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02/10/2015 - 12h13

Leia trecho de 'Em Defesa do Preconceito', de Theodore Dalrymple

da Livraria da Folha

Divulgação
Para Dalrymple, o ideal é aceitar que todos sejamos livres-pensadores, questionando tudo aquilo que aprendemos
Para Dalrymple, o ideal é aceitar que todos sejamos livres-pensadores, questionando tudo aquilo que aprendemos

No livro "Em Defesa do Preconceito", o psiquiatra e escritor britânico Theodore Dalrymple defende a necessidade de também termos ideias preconcebidas, apontando que a verdadeira razão para o surgimento desse ideal de liberdade de pensamento é que não queremos ter nossas ações restritas.

Ele explica que, influenciados pelo racionalismo de Descartes e Mill, rejeitamos qualquer autoridade sobre nosso comportamento moral, seja essa autoridade a religião, a história ou as convenções sociais.

Consequentemente, isso faz com que percamos importantes reguladores de comportamentos antissociais.

Dalrymple é conhecido por discutir temas polêmicos. Em "Nossa Cultura...ou o que Restou Dela", ele apresenta sinais da degradação do Ocidente, da política à literatura, em 26 ensaios que abordam o colapso dos valores e o significado de barbárie e como ela invadiu o Ocidente.

Abaixo, leia um trecho do livro.

*

Os Empregos do Ceticismo Metafísico

Podemos investigar por que hoje temos tantos Descartes em nosso mundo, ao passo que, no século XVII, havia apenas um. Descartes, recordemos, que tão ardentemente desejou formular um primeiro princípio filosófico indubitável, era um gênio. Matemático, físico e filósofo, e com uma escrita tão clara que até hoje é usada como padrão estilístico, pela qual os escritos dos intelectuais franceses são ou deveriam ser avaliados. Então, não seria o caso de termos criado toda uma raça de gigantes filosóficos, cuja paixão é examinar a metafísica da existência humana? Espero que eu não seja acusado de Inimigo do Povo ao levantar algumas dúvidas.

A popularidade do método cartesiano não decorre de um desejo de remover as dúvidas metafísicas e encontrar a certeza, mas o que ocorre é precisamente o oposto: jogar dúvida em todas as coisas e, portanto, aumentar o escopo de licenciosidade pessoal ao destruir, de antemão, quaisquer bases filosóficas para a limitação dos próprios apetites. Ao menos hoje em dia, o cético radical não se interessa tanto assim pela verdade, mas importa-se muito mais com a sua liberdade - o que vale dizer, uma liberdade concebida como o mais amplo campo para a satisfação de seus caprichos. Ele se insere na dimensão das questões morais da mesma forma que um solteirão convicto se insere na dimensão dos relacionamentos. Ele reluta em excluir quaisquer possibilidades, e não admitirá a imposição de limites sobre si mesmo, mesmo aqueles que são tidos como puramente simbólicos. Certa vez tive uma paciente que tentara o suicídio porque o seu eterno namorado se recusava a pedi-la em casamento. Ao conversar com o rapaz, perguntei o motivo da recusa, e ele respondeu-me que aquilo (o casamento) era apenas um pedaço de papel e não significava muito. "Se é apenas um pedaço de papel e não significa nada", perguntei-lhe, "por que você não assina? Para você, não vai mudar nada, mas isso traria uma imensa alegria a ela." De repente, tornando-se alguém movido pelo mais profundo princípio, ele me disse que não queria viver uma farsa. Eu quase pude ouvir a justificativa de fundo: um amor verdadeiro e um compromisso real são questões do coração, os quais não precisam da ingerência da Igreja ou do Estado para selá-los.

O ceticismo desses céticos radicais, os quais exigem uma base cartesiana a partir da qual examinarão qualquer questão, ao menos as questões que tenham alguma implicação na forma como devem conduzir as suas vidas, varia de acordo com o assunto. São poucos os que se mostrarão céticos a ponto de duvidar que o Sol surja amanhã, muito embora eles tenham certa dificuldade na hora de oferecer evidências sólidas que sustentem a teoria heliocêntrica (ou qualquer outra) do sistema solar. Esses céticos acreditam que, ao apertarem a tomada, a luz se acenderá, mesmo que lhes falte qualquer conhecimento sobre teoria da eletricidade. Todavia, um feroz e insaciável espírito investigativo os domina por completo no exato momento em que percebem que os seus interesses estão em jogo - o que significa, mas precisamente, a liberdade ou licença para que possam agir segundo os seus caprichos. Então, subitamente, todos os recursos da filosofia lhes são disponibilizados, e serão imediatamente usados para desqualificar a autoridade moral dos costumes, da lei e da sabedoria milenar.

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EM DEFESA DO PRECONCEITO
TRADUTOR Maurício G. Righi
AUTOR Theodore Dalrymple
EDITORA Editora É Realizações
QUANTO R$ 33,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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