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26/10/2015 - 10h25

'A pobreza diminuiu porque os pobres deixaram de nascer'; leia trecho

da Livraria da Folha

Divulgação
Novo volume da coleção "Guia Politicamente Incorreto" desmascara os clichês que regem a economia brasleira
Novo volume da coleção "Guia Politicamente Incorreto" desmascara os clichês que regem a economia brasleira

No "Guia Politicamente Incorreto da Economia Brasileira" (Editora Leya), Leandro Narloch revela os clichês econômicos repetidos diariamente na mídia e na política, além de desmascarar e identificar quem são os "mocinhos" e os "vilões" da economia do país.

No capítulo intitulado "Cem milhões de pobres a menos", ele discorre sobre o crescimento da renda do povo brasileiro entre 2000 a 2010. Segundo o autor, apesar de a esquerda defender que os motivos foram os programas sociais do governo Lula e de a direita atribuir o fato ao crescimento econômico iniciado na gestão de Fernando Henrique Cardoso, a reposta é outra. "A melhoria de vida dos brasileiros no começo dos anos 2000 também é fruto da decisão de milhares de mulheres que, a partir dos anos 1980, tiveram menos filhos", afirma no livro.

A série dos guias politicamente incorretos ainda conta com volumes sobre a história do Brasil, a história do Mundo, a história da América Latina, o sexo , a filosofia e o futebol.

Abaixo, leia um trecho do "Guia Politicamente Incorreto da Economia Brasileira".

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Cem milhões de pobres a menos

O que explica tanta melhoria da vida dos pobres durante os anos 2000?

Não é novidade que, do fim do governo Fernando Henrique Cardoso ao começo do governo Dilma Rousseff, os índices que medem a condição dos pobres renderam excelentes notícias. De 2000 a 2010, a renda dos brasileiros mais pobres cresceu 68%, o número de pessoas que viviam com até um dólar por dia caiu 75% e cerca de 30 milhões de pessoas pularam para cima da linha da miséria. Se nos anos 2000 economistas estavam frustrados porque a desigualdade de renda custava a diminuir, a partir de 2001 ela despencou. Em 2002, metade das cidades brasileiras tinha Índice de Desenvolvimento Humano muito baixo: treze anos depois, só 0,6% dos municípios ainda estavam nessa categoria. Goste-se ou não do petista, esses anos abrigaram as "maravilhas sociais da era Lula", como denomina o economista liberal Ricardo Paes de Barros.

A explicação para essas boas notícias costuma depender da preferência política de cada um. A esquerda diz que foram os programas sociais, como o Bolsa Família, e a política de valorização do salário-mínimo. A direita diz que o crescimento econômico, ao lado da baixa inflação do Plano Real, atraiu investimentos e criou vagas de trabalho, tornando mais fácil dar adeus ao chefe e ingressar num emprego melhor. A resposta mais aceita costuma mesclar várias: a vida dos pobres melhorou por causa dos programas sociais aliados à universalização da educação, ao boom na economia e à estabilidade da moeda.

Há ainda outra resposta não tão conhecida. É esta aqui: a pobreza diminuiu no Brasil porque, há pouco mais de trinta anos, os pobres simplesmente deixaram de nascer. A melhoria de vida dos brasileiros no começo dos anos 2000 também é fruto da decisão de milhares de mulheres que, a partir dos anos 1980, tiveram menos filhos. O bônus demográfico que elas produziram acentuou progressos políticos e atenuou as tolices econômicas que os presidentes cometeram.

Dê uma olhada no gráfico a seguir - eu o chamo de O Gráfico que Explica o Brasil. Ele mostra a evolução do número de filhos por mulher brasileira de acordo com a taxa de escolaridade.

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Repare no que acontecia em 1970. Mulheres que passaram no máximo três anos na escola tinham em média 7,2 filhos, enquanto aquelas com mais de oito anos de educação ficavam com 2,7 filhos. Cada brasileira pouco escolarizada tinha 4,5 filhos a mais que uma mulher mais estudada. Dez anos depois, a fecundidade caiu levemente em todas as faixas de estudo, de modo que a diferença de fecundidade se manteve parecida (4,2 filhos). A partir de 1980, porém, houve uma queda radical na fecundidade das mulheres com até três anos de escolaridade. Em apenas uma década, elas passaram a ter três filhos a menos. Em 35 anos, a diferença de fecundidade passou de 4,5 para 1,6 filho por mulher. Montei uma tabela com esses dados:

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Brasileiros menos escolarizados são geralmente os mais pobres. Por isso a queda da diferença de fecundidade também aconteceu entre as classes sociais. É o que mostra na página seguinte. Ele divide as mulheres em cinco categorias de renda e mostra a fecundidade de cada faixa em 1980 e 2010. A primeira coluna, do estrato 1, se refere aos 20% de mulheres mais pobres; o estrato 5, as 20% mais ricas:

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No fim dos anos 1970, demógrafos acreditavam que a fecundidade alta era resultado da pobreza e que só o desenvolvimento econômico a reduziria. Mas, de repente, eles perceberam que enquanto a economia patinava, o número de filhos começou a cair. Como explicar? Os pesquisadores ainda hoje tentam entender. Como sempre, a explicação de um fenômeno social é influenciada pelo viés político. Em 1980, a demógrafa Elza Berquó disse que a crise econômica da época era tão grave que estava tirando a libido dos casais brasileiros (hoje ela diz que defendeu essa teoria somente por alguns meses). Em 2015, Tereza Campello, ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, disse que os programas assistenciais do PT eram os responsáveis pela queda da fecundidade. "O Bolsa Família tem garantido que as mulheres frequentem unidades básicas de saúde", disse ela à Agência Brasil. "A frequência do atendimento leva à melhoria do acesso à informação sobre o controle da natalidade e métodos contraceptivos." Faltou explicar como a queda da fecundidade começou trinta anos antes do início do Bolsa Família.

Há explicações mais plausíveis. Uma delas é a urbanização e a entrada das mulheres no mercado de trabalho a partir dos anos 1970. Tendo que bater o ponto todo dia, as mulheres sofreram mais restrições para ter filhos. A aids, a partir da década de 1980, também pode ter contribuído. Com o uso mais frequente da camisinha, menos mulheres engravidaram. Há ainda a popularização da pílula anticoncepcional e o efeito da televisão - talvez não só por dar aos casais outra coisa para fazer à noite, como muita gente comenta, mas por transmitir aos brasileiros a ideia de que uma família bem-sucedida tinha poucos filhos.

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GUIA POLITICAMENTE INCORRETO DA ECONOMIA BRASILEIRA
AUTOR Leandro Narloch
EDITORA Leya
QUANTO R$ 31,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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