johnson de Frankie Goes to Hollywood, Bono do U2, Michael Hutchence do inxs, Axl Rose do Guns 'n' Roses. Porém, por mais que conseguissem diferenciar-se nas gravações, quando subiam ao palco não tinham escolha a não ser seguir os passos firmes de Jagger.

Seu status como ícone sexual só se compara ao de Rodolfo "o sheik" Valentino, o astro do cinema mudo que provocava nas mulheres da década de 1920 palpitantes sonhos de serem atiradas na sela de um cavalo e levadas até à tenda de um beduíno no deserto. Com Jagger, a aura estava mais próxima dos grandes bailarinos, como Nijinsky e Nureyev, cuja aparência etérea era traída pelos lascivos olhares das bailarinas e do volumoso e protuberante volume nas calças justas. Os Stones foram uma das primeiras bandas de rock a ter um logotipo que, mesmo para a ousadia moral dos anos 1970, era bastante explícito - um desenho em vermelho vivo da boca de Jagger, os lábios cheios abertos com a mesma deselegância familiar, a língua para fora lambendo algo invisível que com certeza não era um sorvete. Essa "língua pendente" ainda permeia toda a literatura e o merchandising dos Stones, um símbolo de quem controla todos os departamentos. Aos olhos modernos, não poderia haver um monumento mais descarado ao velho chauvinismo masculino - mas continua acertando seu alvo. A maioria das mulheres liberadas do século XXI se agita ao som do nome de Jagger, enquanto as que ele cativou no século XX ainda pertencem a ele com todas as suas fibras. Quando eu estava começando este livro, mencionei o tema à minha vizinha ao lado durante um jantar, uma inglesa já madura, independente e de atitude digna. Sua resposta foi recriar a cena de Harry e Sally - feitos um para o outro, na qual Meg Ryan simula um orgasmo no meio de um restaurante lotado: "Mick Jagger? Ah... sim! YES, YES!".

É comum que ícones sexuais fiquem aquém de sua imagem pública na vida privada: pensem em Mae West, Marilyn Monroe ou até em Elvis Presley. Mas no mundo altamente sensual do rock, nos anais do showbiz, a reputação de Jagger como um Casanova moderno é insuperável. É questionável que mesmo os grandes sedutores dos séculos passados tenham encontrado parceiras sexuais em números tão prodigiosos, ou se conseguiam contornar com tanta frequência as cansativas preliminares da sedução. E com certeza nenhum manteve, como Jagger, sua potência na meia-idade e na velhice. (Casanova já estava exausto aos 35 anos.) O que Swift chamou de "furor da virilha" agora é conhecido como vício em sexo e pode ser curado por terapia, mas Jagger nunca mostrou sinais de que considerasse isso um problema.

Observando-se sua fisionomia escarpada, não dá para imaginar o imenso banquete carnal em que se refestelou, e do qual ainda não se saciou... a interminável galeria de lindos rostos e olhos ciosos e brilhantes... as inúmeras sequências de cantadas, feitas e recebidas... as inúmeras interrupções em camas, sofás, almofadas empilhadas, pisos de vestiários, boxes de chuveiros ou bancos de limusines... as vozes sempre diferentes, cheiros, tons de pele e cores de cabelo... os nomes instantaneamente esquecidos, se é que chegaram a ser conhecidos... É comum homens mais velhos serem revisitados em sonhos, ou em fantasias, pelas mulheres que desejaram. Para ele, seria como uma daquelas antigas paradas do Exército soviético na praça Vermelha. E pelo menos uma das lindas soldadas está na plateia do BAFTA esta noite, sentada a bem menos que um milhão de quilômetros de Brad Pitt.

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MICK JAGGER
AUTOR Philip Norman
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 26,00 (preço promocional*)
E-BOOK R$ 37,00 *

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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