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13/11/2015 - 14h47

'Em Busca do Rigor e da Misericórdia' relata processo criativo do novo disco de Lobão

da Livraria da Folha

Com uma narrativa poética, política e musical, "Em Busca do Rigor e da Misericórdia" documenta toda a trajetória do processo criativo do novo disco de Lobão. O projeto, idealizado há anos pelo artista, retrata o passo a passo, em tempo real, do músico tocando e gravando sozinho todas as canções da obra.

Divulgação
Livro apresenta relato intimista e afetivo que expõe a complexidade da vida interior e da criação solitária
Livro apresenta relato intimista e afetivo que expõe a complexidade da vida interior e da criação solitária

O resultado é um livro que apresenta um relato intimista e afetivo sobre a complexidade da vida interior e da criação solitária. Ao mesmo tempo, a obra recria o ambiente de tensão pública em que Lobão se encontra no momento.

"Além de gravar tudo sozinho, compor todo o material e tocar todos os instrumentos, para o que venho me preparando há anos, adicionarei a essa maratona demencial mais uma tarefa de fôlego: a de escrever este livro aparecido do nada, pois a ideia inicial seria produzir alguns capítulos suplementares para a segunda edição de '50 Anos a Mil', explica Lobão na introdução do livro.

Ele ressalta que, ao começar o texto sobre as histórias envolvidas na concepção do disco, concluiu que se tratava de algo mais profundo que o apêndice de segunda edição. Logo, surgiu "Em Busca do Rigor e da Misericórdia", que ele definiu como "um entrelaçamento criativo de dois rebentos muito queridos".

A autobiografia "50 Anos a Mil", escrita em parceria com Julio Tognolli, trata da infância calma de Lobão no Rio de Janeiro ao Grammy de 2007, passando pelos anos de loucura ao lado de Cazuza e Júlio Barroso.

Abaixo, leia um trecho de "Em Busca do Rigor e da Misericórdia".

*

Ação fantasmagórica à distância

Ainda não havia percebido o quanto de minha vida, de minha maneira de ver as coisas, de minhas relações com as pessoas, seria radicalmente afetado após o desafio de escrever a minha biografia.

Então, o momento de cumprir a promessa feita a mim mesmo, de "desengavetar" grande parte do que arquivara com meu método pessoal (o de "dar um tempo para digerir o tranco"), havia chegado. As emoções estavam afloradas, com todas as recordações em desfile. Uma bela conjugação para se criarem canções.

A primeira coisa que me veio à cabeça: vamos compor um disco novo, João Luiz? (Essa é a forma como me trato quando falo sozinho.) Com um estúdio atrás de minha antiga casa, na Pompeia, todos os instrumentos ao meu redor e uma alma renovada pelo feito de ter escrito mais de novecentas páginas em uns seis meses, imaginei que algo de novo pudesse brotar em termos de música.

Vasculhar as próprias entranhas resulta sempre num estado emocional muito sensível e propenso à criação, e o sentimento que primeiro saltou de meu coração, para minha surpresa, foi uma saudade imensa de meu pai.

Escrever sobre nossa tumultuada relação, nossas impossibilidades e entraves afetivos, sobre sua morte abrupta me encheu de amor filial. Senti que a hora de sair de um luto velado, catatônico e não assumido, de mais de oito anos, estava por chegar.

Nada poderia ser mais emocionante e desafiador do que tentar compor uma canção de amor e reconciliação para meu pai.

Vocês devem imaginar o quão perigoso é escrever obras dessa natureza, porque o risco de se tornarem piegas e artificiais é imenso. Assim, iniciei uma busca exaustiva de um conceito, de uma forma interessante e original por meio da qual pudesse veicular meus mais sinceros sentimentos.

Para dar início ao processo de criação, logo me veio a lembrança de um depoimento de Michio Kaku, professor de física teórica do City College de Nova York, autor de vários livros e apresentador de programas sobre ciência e ficção científica, que certa vez declarou sentir falta da presença da poesia nas novas descobertas da ciência, lamentando perceber uma grande lacuna na produção poética contemporânea, que não abordava temas tão maravilhosos como os que a ciência tem nos presenteado.

Novas teorias, a física quântica, as fotos estonteantes de longínquos rincões do universo, buracos negros, nebulosas, berçários de estrelas, supernovas monumentais, quasares, pulsares, viagem no tempo, energia escura, matéria escura, horizonte de eventos, teoria das supercordas, universos paralelos, e por aí vai, num sem-número de descobertas e formulações altamente inspiradoras.

Sempre fui fascinado com tudo isso e instantaneamente me apareceu uma ideia que poderia ser desenvolvida: a do entrelaçamento quântico! Ou, trocando em miúdos: a de que duas partículas podem se entrelaçar, interagir, se abraçar, se comunicar de maneira tal, que uma afetaria imediatamente a outra, não importando o limite de distância entre elas, mesmo que situadas chamou esse fenômeno de "ação fantasmagórica à distância" (spooky action at a distance), e o nome em si já seria um prato cheio ao desenvolvimento artístico do tema.

Imaginei minha relação com meu pai, onde ele pudesse estar (ou não) depois de morto, através de um teletransporte transcendental, uma metafísica do possível no impossível, por entrelaçamento quântico. Nesse instante, tive o pressentimento de que o universo clamava por ser observado por nós, e de que nós seríamos uma espécie de sentido do universo. (Tratarei desse forte sentimento com o universo posteriormente.)

Esses insights iriam me perseguir por semanas (na verdade, me perseguem até hoje) antes que saísse alguma coisa de objetivo. Como a tal letra não vinha, dei uma desapegada e me pus a procurar um instrumento com que não tivesse lá muita intimidade, que possuísse uma ergonomia diferente do violão ou da guitarra, outra afinação, outra ação; algo que me pudesse conduzir a um reino musical menos explorado e conhecido.

Olhei para a minha viola caipira no canto do estúdio e parti para ela. Imaginei que, por suas características de timbre e afinação, eu seria levado a compor algo predominantemente modal, baseado numa tônica forte, como um ré maior, caracteristicamente nordestino. Para minha surpresa, porém, o que apareceu foi uma espécie de choro híbrido, cheio de harmonias e com um buquê de música celta.

Uma harmonia que dava chão para uma bela melodia na primeira parte, um refrão em tom maior, vigoroso e alegre, seguido de sua conclusão. A melodia logo se encai­xou naquele tecido harmônico, e lá estava eu, feliz da vida, emocionadíssimo com minha nova cria: um tema bem estruturado, cadenciado como um choro, algo que me fez lembrar Paulinho da Viola, Garoto, João Pernambuco... E então só faltava a tal da letra.

*

EM BUSCA DO RIGOR E DA MISERICÓRDIA
AUTOR Lobão
EDITORA Record
QUANTO R$ 33,90 (preço promocional*)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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