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28/10/2015 - 11h30

Autora nigeriana defende direitos das mulheres em 'Sejamos Todos Feministas'

da Livraria da Folha

Divulgação
Nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie defende a importância do feminismo
Nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie defende a importância do feminismo

"Sejamos Todos Feministas" é uma adaptação do discurso feito pela nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie no TEDx Euston. O vídeo, que conta com mais de 1,5 milhão de visualizações no Youtube, foi musicado por Beyoncé.

No livro, a autora utiliza sua experiência pessoal para refletir sobre o que ainda precisa ser feito para que a mulher não anule mais sua personalidade para atender às expectativas dos outros. Ela também defende a liberdade dos homens, afirmando que eles não precisam se adequar aos estereótipos de masculinidade.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 1977. Sua obra foi traduzida para mais de 30 línguas e apareceu em inúmeras publicações como a "New Yorker" e a "Granta". Ela recebeu diversos prêmios, entre eles o Orange Prize e o National Book Critics Circle Award.

Leia abaixo um trecho do livro.

*

Okoloma era um dos meus melhores amigos de infância. Morávamos na mesma rua e ele cuidava de mim como um irmão mais velho: quando eu gostava de um garoto, pedia a opinião dele. Engraçado e inteligente, usava uma bota de caubói de bico pontudo. Em dezembro de 2005, ele morreu num acidente de avião, no sudoeste da Nigéria. Até hoje não sei expressar o que senti. Era uma pessoa com quem eu podia discutir, rir e ter conversas sinceras. E também foi o primeiro a me chamar de feminista.

Eu tinha catorze anos. Um dia, na casa dele, discutíamos - metralhávamos opiniões imaturas sobre livros que havíamos lido. Não lembro exatamente o teor da conversa. Mas eu estava no meio de uma argumentação quando Okoloma olhou para mim e disse: "Sabe de uma coisa? Você é feminista!". Não era um elogio. Percebi pelo tom da voz dele - era como se dissesse: "Você apoia o terrorismo!".

Não sabia o que a palavra "feminista" significava. E não queria que Okoloma soubesse que eu não sabia. Então disfarcei e continuei argumentando. A primeira coisa que faria ao chegar em casa seria procurar a palavra no dicionário.

*

Em 2003, escrevi um romance chamado Hibisco roxo, sobre um homem que, entre outras coisas, batia na mulher, e sua história não acaba lá muito bem. Enquanto eu divulgava o livro na Nigéria, um jornalista, um homem bem-intencionado, veio me dar um conselho (talvez vocês saibam que nigerianos estão sempre prontos a dar conselhos que ninguém pediu).

Ele comentou que as pessoas estavam dizendo que meu livro era feminista. Seu conselho - disse, balançando a cabeça com um ar consternado - era que eu nunca, nunca me intitulasse feminista, já que as feministas são mulheres infelizes que não conseguem arranjar marido. Então decidi me definir como "feminista feliz".

Mais tarde, uma professora universitária nigeriana veio me dizer que o feminismo não fazia parte da nossa cultura, que era antiafricano e que, se eu me considerava feminista, era porque havia sido corrompida pelos livros ocidentais (o que achei engraçado, porque passei boa parte da juventude devorando romances que não eram nada feministas: devo ter lido toda a coleção água com açúcar publicada pela Mils & Boon antes dos dezesseis anos. E toda vez que tentava ler os tais livros clássicos sobre feminismo, ficava entediada e mal conseguia terminar). De qualquer forma, já que o feminismo era antiafricano, resolvi me considerar "feminista feliz e africana". Depois, uma grande amiga me disse que, se eu era feminista, então devia odiar os homens. Decidi me tornar uma "feminista feliz e africana que não odeia homens, e que gosta de usar batom e salto alto para si mesma, e não para os homens".

É claro que não estou falando sério, só queria ilustrar como a palavra "feminista" tem um peso negativo: a feminista odeia os homens, odeia sutiã, odeia a cultura africana, acha que as mulheres devem mandar nos homens; ela não se pinta, não se depila, está sempre zangada, não tem senso de humor, não usa desodorante.

*

Quando eu estava no primário, em Nsukka, uma cidade universitária no sudeste da Nigéria, no começo do ano letivo a professora anunciou que iria dar uma prova e quem tirasse a nota mais alta seria o monitor da classe. Ser monitor era muito importante. Ele podia anotar, diariamente, o nome dos colegas baderneiros, o que por si só já era ter um poder enorme; além disso, ele podia circular pela sala empunhando uma vara, patrulhando a turma do fundão. É claro que o monitor não podia usar a vara. Mas era uma ideia empolgante para uma criança de nove anos, como eu. Eu queria muito ser a monitora da minha classe. E tirei a nota mais alta.

Mas, para minha surpresa, a professora disse que o monitor seria um menino. Ela havia se esquecido de esclarecer esse ponto, achou que fosse óbvio. Um garoto tirou a segunda nota mais alta. Ele seria o monitor. O mais interessante é que o menino era uma alma bondosa e doce, que não tinha o menor interesse em vigiar a classe com uma vara. Que era exatamente o que eu almejava. Mas eu era menina e ele, menino, e ele foi escolhido. Nunca me esqueci desse episódio.

Se repetimos uma coisa várias vezes, ela se torna normal. Se vemos uma coisa com frequência, ela se torna normal. Se só os meninos são escolhidos como monitores da classe, então em algum momento nós todos vamos achar, mesmo que inconscientemente, que só um menino pode ser o monitor da classe. Se só os homens ocupam cargos de chefia nas empresas, começamos a achar "normal" que esses cargos de chefia só sejam ocupados por homens.

Eu tendo a cometer o erro de achar que uma coisa óbvia para mim também é óbvia para todo mundo. Um dia estava conversando com meu querido amigo Louis, que é um homem brilhante e progressista, e ele me disse: "Não entendo quando você diz que as coisas são diferentes e mais difíceis para as mulheres. Talvez fosse verdade no passado, mas não é mais. Hoje as mulheres têm tudo o que querem". Oi? Como o Louis não enxergava o que para mim era tão óbvio?

Adoro voltar para a minha casa na Nigéria, e passo a maior parte do tempo em Lagos, uma das maiores cidades e o grande centro comercial do país. Às vezes, à noite, quando não está tão quente e o ritmo da cidade desacelera, saio com amigos ou a família e vamos a restaurantes e cafés. Numa dessas ocasiões, Louis e eu saímos com uns amigos.

Em Lagos, há um ritual maravilhoso: alguns jovens costumam ficar na porta dos estabelecimentos e "ajudar" as pessoas a estacionar o carro. Lagos é uma metrópole com quase vinte milhões de habitantes, com mais energia do que Londres, com um espírito mais empreendedor do que Nova York, e, portanto, as pessoas estão sempre inventando maneiras de ganhar a vida. Como na maioria das grandes cidades, é difícil encontrar uma vaga para estacionar à noite, então esses caras se viram como podem. Mesmo quando não há nenhuma vaga disponível, eles manobram o carro e, com gestos largos e teatrais, prometem tomar conta do veículo até você voltar. Impressionada com o empenho do sujeito que descolou uma vaga para nós naquela noite, decidi lhe dar uma gorjeta. Abri a bolsa, peguei o dinheiro e lhe dei. E ele, feliz e grato, pegou o meu dinheiro, olhou para o meu amigo e disse: "Muito obrigado, senhor!". Surpreso, Louis me perguntou: "Por que ele está me agradecendo? Não fui eu quem deu o dinheiro". Percebi então, pela expressão de meu amigo, que a ficha tinha caído. Para o flanelinha, qualquer dinheiro que eu pudesse ter certamente provinha de Louis. Porque Louis é homem.

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SEJAMOS TODOS FEMINISTAS
AUTOR Chimamanda Ngozi Adichie
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 9,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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