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09/10/2015 - 15h19

Empoderamento de garotas adolescentes é tema de revista online; leia trecho

da Livraria da Folha

A revista online "Capitolina" surgiu em 2014 como uma alternativa à mídia tradicional voltada para meninas adolescentes. Com a proposta de criar um conteúdo colaborativo, inclusivo e livre de preconceitos, a publicação aborda temas como relacionamentos, feminismo, cinema, moda, games e viagens.

A edição reúne os melhores textos publicados em um ano de revista, além de vários artigos inéditos, todos eles ilustrados. No total, são 41 autoras e 23 artistas. Para completar, há atividades interativas para que cada leitora ajude a construir o livro e dê a ele seu toque pessoal.

Abaixo, leia um trecho do livro.

Divulgação
Livro reúne os melhores textos publicados em um ano de revista, além de vários artigos inéditos, todos eles ilustrados
Livro reúne os melhores textos publicados em um ano de revista, além de vários artigos inéditos, todos eles ilustrados

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VOCÊ NASCEU PARA ISSO: SER UM MILHÃO EM UMA
Beatriz Trevisan

Dizer que alguém "nasceu para isso" é sempre uma tentativa de definir um destino. Como se possuir determinado talento ou personalidade implicasse que eles estariam presentes para sempre, estáticos - e, além disso, fariam com que houvesse um momento em algum ponto da vida da pessoa do qual ela simplesmente não pudesse escapar.

Mas isso parece um pouco sem sentido. A própria palavra destino é meio engraçada. O destino de uma viagem é o final dela; por que, então, quando pensamos no destino da vida, não pensamos na morte? Já adianto: ainda bem que não! Seria mórbido focar na ideia de que a destinação da vida é simplesmente seu esgotamento, e não um momento grandioso, de epifania, em direção ao qual caminhamos e o qual esperamos atingir durante todo o tempo que passamos na Terra. Mas espera aí: também não sei se o real significado da palavra é essa coisa toda romantizada. Afinal de contas, se eu acho que meu destino é ser rica e famosa como a Beyoncé, o que acontece depois que eu conseguir? Minha vida acaba e deixa de ter sentido? E se eu nunca alcançar esse objetivo, terei vivido anos e anos em vão?

É aí que entra a parte interessante: nosso destino não precisa ser - e não é - estanque. Aliás, nunca poderia ser, porque a vida é uma série de momentos e escolhas. Pareceria estranho se no meio de tudo isso tivéssemos só uma identidade que nunca se modificasse e, por isso, um único objetivo maior e imutável. É absolutamente natural e incrível que nossa identidade varie em meio a tantas experiências e vivências, e, com ela, variem ainda os vários objetivos que queremos alcançar. Temos um montão de destinozinhos que vão dançando conforme a música que a gente canta. Alguns se destacam, outros ficam esquecidos. Uns eliminam outros, e alguns só são possíveis porque outros apareceram no meio da estrada. Mas todos, sem exceção - mesmo os que já ficaram no passado! -, mudam conforme a gente muda. E aí termina a parte interessante e entra a parte engraçada: apesar de destino, no dicionário, significar final, ele traz, na verdade, renovação e metamorfose.

Então, se essa palavra tem tanto a ver com movimento e, portanto, tão pouco a ver com ficar parado, eu me pergunto por que tem gente que parece querer colocar um objetivo dourado com luzes piscantes na nossa frente, sem que a gente dê o consentimento para que isso aconteça? Por que é, então, que teimamos na ideia de "nasci para tal coisa"?

Na verdade, isso é só mais um episódio da série Quero Te Encaixar Nos Meus Padrões. Não é novidade para ninguém que sempre vai existir quem queira nos enquadrar em alguns estereótipos. Alguns deles são mais gerais, do tipo "se você é mulher, tem que ser sensível", e alguns são direcionados a uma pessoa específica. Em muitas discussões sobre feminismo, já me disseram: "Que estranho você falando alto desse jeito! Você é sempre tão delicada/ calma/ tranquila. Você não é assim". Bom, em alguns momentos eu sinto necessidade de me exaltar, peço desculpas se antes não me sentia assim (brincadeira, não peço não), mas isso mudou agora. E não tenho uma personalidade fixa, tem muitos eus dentro de mim, às vezes ao mesmo tempo, às vezes se alternando. Existe um medo muito grande da mudança e uma pressão velada para que sempre gostemos das mesmas coisas e ajamos da mesma forma, como se mudança não fosse, na realidade, a única constante da vida (se eu conseguisse escrever um texto todo sobre esse assunto sem nenhum clichê ia ser muito esquisito).

Só que ninguém é sempre igual, nem mesmo nossa(s) identidade(s). Conforme trilhamos uma estrada temos o direito de modificar o rumo que estamos seguindo, e, principalmente, de fazer isso sem dar satisfações. E a frase "você nasceu para isso" é negar esse direito de escolha, que no final das contas é o que mantém o caminho da vida em movimento. É acreditar num destino estagnado e entalhado em pedra, que não é real, mas que é tão, tão fácil de aceitar, que acabamos tomando a expectativa alheia sobre nós como verdade absoluta. Mais do que isso: aceitá-lo é acreditar que somos limitadas, quando na verdade somos infinitas, temos um universo dentro de nós. Mas, se acreditamos que só podemos ser uma única coisa predeterminada, quando percebemos que não vamos conseguir alcançar aquilo para que, em teoria, nascemos, nos sentimos frustradas, desmotivadas e perdidas. Como se perdêssemos quem somos, enquanto, na verdade, estamos nos encontrando e nos descobrindo a cada dia.

Ainda bem que essa necessidade de suprir as expectativas alheias - adivinhe! - também é mutável, e essa mudança pode ocorrer a qualquer momento. Minha sugestão é que esqueçamos o "você nasceu para", a menos que essa frase se complete com "caminhar no seu próprio tempo, mudando de rumo quando quiser e apreciando suas várias conquistas, e, especialmente, sendo um milhão em uma, sem ficar esperando um pote de ouro no final do arco-íris".

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CAPITOLINA
AUTOR Vários
EDITORA Seguinte
QUANTO R$ 31,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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