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30/11/2015 - 15h08

Ivan Sant'Anna reconstitui naufrágio do Bateau Mouche IV em novo livro; leia trecho

da Livraria da Folha

Divulgação
Ivan Sant'Anna apresenta primoroso trabalho investigativo para reconstituir as causas do acidente
Em novo livro, Ivan Sant'Anna apresenta primoroso trabalho investigativo para reconstituir as causas do acidente

No dia 31 de dezembro de 1988, cerca de 150 pessoas saíram da enseada de Botafogo, na baía de Guanabara, para comemorar a chegada do ano a bordo do Bateau Mouche IV. No caminho, o barco naufragou, matando mais de 50 pessoas.

Entre os principais motivos da tragédia estão decisões equivocadas, negligência e falta de fiscalização. O número de mortos só não foi maior porque um iate e uma traineira conseguiram salvar quase cem pessoas.

Em "Bateau Mouche: Uma Tragédia Brasileira", Ivan Sant'Anna apresenta um primoroso trabalho investigativo para reconstituir as causas do acidente. Os processos das famílias que tiveram suas vidas arruinadas ainda percorrem os corredores da Justiça, mostrando que este cenário pouco mudou nos últimos anos.

Ivan Sant'Anna nasceu em 1940. Diplomado em mercado de capitais pela Universidade de Nova York, trabalhou quase 40 anos no mercado financeiro, operando nas bolsas de Nova York, Chicago e Londres. Em 1995, trocou os números pelas letras. Também assina "1929", "O Terceiro Templo" e Em Nome de Sua Majestade.

Abaixo, leia um trecho do livro.

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31 de dezembro de 1988. Àquela altura, as retrospectivas do ano que terminava já haviam sido exibidas nos jornais, nas revistas e na televisão, com diversas correções e inserções de última hora, pois, para aflição dos editores, cronistas e repórteres, boa parte dos acontecimentos nacionais e internacionais mais importantes se concentrara nos últimos dias.

O noticiário internacional vinha sendo dominado pela melhora nas relações entre as duas superpotências da época. Sob a liderança de Gorbatchev, a União Soviética estendia as mãos para os Estados Unidos de Ronald Reagan. Observadores arriscavam-se a prever o fim da Guerra Fria, iniciada quarenta anos antes.

Na segunda quinzena de janeiro, tomaria posse o 41º presidente dos Estados Unidos, George H. W. Bush, vice de Ronald Reagan. Bush, ao que tudo indicava, daria prosseguimento às conversações de desarmamento com os soviéticos.

Quem não via com bons olhos os sinais crescentes de amizade entre Gorbatchev e os americanos era Fidel Castro, cuja revolução socialista completaria trinta anos no dia 1º de janeiro de 1989. Pudera. Se a União Soviética parasse de comprar açúcar cubano por preços superiores aos do mercado internacional e de vender petróleo subsidiado à ilha caribenha, Cuba poderia enfrentar uma séria crise econômica.

O Império Soviético mostrava sinais inequívocos de declínio. Numa evidência clara disso, o Exército Vermelho, que invadira o Afeganistão nove anos antes, preparava- -se para deixar seu posto após sucessivas derrotas infligidas pelos mujahedins, guerrilheiros muçulmanos armados e financiados pelos Estados Unidos, o mesmo país que dava apoio ao ditador iraquiano Saddam Hussein. Na filosofia do Departamento de Estado norte-americano, "os inimigos dos meus inimigos são meus amigos", política aplicada nesse caso aos rebeldes afegãos, adversários dos soviéticos, e aos iraquianos de Saddam, inimigos do Irã.

Em meio a tantos fatos históricos impactantes, poucos se deram conta de uma notícia que circulou nas páginas internas dos jornais na última semana de 1988. Cientistas americanos desenvolviam uma super-rede que iria interligar computadores de todo o mundo.

Num ano que parecia terminar otimista para a maioria dos povos, o Brasil fez questão de remar contra a maré.

Uma pesquisa efetuada em 35 países pelos institutos de pesquisa Gallup, norte-americano, e Doxa, italiano, pusera os brasileiros em penúltimo lugar em otimismo, só à frente dos turcos. A principal razão do desencanto era a inflação anual de três dígitos e quase sempre ascendente que varrera o país durante a década - já classificada como "perdida" pela então oitava economia do mundo.

Dois anos antes, em 1986, o governo brasileiro lançara o Plano Cruzado, tendo como base o congelamento de preços e salários. Realmente a inflação desapareceu como que num passe de mágica, e o PIB cresceu 7,5%. Mas todos os sonhos caíram por terra logo após as eleições de 15 de novembro, na qual o PMDB, do presidente José Sarney, obteve uma vitória estrondosa. Os preços, represados artificialmente, se soltaram de repente, e os salários voltaram a ser reajustados, não raro mensalmente.

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Em meio às notícias das festas de réveillon, O Globo e o Jornal do Brasil anunciavam que no dia 2 de janeiro de 1989 os exemplares vendidos nas bancas sofreriam um aumento de 40%, passando de 250 para 350 cruzados, e 500 nos domingos. Informavam também que as passagens do metrô do Rio subiriam 24%, para 155 cruzados, a nova tarifa já valendo para quem utilizasse os trens no sábado, dia 31 de dezembro, para assistir ao show de fogos na praia de Copacabana.

Os mesmos jornais desfilavam sombrias estatísticas econômicas de fim de ano. Entre elas, via-se que os salários haviam subido 585% em 1988, contra uma inflação anual de 933,6%, configurando um dos maiores arrochos da história do país. Como se não bastasse, o INSS cobria a maior parte de seu déficit corroendo a pensão dos aposentados, usando para isso o estratagema de atrasar os reajustes e os próprios pagamentos dos benefícios, enquanto corrigia mensalmente o recolhimento previdenciário sobre o salário do pessoal ativo.

Para 1989, tudo indicava que o cenário seria ainda pior. A empresa de consultoria Macrométrica, do economista Francisco Lopes, previa para o ano que se iniciava uma inflação, na melhor das hipóteses, de 1500% (o número atingiria 1973%).

Politicamente, o Brasil encontrava-se em compasso de espera, por causa das eleições presidenciais de 1989. Após quase trinta anos de hiato, os brasileiros voltariam a escolher o presidente por voto direto. Uma prévia acontecera em 15 de novembro de 1988: 4307 prefeitos haviam sido eleitos para um mandato de quatro anos e tomariam posse no dia 1º de janeiro. Entre eles, Luiza Erundina, de São Paulo, candidata do PT, que sucedera Jânio Quadros.

Ela se beneficiara de um incidente, ocorrido dias antes das eleições: em Volta Redonda, tropas do Exército atacaram grevistas da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), matando três operários. A ação militar enfraqueceu, na última hora, a candidatura de Paulo Maluf, até então o líder das pesquisas na capital paulista e político muito ligado às Forças Armadas. Por causa do episódio de Volta Redonda, Maluf perdeu por uma significativa diferença de 5,5%.

O Rio também elegera um candidato de esquerda, o pedetista Marcello Alencar, sucedendo outro esquerdista, Saturnino Braga. Alencar prometera regularizar os salários dos funcionários municipais, que não recebiam havia quarenta dias e não trabalhavam havia 101.

Mas não foram as eleições nem a inflação que levaram o Brasil às manchetes da imprensa internacional nos últimos dias de 1988. O acontecimento brasileiro que mais repercutira no exterior foi o assassinato, na quinta-feira, 22 de dezembro, do líder seringueiro e ecológico Francisco Mendes Alves Filho, mais conhecido como Chico Mendes, abatido por uma espingarda calibre.12 no quintal de sua casa em Xapuri, no estado do Acre. No jornal The New York Times, as investigações sobre o caso dividiam a primeira página com a busca pelos terroristas que haviam derrubado o jumbo da Pan Am.

Uma bomba-relógio contendo explosivo plástico, posta no interior de uma valise despachada por um agente de inteligência líbio, Abdelbaset al-Megrahi, e armazenada no porão de bagagens de um Boeing 747-121 da Pan Am, explodiu no ar e derrubou o jumbo - que caiu sobre a cidadezinha de Lockerbie, no sudoeste da Escócia, em 21 de dezembro. E não foi um incidente qualquer. Na tragédia, morreram os 259 passageiros e tripulantes do jato, além de onze pessoas em terra.

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BATEAU MOUCHE: UMA TRAGÉDIA BRASILEIRA
AUTOR Ivan Sant'Anna
EDITORA Objetiva
QUANTO R$ 26,20 (preço promocional *)

* Atenção: Preço válido por tempo limitado ou enquanto durarem os estoques.

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