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18/12/2015 - 14h35

Com 2 mil a bordo, transatlântico naufragou após ser atingido por torpedo alemão

da Livraria da Folha

Três anos depois da colisão do Titanic em um iceberg do Atlântico Norte, o mundo foi surpreendido por outra tragédia em alto-mar, envolvendo também um luxuoso transatlântico. No dia 1º de maio de 1915, com a Primeira Guerra Mundial chegando a seu décimo mês, o Lusitania saiu de Nova York com destino a Liverpool, com quase 2 mil pessoas a bordo e um número recorde de bebês e crianças.

Divulgação
Em abril de 1944, Henry Katina e seus familiares foram presos pelos homens de Hitler e deportados para a Polônia dentro de vagões de carga
Em abril de 1944, Henry Katina e seus familiares foram presos pelos homens de Hitler e deportados para a Polônia

Seis dias depois, o navio naufragou próximo à costa sul da Irlanda, após ter sido atingindo por um único torpedo, disparado por um submarino alemão. Embora o clima fosse de guerra, os passageiros estavam tranquilos; o navio era rápido, novo, e seu capitão, William Thomas Turner, acreditava piamente no cavalheirismo de guerra que por um século evitou que navios civis fossem atacados.

Não foi bem assim. Determinada a mudar as regras do jogo, a Alemanha contou com a ajuda de Walther Schwieger, capitão do Unterseeboot-20, que estava feliz em colaborar. Algum tempo depois, uma série de forças como a arrogância, um nevoeiro e um segredo bem guardado consolidou uma das maiores tragédias da história.

Em "A Última Viagem do Lusitania", Erik Larson revive momentos de figuras célebres da época, como a arquiteta pioneira Theodate Pope, o presidente norte-americano Woodrow Wilson e até mesmo Winston Churchill.

Abaixo, leia um trecho do livro.

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UMA PALAVRA DO CAPITÃO

Na noite de 6 de maio de 1915, quando seu navio se aproximava da costa da Irlanda, o capitão William Thomas Turner saiu do passadiço e foi ao saguão da primeira classe, onde passageiros assistiam a um concerto e concurso de talentos, atividades costumeiras nas travessias da Cunard. O salão era grande e aquecido, com painéis de mogno, tapetes verdes e amarelos e duas lareiras de mais de quatro metros de altura nas paredes da frente e dos fundos. Em geral Turner evitava comparecer a eventos dessa natureza a bordo do navio, pois tinha aversão às obrigações sociais de capitão, mas aquela não era uma noite comum, e ele tinha notícias a dar.

Já havia uma boa dose de tensão no local, apesar das cantorias, do piano e dos desajeitados truques de mágica, e a tensão ficou mais pronunciada quando Turner se adiantou para falar durante o intervalo. Sua presença teve o perverso efeito de confirmar tudo o que os passageiros temiam desde a partida de Nova York, assim como a chegada de um padre tende a murchar o sorriso alegre de uma enfermeira.

A intenção de Turner, porém, era tranquilizar. Sua aparência ajudava. Com o físico de um armário, ele era a personificação da força sossegada. Tinha olhos azuis e um sorriso suave, e o cabelo grisalho - Turner tinha 58 anos - transmitia sabedoria e experiência, assim como o simples fato de ser um capitão da Cunard. Em conformidade com a prática da companhia de fazer um rodízio de capitães entre os navios, era a terceira vez que ele comandava o Lusitania, e a primeira em tempo de guerra.

Turner disse à plateia que no dia seguinte, sexta-feira, 7 de maio, o navio ingressaria nas águas da costa meridional da Irlanda, que ficavam dentro da "zona de guerra" designada pela Alemanha. Em si, aquilo não era novidade. Na manhã em que o navio partiu de Nova York, surgira uma notícia na seção de transporte marítimo dos jornais nova- -iorquinos. Publicada pela embaixada da Alemanha em Washington, ela lembrava aos leitores a existência da zona de guerra e advertia que "navios com a bandeira da Grã-Bretanha, ou de qualquer aliado dela, são passíveis de destruição" e quem viajava nessas embarcações "o faz por sua conta e risco". Embora a advertência não citasse um nome em particular, a interpretação geral foi a de que se aplicava ao navio de Turner, o Lusitania, e, de fato, em pelo menos um jornal importante, o New York World, a notícia apareceu perto do anúncio da Cunard sobre a embarcação. Desde então, tudo que os passageiros faziam era "pensar, sonhar, dormir e comer submarinos", de acordo com Oliver Bernard, cenógrafo que viajava na primeira classe.

Turner então revelou à plateia que no começo da noite o navio tinha recebido um aviso por telegrama sobre recentes atividades de submarinos na costa irlandesa. Mas assegurou a todos que não era razão para ficarem alarmados.

Vindo de outro homem, aquilo poderia parecer um paliativo infundado, mas Turner acreditava nas próprias palavras. Duvidava da ameaça representada por submarinos alemães, sobretudo quando se tratava daquele navio, um dos grandes "galgos" transatlânticos, assim denominados por causa da velocidade que podiam alcançar. Seus superiores na Cunard partilhavam de seu ceticismo. O administrador da empresa em Nova York divulgou uma resposta oficial à advertência alemã: "A verdade é que o Lusitania é o navio mais seguro que existe no mar. É rápido demais para qualquer submarino. Nenhum navio alemão pode alcançá-lo ou chegar perto dele." A experiência pessoal de Turner dizia o mesmo: em duas ocasiões anteriores, quando era capitão de outro navio, ele deparara com o que se supunha serem submarinos e se livrara deles mandando avançar a todo vapor.

Sobre esses incidentes, ele nada contou à plateia. A garantia que ofereceu foi de outro tipo: ao entrar na zona de guerra no dia seguinte, a segurança do navio estaria aos cuidados da Marinha Real.

Deu boa noite aos ouvintes e voltou para o passadiço. O concurso de talentos prosseguiu. Alguns passageiros dormiram de roupa e tudo na sala de jantar, com medo de ficarem presos abaixo do convés, em seus camarotes, em caso de ataque. Um viajante especialmente ansioso, um vendedor de tapetes grego, pôs o colete e entrou num barco salva- -vidas para passar a noite. Outro, um comerciante de Nova York chamado Isaac Lehmann, reconfortou-se um pouco com o revólver que sempre levava consigo e que, mais cedo do que seria de esperar, lhe traria certa dose de fama e infâmia.

Com quase todas as luzes apagadas e todas as persianas e cortinas fechadas, o grande transatlântico avançava no mar, às vezes em meio a um nevoeiro, às vezes sob um rendilhado de estrelas. Mas mesmo no escuro, ao luar e no nevoeiro, o navio se destacava. À uma da manhã de sexta-feira, 7 de maio, os oficiais de um navio que seguia para Nova York avistaram o Lusitania e o reconheceram de imediato, quando passou a pouco mais de três quilômetros de distância. "Dava para ver o vulto das quatro chaminés", disse o capitão, Thomas M. Taylor. "Era o único navio com quatro chaminés."

Inconfundível e invulnerável, uma aldeia de aço flutuante, o Lusitania planava na noite como uma gigantesca sombra negra projetada sobre o mar.

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A ÚLTIMA VIAGEM DO LUSITANIA
AUTOR Erik Larson
TRADUTOR Berilo Vargas
EDITORA Intrínseca
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