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16/09/2015 - 18h30

Leia trecho de 'A Vida Sem Crachá', de Claudia Giudice

da Livraria da Folha

Divulgação
Além de relatar a trajetória de Claudia Giudice, livro inclui dicas para futuros empreendedores
Além de relatar a trajetória de Claudia Giudice, "A Vida Sem Crachá" inclui dicas para futuros empreendedores

Em agosto de 2014, Claudia Giudice foi demitida da maior editora do país. Repórter, editora, diretora de redação, diretora de núcleo, diretora-superintendente de duas grandes unidades de negócios: Giudice viu mais de duas décadas de carreira terminarem em apenas alguns segundos.

Algum tempo depois, ela teve um insight que virou sua vida do avesso. Ao pedalar na ciclovia da avenida Faria Lima, em São Paulo, ela tomou a decisão de criar um blog e continuar o ofício que ocupou por anos, desta vez de maneira mais livre e sem cobranças.

Leia também: Após demissão, jornalista segue plano B para viver sem crachá

"Foi a minha redenção. Foi a minha salvação. Quando estava triste, escrevia. Quando estava feliz, escrevia", escreve no prólogo de "A Vida Sem Crachá".

Além de relatar sua própria trajetória, Claudia Giudice apresenta dicas para futuros empreendedores. Entre os tópicos abordados estão a importância de um plano de negócios, qualidade e eficiência, onde encontrar ajuda para colocar o sonho de pé, além de uma lista de sites e blogs indicados para quem quer começar a correr atrás de um plano B.

Abaixo, leia um trecho do livro.

*

O DIA D

O meu dia D foi diferente. Não porque soubesse que seria D para mim. Sabia que algo aconteceria na firma naquele dia. Esse é um ponto importante. Em geral, quem tem crachá nunca acha que chegou a hora de perdê-lo. É difícil fazer essa autocrítica. Analisar com o quadrado SWOT* as nossas forças e fraquezas. Naquela manhã, cheguei mais cedo do que o normal. No elevador do subsolo, exclusivo dos chefes, encontrei a vice-presidente de RH. Ela já sabia de tudo e, contrariando seu jeito silencioso, foi gentil ao comentar a cor da minha roupa. Era um sinal. Não soube ler os sinais.

Como era cedo, desci para tomar um café com um amigo. Havia um climão no ar. Não temia nada e tinha minha lista de demitidos, porque todos os feedbacks (odeio esse termo), principalmente os de minha chefe, eram positivos.

Não soube ler os sinais e passei meses tirando água dos pulmões. A lógica é simples. Sempre que houver um tsunami na empresa e você, que tem cargo de chefia, não souber de nada, prepare-se. Existem 99% de chance de a onda gigante levar você. Chefes fazem escolhas. Se não o chamaram para escolher, é porque o escolheram. Simples assim. Perdeu, chefia.

Dito e feito. Às dez horas da manhã começou.

O celular treme: "Clau, fui demitida." Esse foi o WhatsApp que recebi de uma amiga, diretora de marketing. Respondo de batepronto: "Que chato. Não fica triste. Quem te demitiu?". A resposta não volta e subo para falar com minha chefe. O zum-zumzum aumenta. Novos nomes na roda. Ainda não sinto medo. Minha chefe havia jantado com o patrão na semana anterior. Estava tudo bem.

Onze horas. Minha chefe sobe para uma reunião previamente agendada pelo CEO.* Volto para minha mesa. Vamos trabalhar. Às 11h02, a secretária do presidente-executivo me chama. "Ele quer falar com você." O coração dispara. Na hora falei com meus botões: "De dois um: está me chamando para me demitir ou para dizer que conta comigo." Caminho para o elevador me sentindo um gladiador indo ao Coliseu. Estávamos perto. Em dois minutos, chego à sala. Entro sorrindo, simpática. Ele pega o gancho e o gerúndio. "Você está sempre rindo, feliz, não é, Claudia? Pena que a notícia não é boa. Você está sendo demitida." Ainda com o sorriso, agora amarelo, consigo balbuciar: "Onde eu assino?"

Não quis saber motivos. Não quis falar. Não quis ouvir. Só queria sair dali para me recompor e processar a informação. O meu dia D havia chegado. Estava fora da empresa na qual trabalhara por 23 anos e alguns meses. Estava fora do lugar onde me divertia e ganhava o pão. Estava fora da casa onde realizei projetos incríveis e surpreendentes. Estava fora do ponto de encontro com meus melhores amigos. Estava fora da corporação para a qual dei meu tempo, meu sangue e meu amor.

E agora, Claudia?

Celular. Preciso contar para a minha amiga que também rodei. Devolvo o Whats: "Também fui." A adrenalina está nas alturas. Sinto medo e alívio. Não preciso mais encontrar patrocinador para desfiles de moda, festas de Réveillon e camarotes no Carnaval. Não preciso mais demitir diretores de redação. O planejamento orçamentário não é mais meu e não mais sofrerei por não cumpri-lo. Estou livre. Estou perdida.

Subo um andar para falar com minha chefe. Tentar entender o que aconteceu. Por que ela não me demitiu? Elementar, diria Holmes. Porque ela também caiu. Degola geral. Mais de quinze diretores na rua.

Aproveito para fazer um parágrafo. É melhor ser demitido em bloco. Dá um certo alívio e o discurso é mais fácil, mais palatável. Posso dizer: "Fui demitida porque houve uma reestruturação na empresa." No fim, claro, dá no mesmo. Nas primeiras 24 horas é bom. Ajuda. Principalmente no momento de dar a notícia à família. Meus pais foram os primeiros a saber. Decidi ser rápida e cirúrgica. Liguei para o meu pai com o sangue ainda fervendo.

Pai, acabou. Fui demitida. Está a maior confusão aqui. Preciso que você pegue Chico na escola.

Assim, num tuíte, contei para a família que minha bem-sucedida carreira executiva tinha um ponto final. Nas entrelinhas do discurso, avisava também que teríamos tempos difíceis, de economia e de contenção. Que continuaria a cuidar de todos com igual atenção, mas com menos fartura de agrados e de presentes. Na hora, meu pai, minha mãe e meu filho reagiram com fleuma e silêncio. Eles me protegeram, me acariciaram e pouco perguntaram. As falas viriam depois. Meus colegas também estavam abalados. Cada um, a seu modo, se sentia traído, desprezado e enganado pelos patrões, que haviam dado sinais positivos sobre nossa gestão e aprovado mudanças e investimentos.

APRENDIZADO 1: NUNCA ESPERE VERDADE, SOLIDARIEDADE, JUSTIÇA DE PATRÕES. ELES PODEM SER, SIM, VERDADEIROS, SOLIDÁRIOS E JUSTOS. É UMA ESCOLHA, MAS NÃO OBEDECE A REGRA NEM A LÓGICA. ANTES DE TUDO, SÃO PATRÕES. COMO TAIS, PREOCUPAM-SE COM SEUS INTERESSES E ZELAM PELO EBTIDA*, PELO VALOR DA EMPRESA NA BOLSA DE VALORES E, PRINCIPALMENTE, PELO PATRIMÔNIO QUE LEGARÃO AOS FILHOS.

APRENDIZADO 2: NÃO EXISTE ESTABILIDADE E GARANTIA DE EMPREGO PARA NINGUÉM, COM EXCEÇÃO DOS FUNCIONÁRIOS QUE FAZEM PARTE DA CIPA (COMISSÃO INTERNA DE PREVENÇÃO DE ACIDENTES) E DOS QUE SÃO DIRETORES DO SINDICATO. NO MAIS, O DIA D PODE CHEGAR PARA QUALQUER UM.

APRENDIZADO 3: POR MAIS QUE VOCÊ SE PREPARE PARA ESSE DIA (ACHEI QUE TINHA FEITO ISSO), A NOTÍCIA DE SUA DEMISSÃO É UM CHOQUE. É COMO UM RAIO QUE CAI EM SUA CABEÇA E A PARTE AO MEIO. PERDI O CRACHÁ, PERDI O SALÁRIO, PERDI UM TRABALHO QUE AMAVA, PERDI A CONVIVÊNCIA COM OS AMIGOS. EM RESUMO, PERDI MINHA PELE. FIQUEI EM CARNE VIVA E DOEU. A BOA NOTÍCIA É QUE SE PARECE COM RALAR O JOELHO. DÓI MUITO NO COMEÇO. INCOMODA. DEPOIS FORMA A CASCA E, COM O TEMPO, DEIXA SÓ UMA MARCA BRANCA FEIA, INDOLOR. NÃO SINTO MAIS NADA.

APRENDIZADO 4: ESCOLHI ESCANCARAR MEUS SENTIMENTOS. EXPULSAR MEUS FANTASMAS DO SÓTÃO E FAZER MINHA TERAPIA E CURA EM PRAÇA PÚBLICA. NÃO QUIS FAZER A FINA NEM A SUPERIOR. NOS PRIMEIROS DIAS, ACHO ATÉ QUE EXAGEREI. CONTEI QUE TINHA SIDO DEMITIDA ATÉ PARA A MOÇA QUE PEDIU DINHEIRO PARA A UNICEF NA PORTA DO METRÔ. CONDOÍDA, ELA DISSE: "RELAXA, VOCÊ COLABORA COM A GENTE DEPOIS." FALAR FOI BOM. EXPURGUEI E EVITOU TAMBÉM EXPLICAÇÕES CONSTRANGEDORAS NO FUTURO. TODO MUNDO FICOU SABENDO: CLAUDIA GIUDICE PERDEU O CRACHÁ.

A PRIMEIRA SEMANA SEM CRACHÁ A GENTE NÃO ESQUECE

No azar, dei uma baita sorte. Fui demitida em uma segunda-feira. Tinha uma viagem de férias marcada para a quinta-feira da mesma semana. Fui. Viajei para a América do Norte e lidei com meus fantasmas longe de casa e de minha ex-rotina. Foi uma bênção. Ganhei fôlego e proteção. Quando retornei, minha nova pele surgia e já doía um pouco menos.

Antes de seguir para o aeroporto, me vali das redes sociais para compartilhar meus sentimentos, colher agrados e apoios. Fiz um post no Facebook. Era sincero e mobilizador. Agradecia às pessoas com as quais havia trabalhado nesses 23 anos.

Obrigada a todos que compartilharam esses anos incríveis comigo. Saio leve e feliz. Porque morri sorrindo e lutando, como deve ser.

O post teve mais de 600 curtidas e 156 comentários. Meu filho ficou impressionado com minha popularidade e eu fiquei contente por merecer tanto carinho. Foi bom, precisava disso. No dia do post, estava leve e feliz de verdade. Esse sentimento, claro, mudou no correr dos dias. Eu tinha uma enorme expectativa de recolocação imediata. Ficar na pista alguns minutos e ver uma fila de pretendentes querendo dançar comigo e me contratar. Não foi isso que aconteceu. Fui sondada, ouvi algumas propostas e recebi apoio e abrigo. A fila de pretendentes segue na fantasia. Sempre disse e continuarei dizendo: o melhor jeito de procurar emprego é empregado. Está de saco cheio e quer mudar de vida? Planeje sua saída, monte seu plano B e preserve o seu salário até a hora de dizer adeus.

No capítulo do plano B, foi o que fiz. Construí minha pousada, inaugurei-a e coloquei-a de pé (junto com minha sócia) tendo a segurança e a tranquilidade de um bom contracheque. No entanto, tratava meu plano B como C. Nada era mais importante do que o meu trabalho. Comecei a trabalhar cedo, aos dezesseis. Me aposentei oficialmente, após trinta anos de contribuições ao INSS, no dia 17 de junho de 2015. Nunca antes na história de minha vida havia ficado desempregada. Sempre engatei um trabalho noutro. Sempre pedi para sair. Nunca havia sido "saída". A pousada até o dia D era como um desafio, uma maratona para correr no final de semana... Eu me achava tão "fodona" que podia ser diretora-superintendente de uma grande empresa e ao mesmo tempo empreendedora de sucesso. Eu era sim, muito burra.

Foi na primeira semana ao léu, sem identidade corporativa definida, que parti para a Califórnia. Lá, longe de tudo, fui purgando lentamente a hecatombe de sentimentos gerados no dia D. Tinha estado firme e forte para mim, para minha família e para meus amigos. Foi nos Estados Unidos que desabei, como uma Torre Gêmea, pela primeira vez. Sem a afinação do Cauby Peixoto, chorei, chorei até ficar com dó de mim.

APRENDIZADO 1: SE FOR DEMITIDO E PUDER VIAJAR NA SEQUÊNCIA, EMBARQUE. É UM INVESTIMENTO EM SUA SAÚDE MENTAL.

APRENDIZADO 2: PEÇA E ACEITE A SOLIDARIEDADE DOS AMIGOS. ELES PODEM AJUDÁ-LO A ORGANIZAR UM PLANO B OU ARRUMAR OUTRO EMPREGO E, PRINCIPALMENTE, SERÃO FUNDAMENTAIS NO RESGATE DE SUA AUTOESTIMA.

APRENDIZADO 3: NO COMEÇO, CHORAR FAZ MUITO BEM. ESVAZIA O PEITO E EVITA DOENÇAS COLATERAIS. DEPOIS DO CHORO (O MEU FOI CONVULSIVO) VEM UM CANSAÇO E UMA PAZ DANADA. NO MEU CASO, DUROU POR VÁRIOS DIAS.

APRENDIZADO 4: CONFORME FOREM OS MESES SEGUINTES, PODE HAVER OUTRO DESABAMENTO, CAIR A SEGUNDA TORRE GÊMEA. VALE O APRENDIZADO 3.

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A VIDA SEM CRACHÁ
AUTOR Claudia Giudice
EDITORA Agir
QUANTO R$ 19,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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