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18/08/2015 - 15h21

Websérie adapta livro de José de Alencar para os dias atuais; conheça 'Dona Moça'

NILSEN SILVA
da Livraria da Folha

Oscar Wilde certa vez disse que a arte imita a vida. E a websérie "Dona Moça", com seus dez episódios que, juntos, não somam nem uma hora de duração, faz isso bebendo da fonte de um dos maiores clássicos da literatura brasileira: "Senhora", de José de Alencar.

Divulgação
Livro retrata momento de transformação da sociedade brasileira, em que os valores patriarcais são deixados de lado
Livro retrata momento de transformação da sociedade brasileira, em que os valores patriarcais são deixados de lado

Inspirada no modelo de vlog corporativo exibido em outra websérie de sucesso, a norte-americana "Emma Approved", "Dona Moça" se destaca pelo conteúdo descontraído e pela adaptação da história - originalmente publicada em 1875 - para a sociedade contemporânea. A realização fica por conta da Adorbs Produções, criada em 2014 com o intuito de desenvolver conteúdo original para a internet.

A história de José de Alencar narra o casamento entre Aurélia, moça pobre que se torna herdeira de grande fortuna, e Fernando Seixas, que frequenta os altos círculos da corte, mas é incapaz de sustentar sua vida luxuosa. Tudo muda quando Aurélia é trocada por uma moça com um dote maior que o seu e, após uma reviravolta, torna-se a herdeira de seu avô. Ela decide atrair Fernando de volta para si, anonimamente, por uma quantia três vezes maior, iniciando um jogo de intrigas.

Na websérie, a trama envolvendo o dote de casamento recebeu contornos mais atuais. Aurélia é uma moça que viveu uma vida difícil, mas se tornou a promoter mais requisitada da alta sociedade paulista. Por uma manobra do destino, ela contrata seu ex-namorado - que a trocou por uma socialite - como assistente.

Transformar a relação entre Aurélia e Fernando em um contrato de prestação de serviços foi apenas um dos fatores levados em conta durante o processo de adaptação. De acordo com Larissa Siriani, uma das responsáveis pelo roteiro e produção de "Dona Moça", a intenção é ser fiel à história original, sem abrir mão da liberdade criativa.

"Pensamos sempre em como aqueles personagens se envolveriam se vivessem no nosso período histórico, ou em como poderíamos adaptar uma cena específica para que ela tivesse o mesmo peso da original, sem desconsiderar a mudança de época", explica.

Adaptar o romance de José de Alencar parece uma tarefa complicada. Afinal, muita coisa mudou desde 1875. Porém, "Senhora" destoa dessa imagem por ser um romance moderno. "As ideias por trás de 'Senhora' já são por si muito à frente do seu tempo, e acho que isso colabora na hora de adaptar", ressalta Siriani.

Múltiplas plataformas

Exibida durante os meses de maio e julho, "Dona Moça" não se restringe apenas ao Youtube, onde maior parte da história é desenvolvida. Pensando na familiaridade do público jovem com redes sociais e novas tecnologias, seus criadores decidiram expandir o universo e criar uma produção transmídia, ou seja, que trabalha com diversas plataformas de comunicação.

Siriani explica que um único programa pode atingir diversos públicos. "Existe o espectador casual, aquele que vê por acaso. O fixo, que acompanha a programação, talvez até se interesse em buscar coisas sobre a série. E o engajado, que é aquele que acompanha tudo em todas as mídias possíveis".

Atualizadas diariamente, contas em redes sociais como Twitter e Instagram funcionam como perfis pessoais dos personagens, dinamizando o projeto e permitindo que o público esteja sempre em contato com a série.

"É o tipo de relação que não dá para forjar com uma novela, por exemplo. E como as mídias são paralelas, perder a iniciativa transmídia também não prejudica o seu acompanhar da série. Só complementa", esclarece Siriani.

Além do Youtube, Twitter e Instagram, os personagens marcam presença no 8tracks, mantendo perfis ativos na rede de música, criando e compartilhando playlists que revelam seus estados de espírito, e no blog oficial da Dona Moça Eventos, atualizado por Aurélia e sua amiga Fifi Mascarenhas, que complementa assuntos abordados nos vídeos.

As publicações nas redes sociais não têm tradução, mas todos os episódios da série trazem legendas em inglês - um investimento da equipe para atingir um público estrangeiro. Deu tão certo que expectadores de outros países já entraram em contato perguntando onde poderiam encontrar uma versão em inglês de "Senhora".

Outro filão mirado pela equipe são as escolas. "Ao escolher um clássico da literatura para adaptar, queremos mostrar para os jovens que estão hoje no colégio estudando essas escolas e obras literárias que clássico não precisa ser sinônimo de chatice".

Assista ao vídeo

Novos rumos

Em julho, a equipe iniciou uma campanha de financiamento coletivo no Kickante para a produção da segunda temporada. As doações têm como objetivo garantir episódios com o mesmo padrão de qualidade.

Siriani explica que o cálculo levou em conta a compensação financeira da equipe, gastos com alimentação durante o período de gravação e despesas com equipamento, figurino e cenário. A campanha termina em 6 de setembro. Para contribuir é só acessar a página da campanha.

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LIVRARIA: O que o público pode esperar da segunda temporada?

SIRIANI: Não dá para contar muito sem deixar escapar muitos spoilers, mas podemos prometer pelo menos um canal paralelo, um novo personagem, cenários diferentes e mais vídeos com outros personagens além da Aurélia e da Fifi.

LIVRARIA: Há planos de adaptar outros clássicos da literatura brasileira? E histórias estrangeiras?

SIRIANI: Com certeza. Cada um de nós tem um clássico que gostaria de adaptar, e queremos ter tempo e dinheiro para todos eles. "Dom Casmurro", "Iracema", "O Guarani"... temos vários clássicos na nossa mira. Quanto aos estrangeiros, por mais interesse que tenhamos, sabemos que tem gente de sobra para cuidar deles por nós. Queremos valorizar o que o nosso país tem de bom, seja da época que for.

LIVRARIA: É necessário ter lido 'Senhora' para acompanhar a websérie?

SIRIANI: De maneira alguma. Temos muitos espectadores que não leram e conseguem acompanhar muito bem. Acho que ter lido ou não apenas cria uma experiência diferenciada; se você já conhece a história, pode criar palpites sobre como acredita que as adaptações futuras serão. Se não leu, pode se divertir com a expectativa da sua própria imaginação. Dá para aproveitar das duas formas.

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